Vacina contra a Covid-19 produzida em tempo recorde é segura?

Em breve, poderemos ter os primeiros imunizantes à disposição para a população

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07 AGO 2020Por Gazeta de S. Paulo08h00
As características únicas do novo coronavírus fizeram uma revolução na ciênciaAs características únicas do novo coronavírus fizeram uma revolução na ciênciaFoto: Retha Ferguson/Pexels

Por Vanessa Zampronho

Deixar o sistema imunológico alerta é um dos principais objetivos das vacinas: uma vez aplicadas, o organismo a identifica como um invasor e produz um arsenal de defesa que o deixa protegido contra a infecção de verdade. Mas, para se chegar a uma vacina eficaz e segura, são anos de estudos, testes e avaliações. E tempo é algo que não temos contra o coronavírus, que já causou milhares de mortes e infectou milhões de pessoas no Brasil e no mundo.

Sendo assim, como é possível ter vacinas, como a CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo, já sendo testada em humanos e com previsão de ser aplicada em massa a partir de janeiro de 2021? Esse prazo foi divulgado pelo governador de São Paulo, João Doria, em entrevista coletiva em 27 de julho. Elas serão seguras e eficazes? "São extremamente confiáveis. O rigor científico aplicado a estes estudos é seguido à risca, bem como os protocolos de pesquisa médica, autorizados pela Anvisa e Comitê de Ética em Pesquisa", afirma o infectopediatra Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Esse tempo recorde é possível porque as vacinas estão sendo criadas sobre modelos já existentes. "Nós nos valemos de plataformas que foram desenvolvidas para outras infecções por coronavírus, como a Mers [o coronavírus do Oriente Médio] e a Sars [que surgiu na Ásia] em décadas passadas", explica. Mas tem um detalhe muito importante: a guerra contra um inimigo em comum faz valer aquela frase conhecida, "a união faz a força". "Temos uma coalizão de países, universidades com laboratórios públicos, serviços de saúde nacionais, indústria farmacêutica, com um financiamento muito grande, nunca visto. Estamos em um cenário completamente diferente do que desenvolvemos vacina normalmente".

 

É quando a crise se transforma em oportunidade: as características únicas do novo coronavírus fizeram uma revolução na ciência. "Certamente essa tecnologia que está sendo desenvolvida pode ser útil para futuras vacinas. Quem sabe não é um caminho para termos vacinas mais modernas, que possam cumprir até um papel melhor do que as vacinas de hoje dentro do calendário?", questiona Kfouri.

Porém, mesmo com todo o rigor científico para as vacinas na fase 3 de desenvolvimento, a de testes em voluntários humanos, não se pode dizer que elas serão 100% eficazes. "É importante frisar que depois que começamos a aplicar a vacina em milhões de pessoas, devemos manter a vigilância. Eventos raros, que podem acontecer um caso a cada um milhão de doses aplicadas, só serão percebidos se aplicarmos em massa".

E não é somente uma questão de saber se a vacina funciona ou não: elas podem se mostrar eficazes em vários outros aspectos. "Elas podem prevenir apenas as formas graves da doença, ou ser eficientes para adultos jovens... por isso é importante esperar esses resultados para se saber qual é a resposta em diferentes grupos, em diferentes idades, qual é a duração da proteção, se haverá ou não a necessidade de reforço", complementa. Mesmo com a guerra contra o coronavírus ainda em andamento, as armas estão em desenvolvimento, e podem, tomara que em breve, anular esse inimigo invisível.

Os anti-vacina
Em meio à busca por uma vacina para derrotar o coronavírus, tem quem seja do contra: em uma pesquisa feita nos Estados Unidos, 19% deles disseram que não vão tomar o imunizante, 55% afirmaram que vão tomar, e 22% ainda não sabem. Mas este dado não chega a ser uma surpresa: a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia anunciado que o movimento antivacina é um dos dez maiores riscos à saúde mundial. Por não se vacinarem, essas pessoas podem trazer de volta, de forma epidêmica, o sarampo e a poliomielite, por exemplo.