Rodoviárias do Brasil vão estar mais cheias do que o normal nas próximas semanas / Marcela Camargo/Agência Brasil
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'O aumento no preço do querosene de aviação (QAV) pode provocar uma nova disparada nas tarifas aéreas e alterar o comportamento dos viajantes brasileiros nas próximas semanas.
Especialistas do setor projetam que o encarecimento do combustível utilizado pelas companhias aéreas deve elevar em até 35% o valor das passagens e impulsionar uma migração expressiva de passageiros para o transporte rodoviário.
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A estimativa é de que até 25% da demanda aérea seja redirecionada para ônibus interestaduais ainda neste trimestre, em um movimento puxado pela crescente diferença de preços entre os modais.
Segundo o setor, o querosene de aviação representa atualmente cerca de 45% dos custos operacionais das companhias aéreas, tornando o segmento altamente sensível às oscilações do petróleo e do dólar.
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Para Victor Coutinho, CEO do Buszap, plataforma de venda de passagens rodoviárias, o reajuste tende a aprofundar uma disparidade tarifária já existente no mercado.
“Esse movimento amplia uma distorção que já existia: em muitas rotas, o preço da passagem aérea é proibitivo. Quando o passageiro percebe que pode economizar centenas de reais sem abrir mão da viagem, a decisão muda rapidamente e o rodoviário captura essa demanda”, afirma.
Querosene de aviação representa atualmente cerca de 45% dos custos operacionais das companhias aéreas (Divulgação/Aeroporto de Viracopos)Na avaliação de Mário Marques, professor de economia da SKEMA Business School, o cenário reflete um comportamento clássico de mercado diante da alta de preços.
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“QAV é fortemente atrelado à paridade internacional e ao dólar, o que tende a gerar um repasse relativamente rápido às tarifas aéreas. Já no transporte rodoviário, embora o Diesel S-10 também seja influenciado pelos preços internacionais, o repasse no Brasil nem sempre é integral ou imediato, o que pode suavizar os impactos no curto prazo. Estamos diante de um efeito substituição clássico: o consumidor não deixa de viajar, mas migra para modais de menor custo”, explica.
Recentemente, uma pane elétrica derrubou o sistema dos dois principais aeroportos de São Paulo. Problema chegou a afetar rede e prejudicar voos em 19 aeroportos do Estado.
Levantamento de mercado feito pelo Buszap aponta que, em algumas rotas, a diferença entre viajar de avião e de ônibus pode ultrapassar R$ 1.400 no trecho de ida e volta.
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No comparativo apresentado pela empresa, uma viagem entre São Paulo e Salvador pode custar cerca de R$ 2.150 de avião após o reajuste, contra R$ 740 no transporte rodoviário em categoria leito ou semi-leito — uma economia de R$ 1.410.
Segundo Victor Coutinho, o ônibus ganha competitividade não apenas pelo preço, mas também pela previsibilidade tarifária.
“Diferente do aéreo, onde a tarifa oscila por algoritmos agressivos, no rodoviário conseguimos manter uma previsibilidade de preço, facilitando o acesso de quem precisa se deslocar de última hora sem pagar fortunas”, pontua.
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Com base no comportamento recente do consumidor e na digitalização da venda de passagens, a plataforma projeta crescimento de 25% na procura por viagens rodoviárias nas próximas semanas.
A expectativa do setor é que o encarecimento do transporte aéreo fortaleça especialmente viagens interestaduais de média distância, nas quais o tempo de deslocamento terrestre ainda é considerado competitivo frente ao custo-benefício do avião.
Segundo a empresa, o estudo cruzou dados históricos de reajustes da Petrobras para QAV e Diesel S-10, índices de inflação do IBGE e relatórios de custos operacionais da ANAC e da ABEAR.
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As projeções consideram o preço médio atual das passagens aéreas acrescido do repasse do combustível e da sazonalidade típica do período entre maio e junho.
Se confirmada, a alta representará um novo teste para o bolso do consumidor e pode consolidar uma mudança temporária — ou até estrutural — na preferência dos brasileiros entre avião e ônibus em rotas nacionais.