Luiz Eduardo Frin*
É uma alegria e, ao mesmo tempo, uma dificuldade escrever sobre a apresentação do espetáculo ‘Baile do Anastácio’ da Cia. Oigalé do Rio Grande do Sul, realizada na Fonte do Sapo no início da noite do último sábado dentro da programação do Festa 57.
A alegria é pela oportunidade de se referir a um espetáculo tão bem constituído e apresentado por intérpretes inspirados, conhecedores e preparados para o seu ofício.
A dificuldade reside na percepção que uma apreciação crítica não é capaz de abarcar e de racionalizar os inúmeros expedientes de uma realização artística, ainda mais quando eles foram tão bem articulados como na apresentação da Oigalé.
Com dramaturgia de Luís Alberto de Abreu, nome de referência na dramaturgia e na teoria teatral brasileiras da atualidade, o espetáculo apresenta a tentativa de Riograndino Anastácio e sua esposa Minuana de casar a sua filha Maria Pampiana e, com o casamento, impulsionar os negócios da família. Para isso, promovem uma grande festa: O Baile do Anastácio.
Tanto a dramaturgia de Abreu, quanto a encenação da Companhia, estão embasados em elementos da Cultura Popular Brasileira que se imbricam em expedientes da ancestral Commedia dell’arte.
Originada na Europa na transição da Idade Média para o Renascimento, a Commedia dell’arte, com suas personagens típicas (muitas vezes inspiradas em animais) e situações improvisadas a partir de um enredo proposto, apropriou-se de expedientes ancestrais do teatro popular, como o humor, a utilização prioritária de expedientes corporais dos interpretes (entre eles malabarismos e técnicas circenses), a música e a própria capacidade de improvisação para alcançar uma vigorosa relação com o público influenciar manifestações cênicas populares mundo afora.

Ao acompanhar uma encenação de precisão formal ímpar, com movimentos coreografados e executados com vigor pelos intérpretes que assumiam diferentes personagens representadas a partir de posturas corporais bem definidas, o público se deliciou com os estratagemas do criado da família (um verdadeiro Arlechim dos Pampas) que impediram que Maria Pampiana fosse obrigada a se casar com uma série de pretendentes gananciosos, interessados principalmente nas terras de Riograndino e Minuana.
As associações entre a saga da família com a questão latifundiária brasileira surgem claras e tanto o texto de Abreu, quanto a encenação de Oigalé, servem a realização de um teatro na qual elementos de cunho político estão claros e artisticamente expostos. Quem ganha é o público.
O que o nosso criado não conseguiu, foi realizar o seu desejo de se casar com Maria Pampiana, por quem era apaixonado. Heroína de nosso tempo, Pampiana termina a peça deixando a família para se casar com quem o seu coração mandar.
*Ator, diretor e professor de teatro. Mestre e doutorando na Unesp sob a orientação de Alexandre Mate.