Rodrigo Morais Leite*
‘Blitz’, criação coletiva da Trupe Olho da Rua, é um daqueles espetáculos contundentes, nos quais não há espaço para nuances ou meios-tons. Tudo o que nele se insere é expresso de maneira direta, sem retoques, deixando claro, desde as primeiras cenas, seu real objetivo: propor uma reflexão sobre a política de segurança pública do Brasil e do Estado de SP em particular. Para levá-la a efeito, o grupo não esconde nem por um minuto que seu principal alvo, embora não o único, é a polícia militar, entre outras coisas devido a seu caráter de polícia de choque, isto é, de enfrentamento.
Composto de várias cenas ‘independentes’, que não se interligam para compor uma história, ‘Blitz’ apresenta uma estrutura dramatúrgica próxima do chamado ‘teatro de revista’, gênero popular no passado que consistia basicamente numa série de quadros intercalados de maneira algo aleatória, cujo propósito era sempre o de satirizar a vida pública. Além da polícia militar, muitas pessoas públicas, quase sempre figurinhas carimbadas da mídia nativa, ‘comparecem’ na peça de modo caricatural, como Glória Maria, Datena e Raquel Sheherazade.
Em se tratando de uma obra desprovida de nuances, ‘Blitz’ não faz nenhuma questão de esconder seu viés ideológico, claramente posicionado à esquerda no espectro político. Com efeito, as críticas nela embutidas estão ligadas a certas ‘bandeiras’ próprias de uma linha de pensamento mais progressista, que questiona, por exemplo, a política de encarceramento em vigência no país ou a maneira como a imprensa sensacionalista lida com a violência urbana.

Cenicamente, tudo isso vem à tona por meio de uma gama rica de elementos, que vão das máscaras de animais usadas pelos atores até o andaime posto em cena para servir de guarita ou prisão. Recursos de intervenção direta no ambiente, como simular uma blitz no entorno da praça, também são utilizados, sempre em chave cômica. O humor, aliás, é uma das qualidades do espetáculo, farto na utilização da ironia – ou, melhor seria dizer, do sarcasmo – para atingir seus alvos prediletos. Se se pode fazer uma ressalva a ‘Blitz’, esta diz respeito não à abordagem conferida à obra ou à sua estrutura, mas ao excesso de cenas, o que a torna prolixa e não contribui para a obtenção de uma maior organicidade.
Talvez pelo fato de ter sido concebida em um processo de criação coletiva, no qual todos os membros do grupo contribuíram com a proposição de cenas, a primeira apresentação de ‘Blitz’ demonstrou-se, ainda, um tanto carregada e caudalosa, às vezes se estendendo em demasia em alguns quadros, às vezes se perdendo um pouco nos momentos de interação com o público. Além desses problemas retirarem do espetáculo uma boa dose de ritmo e agilidade, eles também minimizam a virulência da crítica, que se perde no emaranhado de referências e sugestões. Para que isso não aconteça novamente, seria necessário um trabalho de matização das cenas, ‘enxugando-as’ e montando-as de modo a cobrir os vácuos que ficaram à mostra. Quanto ao problema da participação do público, é algo que o tempo naturalmente corrigirá, na medida em que, tratando-se de uma estreia, os atores não tiveram a oportunidade de ‘ensaiar’ com ele. Uma vez ‘lapidado’, ‘Blitz’ se tornará, com certeza, o relâmpago expresso no título em sua acepção original.
*É doutorando e mestre em Artes Cênicas pela Unesp