Simone Carleto*
Durante nove dias, de 1 a 9 de setembro de 2015, muitas vezes literalmente até debaixo d’água, o público da cidade e de outras localidades acompanhou espetáculos de estéticas e propostas diferenciadas, de todo o País. Foram mais de 30 peças teatrais, leituras dramáticas, intervenções, shows, bate-papos, diálogos reflexivos após as apresentações mediadas por orientadores, sem contar as trocas informais proporcionadas pela convivência entre artistas, fazedores e público, durante todas as oportunidades de encontro e diálogos. Além disso, foram produzidos registros fotográficos, em vídeo e publicado um suplemento especial, em parceria com o jornal Diário do Litoral, com cobertura completa e leituras críticas a respeito das encenações.
Porém, o mais importante a ser ressaltado é a forma como tudo isso foi possível. Com a organização e militância dos grupos que fazem acontecer o Movimento Teatral da Baixada Santista. Dificilmente se pode ver uma atividade dessa magnitude, tão bem organizada, com tanta gente da cidade envolvida, acompanhando tudo, compreendendo as situações como possibilidades de aprendizagem e partilha. Tantas vezes apresentando seu espetáculo numa noite e, logo bem cedo, sempre pontualmente, transportando artistas, cenários e adereços para as próximas apresentações. Dedicação pura e consequente para quem deseja, coletivamente, transformar uma cidade.

Uma Lei de Fomento, a exemplo das mudanças operadas no cenário paulistano e em algumas outras cidades, tem o potencial de possibilitar que a sociedade tenha acesso a ver, ler e produzir arte pública. E num lugar como Santos e Baixada, com sinais do surgimento de uma cena autoral, que pesquisa, divulga e valoriza a produção dos artistas precursores da arte e da cultura no litoral, uma iniciativa como essa pode alterar todo um estado de coisas. Por exemplo, pode apontar caminhos para uma educação verdadeiramente democrática, inclusiva e cidadã. O que o Movimento Teatral realiza na cidade de Santos é exemplar para coletivos e população de outras cidades. Unindo a convicção no poder revolucionário da arte e da cultura com as condições objetivas de produzir pesquisa, experimentação em relação com o público, formação artística e cultural, Santos pode se tornar referência, como já acontece com o FESTA, de como realizar um movimento próprio, autêntico e significativo, em conjunto com a população.
Que a legítima luta prossiga e a conquista desse merecido espaço, em consonância aos movimentos sociais, possa ser o salto de qualidade para o fortalecimento das principais lutas: pelo direito à vida e à dignidade.
*Artista pedagoga, pesquisadora teatral e coordenadora da Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos; doutoranda no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”.