A radicalidade no Projeto Bispo

Às 21h, mais de cem pessoas juntavam-se na Praça Mauá, em frente à sede da Prefeitura, para assistir ao projeto

Simone Carleto

Domingo, véspera de feriado, e o fluxo de pessoas aumentou consideravelmente na cidade. O Centro Histórico, porém, provavelmente estaria deserto, não fosse a efervescência causada pelo FESTA 57. Às 21h, mais de cem pessoas juntavam-se na Praça Mauá, em frente à sede da Prefeitura, para assistir ao  ‘Projeto Bispo’, d’O Coleitvo’. Constituído por membros de outros grupos da Baixada, o agrupamento deu-se em torno de desejos criativos comuns. Assim, surgiu a obra processional (aquela em que o público acompanha as cenas, apresentadas em forma de estações, como em uma procissão), apresentada em deambulação pelo Centro.

Totalmente relacionado às questões contemporâneas da sociedade e do teatro, a peça divide-se estruturalmente em duas partes. A primeira trata-se de uma série de intervenções urbanas, bastante consequentes, chamando a atenção para a vivência que parte da população tem nesse território, já que circunstanciado histórica e culturalmente. A segunda parte tem início quando se chega à Casa da Frontaria Azulejada. Neste espaço, provocam-se sensações e reflexões, a partir da criação de inúmeras imagens-instalações contundentes, que revelam facetas da relação humana com a loucura, confinamento e barbárie. Ambas, juntas, configuram um potente e violento manifesto pela vida, ancorado em questões objetivas constitutivas do direito à vida pública.

Com caráter épico, a visceralidade impressa torna a atuação condizente com a temática e forma escolhida pelos atores, que demonstram no corpo a compreensão das atitudes radicais de suas performances. O aspecto performativo configura-se como um dos aspectos determinantes da proposta relacional do espetáculo, que, sobretudo na segunda parte, inclui o público como internos de um possível hospício, em que o aparente controle não apaga o caráter instintivo e animalesco de nossa espécie. Cada pessoa podia perceber de um modo o que estava proposto. Colocar-se em muitos lugares e possibilidades de onde se ver as cenas, imagens, sombras, perspectivas. A ocupação do espaço com instalações artísticas, parangolés, desenhos dos próprios corpos a se movimentarem entre as colunas da arquitetura evidenciada pela obra, representa uma das tantas dramaturgias possíveis de serem tecidas pelo público.

Ao final, os artistas saem para a rua, encerrando no espaço o público, como se estivesse internado a partir dali. E como duvidar de que, de fato, estamos presos ao sistema e condicionados, considerando-nos livres e pós-modernos, talvez confinados em aplicativos e (en)redes ‘sociais’?