Uma forcinha para a imunidade contra a Covid-19

A infusão de plasma sanguíneo de pessoas que já tiveram a Covid-19 é uma das terapias em estudo para ajudar a recuperação de quem está na fase crítica da doença

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13 AGO 2020Por Gazeta de S. Paulo08h08
O tratamento já foi usado na década de 1930 para tratamento de outras doenças causadas por vírus, como o sarampo e a cataporaFoto: ational Cancer Institute/Unsplash

Por Vanessa Zampronho

A expressão "dar uma força" faz bastante sentido para uma terapia contra o coronavírus. O plasma sanguíneo de pessoas que se recuperaram da Covid-19 está sendo utilizado em um tratamento experimental. Esse plasma tem os anticorpos que vão ajudar o sistema imunológico dos doentes internados a combater o coronavírus. Mas, o que é o plasma?

"O sangue tem as células de defesa, que são os glóbulos brancos, tem os glóbulos vermelhos, e a parte líquida é o plasma, com as proteínas e anticorpos, cuja finalidade é defender contra infecções", explica a médica hematololgista Carolina Bub, do banco de sangue do hospital Albert Einstein, uma das instituições que fazem parte deste estudo. Há duas pesquisas em andamento: uma que avalia a segurança deste tratamento, feita pelo Einstein e o hospital Sírio-Libanês, e outra, que estuda sua eficiência, realizada por estes hospitais e a USP de São Paulo, Ribeirão Preto e a Unicamp.

Esse tratamento não é uma novidade: ele já foi usado na década de 1930 para tratamento de outras doenças causadas por vírus, como o sarampo e a catapora. Como os anticorpos ficam no plasma, nada mais justo que utilizá-lo para dar uma forcinha no tratamento de doentes graves. O estudo só deve ser finalizado depois que os pesquisadores analisarem os resultados de 60 pacientes da primeira pesquisa e 120 da segunda - e não são todos os doentes que podem participar.

"A pessoa tem que ter um parâmetro de necessidade de oxigênio. Nos exames, se ela apresenta um grau de deficiência de oxigênio, significa que o pulmão está comprometido, e pode ser incluída no estudo", explica Bub. Depois de aprovado, é examinado o tipo sanguíneo (pode ser A, B, AB ou O) do paciente, e o plasma do doador é avaliado para fazer o teste de compatibilidade com o paciente, para evitar alergias.

Além disso, o tratamento com plasma já é uma rotina dos bancos de sangue. "Tenho alguns pacientes que precisam tomar plasma com frequência. Se esse tratamento realmente for eficaz contra a Covid-19, enxergamos que seja algo acessível para que os bancos de sangue produzam", conta. Mas é algo que não pode ser reproduzido em larga escala, até porque nem todo mundo que teve a doença pode doar seu plasma para fazer parte do estudo.

 

No Einstein, o paciente deve apresentar o resultado do feito o exame RT-PCR (o que é feito com coleta de material do nariz e garganta) que ateste que ela teve a doença para participar", explica. A médica conta que os doadores são os que tiveram a doença no grau mais leve e se trataram em casa, mas houve um caso especial.

"Tivemos um paciente que ficou internado, precisou ficar com oxigênio, e mesmo assim ele fez questão de doar o plasma. Enxergamos muita gratidão pela oportunidade de querer participar, acreditar que de alguma maneira estão fazendo parte da busca de uma alternativa terapêutica".

Se você teve Covid-19 e quer ajudar, entre em contato com o Einstein através do telefone (11) 2151-0457 ou no e-mail [email protected], para receber orientações e participar de uma triagem.

Imunização ativa x passiva
Vacinas são compostas por vírus ou bactérias inativados (ou parte deles), que são inoculados no organismo, para que ele desenvolva anticorpos contra a doença. Assim, quando o corpo for, de fato, exposto a estes agentes infecciosos, ele saberá como agir. Essa é a imunização ativa. Já a terapia com plasma de pessoas recuperadas da Covid-19 trabalha de outra forma, fornecendo anticorpos para pacientes com a forma grave da doença, cuja imunidade está debilitada. É a imunização passiva, quando a pessoa recebe os anticorpos que vão reforçar as defesas do organismo - e ajudar na recuperação.