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Ilha misteriosa do Brasil 'renasce' após eliminar erro deixado por cabras

Após 300 anos de devastação, a Ilha da Trindade recupera floresta com crescimento de 1.468%; entenda o fenômeno raro

Giovanna Camiotto

Publicado em 21/01/2026 às 19:01

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Essa é a ilha brasileira que concentra o maior número de mistérios / Reprodução

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A ilha brasileira que concentra o maior número de mistérios está passando por uma transformação radical e visível do espaço. Localizada a 1.180 km da costa do Espírito Santo, a Ilha da Trindade está ficando mais verde conforme aponta um estudo conduzido por pesquisadores do Museu Nacional, em parceria com a Marinha do Brasil.

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A pesquisa revela que o arquipélago conseguiu ampliar sua cobertura florestal em impressionantes 1.468% nas últimas três décadas, revertendo um processo de desertificação que já durava séculos. A degradação deste santuário ecológico começou em 1700, após a visita do astrônomo britânico Edmond Halley, famoso por calcular a órbita do cometa que leva seu nome.

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Com o intuito de garantir suprimentos para futuros navegadores, Halley introduziu cabras na ilha. O que parecia uma solução logística tornou-se um desastre ambiental, pois sem predadores, os animais se multiplicaram e consumiram a vegetação exuberante até restarem menos de 5% da cobertura original.

Ressurgimento

A mudança de cenário foi impulsionada por uma ação rigorosa que exterminou todas as cabras em 2005. Segundo a botânica Márcia Gonçalves Rogério, que liderou expedições recentes ao local, os resultados são surpreendentes. “A gente teve um crescimento de área de floresta de mais de 1.000%. Houve uma expansão muito grande da cobertura da vegetação rasteira”, observa a pesquisadora ao jornal O Globo.

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A botânica estima que a vegetação agora cubra cerca de 15% da área da ilha, um salto significativo para um ecossistema que estava à beira do colapso. O estudo, publicado no Journal of Vegetation Science, ainda destaca que a regeneração ocorre de forma totalmente espontânea.

“Desse período em diante, a vegetação começou a se restabelecer, e isso sem qualquer esforço humano, uma regeneração totalmente natural”, enfatiza Márcia. A peça central dessa nova floresta é a samambaia-gigante (Cyathea copelandii), uma espécie exclusiva de Trindade que está reconquistando o solo vulcânico e protegendo-o contra a erosão acelerada.

Localizada a 1.180 km da costa, a Ilha da Trindade é o ponto mais oriental do Brasil e abriga o que restou do último vulcão ativo do país/Reprodução
Localizada a 1.180 km da costa, a Ilha da Trindade é o ponto mais oriental do Brasil e abriga o que restou do último vulcão ativo do país/Reprodução
Após a retirada de cabras introduzidas em 1700, a cobertura vegetal da ilha cresceu 1.468%, permitindo o renascimento de florestas nativas/Marinha do Brasil
Após a retirada de cabras introduzidas em 1700, a cobertura vegetal da ilha cresceu 1.468%, permitindo o renascimento de florestas nativas/Marinha do Brasil
A samambaia-gigante é uma das relíquias botânicas que só existem em Trindade e agora volta a se espalhar livremente pelo solo vulcânico/Agência Marinha de Notícias
A samambaia-gigante é uma das relíquias botânicas que só existem em Trindade e agora volta a se espalhar livremente pelo solo vulcânico/Agência Marinha de Notícias
Além da riqueza natural, a ilha é cercada por lendas de tesouros piratas e registros históricos de supostos avistamentos de OVNIs em 1958/Marinha do Brasil
Além da riqueza natural, a ilha é cercada por lendas de tesouros piratas e registros históricos de supostos avistamentos de OVNIs em 1958/Marinha do Brasil
Estrategicamente ocupada pela Marinha, a Ilha da Trindade é um santuário de biodiversidade essencial para a soberania do Brasil no Atlântico Sul/Marinha do Brasil
Estrategicamente ocupada pela Marinha, a Ilha da Trindade é um santuário de biodiversidade essencial para a soberania do Brasil no Atlântico Sul/Marinha do Brasil

Desafios e o último vulcão do Brasil

Apesar do otimismo, os pesquisadores alertam que a floresta original, composta por árvores de madeira vermelha (Colubrina glandulosa), dificilmente voltará a ser o que era antes de Halley. “Acreditamos que a floresta original de Trindade nunca mais vai se recuperar. Existiam espécies de animais que dispersavam sementes e que faziam todo o processo acontecer, e que hoje não estão mais na ilha”, lamenta a botânica.

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Além disso, a nova vegetação enfrenta outros predadores remanescentes, como caranguejos e catitas (pequenos roedores). O arquipélago, formado por erupções vulcânicas há 3 milhões de anos, ainda abriga o que resta do último vulcão ativo do Brasil no Morro do Paredão.

Fora o valor ecológico, Trindade é considerada estratégica para a soberania nacional. Ocupada permanentemente pela Marinha no Posto Oceanográfico (Poit), a ilha garante ao Brasil o direito de explorar uma vasta área econômica exclusiva no Atlântico Sul.

Lendas, OVNIs e o isolamento

O misticismo de Trindade não reside apenas em sua geologia. A ilha é cercada por lendas de tesouros piratas escondidos e episódios intrigantes, como o suposto avistamento de um disco voador em 1958, registrado pelo fotógrafo Almiro Baraúna.

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Embora a família de Baraúna tenha admitido, anos depois, que a foto foi forjada com colheres, o episódio permanece vivo no imaginário local, assim como as histórias de solidão dos militares que, até 2011, viviam em um ambiente estritamente masculino.

Com a recuperação da fauna e flora, a Marinha e órgãos como o ICMBio trabalham agora no controle de espécies exóticas, como as amendoeiras. “Temos de fazer a substituição dessas espécies com calma. Por enquanto, precisamos dessas árvores para contenção do solo. Trindade é uma ilha vulcânica e o material é muito fragmentado”, conclui Márcia Gonçalves, reforçando que cada nova folha que brota em Trindade é um passo fundamental para preservar a biodiversidade do ponto mais extremo do Brasil.

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