Simone Carleto*
O quinto dia do Festa 57 foi o primeiro dia da programação que aconteceu na orla da praia. Três espetáculos foram apresentados na Fonte do Sapo. Com a trégua da chuva praticamente ininterrupta todos os dias, a Cia. Animalenda, de Itanhaém, armou sua empanada toda singela de retalhos e adereços para ‘A Moça da Janela’. Estela Carvalho, Kely de Castro e Vinícius Camargo interagiram com o público, de crianças, jovens, adultos e idosos, durante todo o tempo, com a obra inspirada em canção homônima de Felipe Iszlay e Vinícius Camargo, que também assina a direção musical. A peça conta a história de amor entre um carteiro, o Moço do Correio e uma moradora do bairro em que ele entrega as cartas, a Moça da Janela.
Assim, tomando o ponto de vista do carteiro como argumento, o enredo se desenvolve em cinco dias, sinalizado por plaquetas, do mesmo modo como são apresentados outros objetos do teatro de animação, além dos bonecos de mamulengos, todos manipulados pela bonequeira Kely, enquanto Estela e Vinícius fazem a mediação com o público, sendo que o músico também tem a função de narrar passagens, assim como as canções, executadas em violão, triângulo, pandeiro e partes de garrafas plásticas que são usadas como instrumentos de sopro. Uma das canções, inclusive, acalenta a bela cena poética que descreve o sonho do carteiro: ‘Voei, voei, voei mais ela/ Quem dera não fosse sonho/ Quem dera!’ Esta parte encantadora mostra nuvens, móbile de estrelas, balão com cesto e bonequinhos, além dos bonecos que representam o casal abraçados num voo, como se fossem pássaros.
Além das personagens citadas, aparecem, a cada dia em que o carteiro entrega uma carta (cartas estas escritas pela própria Moça, para que o Moço as viesse entregar diariamente), outras figuras compõem a narrativa e proporcionam peripécias ao Carteiro-Poeta. No primeiro dia, ele encontra um bêbado; no segundo o policial; no terceiro dia, que ele havia dito ser tranquilo, o público é surpreendido com um cachorro feroz; no quarto, não havia mais cartas a serem entregues e os narradores/músicos buscam descobrir o que está ocorrendo e quem enviava as cartas, depois de discutirem entre eles e duelarem num repente elaborado.

‘Quem será que escreve para ela/Quem será seu admirador/Quem será que ela espera/Quem será que há de ser o seu amor?’ Hipóteses são levantadas com bonecos bidimensionais do padre, feirante, delegado, palhaço que se transforma em lobisomem, além de uma brincadeira com homem do público, finalizando a peleja. Depois disso, lança-se mão do recurso de abrir a janela feita na frente do anteparo, de onde saem miniaturas da sala da casa e a boneca da Moça, que antes estava representada apenas pelo desenho de uma casinha colocada na parte de cima da estrutura, caracterizando-se também em cenário, compondo com as montanhas e a praia ao fundo.
No que diz respeito à relação com as crianças do público durante a narrativa, a Cia. pode apropriar-se da referência do Mateus (figura fundamental ao desenrolar do espetáculo popular de mamulengos, desempenhada no grupo pelos músicos), no sentido de utilizar expedientes característicos da função. Assim, completa-se uma visão de mundo ideal, em que as crianças são incentivadas a lutar pelos sonhos, assim como os grupos da Baixada estão lutando pela importante lei de Fomento – a exemplo de São Paulo e algumas outras cidades -, tema deste ano do festival.
* Artista pedagoga, pesquisadora teatral e coordenadora da Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos; doutoranda no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”
