A arte de fazer rir superando obstáculos

O palhaço Zaborim entretém sua audiência apresentando uma série de números circenses, nem todos ligados ao universo específico da palhaçaria

Rodrigo Morais Leite*

Como seu título já indica, ‘Circo do só eu’ é um espetáculo solo de palhaço, criado e executado por Esio Magalhães, do grupo campineiro Barracão Teatro. Sua premissa, própria da linguagem em que está inserido, é simples e poderia ser resumida assim: ao ver o seu circo abandonar determinada cidade, o palhaço Zaborim resolve, para atender à demanda do público, substituir sozinho a atração que se foi. Com essa intenção, Zaborim entretém sua audiência apresentando uma série de números circenses, nem todos ligados ao universo específico da palhaçaria – como, por exemplo, o equilíbrio de pratos, a hipnose e os truques de mágica. É o que basta para a realização de um espetáculo bastante divertido.

Embora tenha sido concebido para a rua, por questões meteorológicas a apresentação de ‘Circo do só eu’ foi transferida para o Teatro Guarany, uma contingência que, com certeza, acarretou uma quantidade considerável de problemas à produção e, mais ainda, ao artista responsável pela obra. Tratando-se de um espetáculo relacional, isto é, amparado no jogo que o ator desenvolve com os espectadores, a separação rígida estabelecida pelo palco italiano entre a cena e a plateia só poderia, em tese, atrapalhar, por dois motivos básicos: reduzir o horizonte espacial do ator, obrigado a manter uma relação frontal com o público; interpor entre um e outro um fosso, algo que obviamente só dificulta um contato mais próximo do primeiro com o segundo. Para a felicidade de todos, mais do que superar semelhantes obstáculos Esio Magalhães soube utilizá-los a seu favor, transformando-os em motivos de piada, numa demonstração cabal de desenvoltura.

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Sendo ‘Circo do só eu’ um espetáculo solo, percebe-se nele algo parecido com o que se vê nos monólogos do teatro ‘tradicional’, nos quais, na falta de um interlocutor, cabe à plateia assumir esse papel. No caso específico da linguagem clownesca, sem poder contar com o chamado clown branco, aquele que normalmente serve de escada ao outro palhaço, o augusto, Esio Magalhães acaba delegando ao público tal função, solicitando sua participação nos números apresentados. Isso quer dizer o seguinte: ao chamar os espectadores a dividir a cena com ele, o palhaço de Magalhães faz deles escada para suas pilhérias. Contudo, devido às eventualidades inerentes de um espetáculo que se propõe totalmente aberto à participação do público, muitas vezes cabe a este o desfecho da piada, adquirindo assim, no seu desenrolar, um protagonismo curioso, a tal ponto de não se saber exatamente, nessa relação, quem ‘zoa’ e quem é ‘zoado’.

Para que a comicidade de ‘Circo do só eu’ funcione plenamente, é necessário da parte do ator uma capacidade considerável de improvisação, o que não quer dizer, nem de longe, a inexistência de um roteiro pré-estabelecido a guiá-lo, sem o qual, provavelmente, a obra não se manteria de pé do início ao fim. Dentro desse roteiro, verifica-se que não há espaço para um humor excessivamente grotesco, algo quase inerente à arte do palhaço. Ao optar por uma caracterização, dir-se-ia, mais decorosa, o grau de dificuldade na execução do espetáculo teoricamente aumenta, na medida em que Zaborim não recorre a certos recursos infalíveis para a irrupção de risos desbragados, tais como palavrões e piadas escatológicas. Sem deixar em nenhum momento ‘a peteca cair’, mesmo se deparando com todos esses reveses, Esio Magalhães cumpriu com galhardia o objetivo primordial de seu métier: alegrar as pessoas ali presentes.


*Rodrigo Morais Leite é doutorando e mestre em Artes Cênicas pela Unesp, onde desenvolve pesquisa relacionada à crítica e à historiografia do teatro brasileiro. Leciona teoria teatral na Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos.