Navio-prisão: verdade ainda submersa no Porto de Santos

Hoje faz 51 anos que o navio Raul Soares chegou ao Porto de Santos servindo de cárcere flutuante para sindicalistas e políticos. Ato público no porto vai relembrar a data

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24 ABR 201513h34

Sexta-feira, dia 24 de abril de 1964. Início da ditadura militar no Brasil. O navio Raul Soares, transformado em cárcere flutuante, chega ao Porto de Santos. Para ele são enviados presos políticos e sindicalistas portuários. A Comissão Nacional da Verdade, em seu relatório final, diz que o navio foi local de tortura, mas não aponta os nomes de quem enviou o navio-prisão  para humilhar dezenas de sindicalistas. Isto significa que a verdade continua submersa no estuário do porto de Santos.

“A verdade realmente ainda está submersa no Porto de Santos, pois li o relatório da Comissão Nacional da Verdade e ele não esclarece muita coisa sobre  o navio-prisão Raul Soares. Menos mal, que o relatório apurou e aponta o que todos nós, presos do navio, vimos relatando ao longo desses 51 anos, que o Raul Soares foi local de tortura e humilhou muita gente”. O relato é do médico alemão naturalizado americano Thomas Maack, feito direto de Nova Iorque, ao Diário do Litoral.

Maack foi preso e  personagem  do navio Raul Soares e ajudou a salvar a vida de muitos presos.  Quando o navio foi desativado, o médico, que era professor da USP, em São Paulo, teve que fugir do País e se exilou em Nova Iorque, Estados Unidos, onde é hoje professor emérito da Cornell Universidade.

Sua história foi relatada pelo DL  em duas séries de reportagens: Navio-Prisão: Democracia à Deriva( em 2.013) e Cárcere Flutuante: Os 50 anos  do Raul Soares e da Repressão ao Sindicalismo( em 2.014).

Esteve em Santos, por duas vezes, a convite do DL e recebeu homenagens da Câmara e de sindicatos de portuários.  “Cabe, a vocês da imprensa e, principalmente, ao movimento sindical, não deixar essa história ser esquecida e continuar cobrando das autoridades a revelação dos nomes de quem foram os responsáveis, os líderes, por enviar o navio Raul Soares para propiciar esta triste história”, disse Thomas Maack.

Nas duas séries de reportagens o DL também entrevistou outros dois presos: Argeu Anacleto e Ademar dos Santos, Ademarzinho, sindicalistas portuários, que foram trancafiados nos calabouços do cárcere flutuante.e falara sobre torturas.

E também, o ex-capitão dos portos, Almirante Júlio de Sá Bierrembach, que, por sua vez, negou torturas aos presos do navio Raul Soares.

Thomas Maack foi um dos presos políticos do navio Raul Soares. Perseguido pela ditadura, ele se exilou em Nova Iorque (Foto: Matheus Tagé/DL)

Ato lembra a chegada do Navio Raul Soares

O Comitê Popular de Santos – Memória, Verdade e Justiça, está organizando para a hoje, um ato para lembrar presos e mortos no navio Raul Soares. A concentração será atrás da Alfândega, na estação das barcas que seguem para a Ilha Diana, das 17h00 às 19h00.

Na ocasião, também será deflagrada uma grande campanha de recolhimento de informações sobre o Navio Raul Soares e os organizadores do evento convidam a população de toda a Baixada Santista a contribuir com relatos, fotos e recortes de jornal para a criação de um amplo arquivo sobre o episódio. As pessoas que puderem disponibilizar material, devem entrar em contato pelo facebook do Comitê.

“Alguns fatos e momentos da nossa história devem permanecer vivos na nossa memória, porque o preço que se paga pelo esquecimento é muito alto”, alerta Chico Nogueira,   presidente do Settaport, o único sindicato portuário que está apoiando esta iniciativa.

O Comitê Popular de Santos – Memória, Verdade e Justiça foi criado em novembro de 2013, durante a audiência pública da Comissão Nacional da Verdade, realizada no Sindicato dos Petroleiros de Santos. Em novembro de 2014, realizou o Encontro com a Justiça de Transição, no Fórum da Cidadania. O ato em memória dos horrores promovidos pelo navio Raul Soares sera a Terceira atividade, desde que o Comitê começou a atuar na cidade.

Sobre o Raul Soares

A embarcação de passageiros, foi construída em 1900, pela companhia Hamburg Süd; em 1925, foi adaptada também para o transporte de carga; e, quando já estava inativa, no Rio de Janeiro, foi requisitada  pela Marinha Brasileira, pintada de preto e rebocada até o Porto.

O Raul Soares atracou  em Santos, no dia 24 de abril de 1964, para servir de cárcere político para sindicalistas, estudantes, professores, militares dissidentes e trabalhadores de todas as categorias que se organizavam contra o regime repressivo que começava a se instalar no país. A bordo, os detidos enfrentaram torturas e passaram por longos interrogatórios, mas até hoje não se sabe exatamente quantas pessoas estiveram presas ali.

“O Raul Soares é um emblema do golpe militar e da humilhação sofrida pela  cidade de Santos, quando perdeu a sua autonomia política”, lembra Maurício Valente,   coordenador do Comitê.