Papo de Domingo - Quando o diagnóstico é a tristeza

Casos de depressão crescem 705% em 16 anos e 28 pessoas com a doença se suicidam por dia no Brasil. Mas, o que fazer para a tristeza extrema não leve à morte?

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24 AGO 201401h34

Quem não conhecia Robin Williams? Ator premiado, 63 anos, um dos rostos mais conhecidos de Hollywood, deu vida a personagens inesquecíveis e, muitas vezes, fez espectadores rir, chorar ou chorar de rir. No último dia 11 de agosto, o ator surpreendeu o mundo com o seu suicídio e fez reacender a discussão: depressão mata?

No Brasil, no dia 30 de julho, a depressão também foi o que levou o humorista Fausto Fanti, do grupo Hermes e Renato, a se matar. Mas infelizmente, este quadro é cada vez mais comum no País e no mundo. Em 16 anos, o número de mortes relacionadas com depressão cresceu 705% no Brasil, mostra levantamento inédito feito pelo jornal O Estado de S. Paulo, com base nos dados do sistema de mortalidade do Datasus. Estão incluídos na estatística casos de suicídio e outras mortes motivadas por problemas de saúde decorrentes de episódios depressivos.

Os dados mostram que, em 1996, 58 pessoas morreram por uma causa associada à depressão. Em 2012, último dado disponível, foram 467. O número total de suicídios também teve aumento significativo no Brasil. Passou de 6.743 para 10.321 no mesmo período, uma média de 28 mortes por dia. As taxas de suicídio são muito superiores às mortes associadas à depressão porque, na maioria dos casos, o atestado de óbito não traz a doença como causa associada.

No Brasil, a faixa etária correspondente à terceira idade é a que reúne as estatísticas mais preocupantes. No caso de mortes relacionadas à depressão, os maiores índices estão concentrados em pessoas com mais de 60 anos, com o ápice depois dos 80 anos.

“A família  deve  estimular  o paciente  depressivo  a fazer um  tratamento  psiquiátrico e  psicoterápico”, afirma a psicóloga (Foto: Divulgação)

No caso dos suicídios, embora os números absolutos não sejam maiores entre os idosos, a maior taxa de crescimento no período analisado ocorreu entre pessoas com mais de 80 anos. Entre 1996 e 2012, o suicídio cresceu 154% nesta faixa etária.

Para tratar sobre este assunto, a Reportagem do Diário do Litoral conversou com a terapeuta cognitiva e hipnoterapeuta Francys De Thommazo, que explicou o que é preciso ser feito para que um caso de depressão seja tratado corretamente e chegue ao extremo.

Diário do Litoral - O número de casos de depressão no Brasil aumentou 705% em um período de 16 anos. Ao que a senhora atribui este crescimento?

Francys De Thommazo - Um dos fatores para o crescimento da depressão são as pressões psicológicas que a pessoa tem no dia a dia. O estresse depende de como as pessoas interpretam tal situação que estão vivendo e de que modo conseguem lidar com elas. Geralmente, acontece com indivíduos que se sentem sobrecarregados por longos períodos de tempo e interpretam como ameaça.

DL - Em 2012, 482 pessoas morreram por conta da depressão. O número de suicídios em 16 anos também cresceu: de 6.743 para 10.321 casos. O que leva os depressivos a chegarem ao extremo?

Francys - As pessoas chegam ao extremo e tentam o suicídio diante de vários pensamentos distorcidos da realidade que vivem. Entre os mais relatados está o desejo de desistir da vida, de por um ponto final nos problemas para escapar do sofrimento. As pessoas se dizem totalmente desesperançadas para lutarem pela vida. Há pessoas que tentam o suicídio por estes fatores, mas também há aquelas que somente tentam e não conseguem. Elas fazem na intenção de chamar atenção, de serem amadas, de serem notadas pelo outro e para se sentirem importantes.


 

DL - O que faltou no tratamento para que chegue a este ponto?

Francys - O terapeuta tem que estar muito atento para avaliar os riscos de suicídio, avaliar de que forma esta pessoa está planejando isso, entender os pensamentos negativos que passam na sua mente. Fazer uma intervenção hábil, uma intervenção precoce a partir da avaliação inicial.

DL - Como funciona o tratamento para pessoas em quadro de depressão?

Francys - O tratamento da terapia cognitiva está sendo muito indicado pelos psiquiatras para o tratamento da depressão. É uma abordagem estruturada e diretiva onde o paciente tem papel ativo no processo. Fundamenta-se pela forma com que a pessoa pensa e interpreta uma situação, acompanhadas de emoções e comportamentos. O tratamento da depressão trabalha na tríade destes pensamentos disfuncionais, ou seja, como a pessoa interpreta a si mesmo, o mundo e o futuro. As pessoas com depressão tendem a ter pensamentos pessimistas e negativos como “eu não sirvo para nada”, “o mundo é hostil” e “o futuro ou vai ficar assim como está ou vai piorar”. O tratamento da depressão é realizado com técnicas comportamentais aliadas a terapia, que auxiliam o depressivo principalmente na parte cognitiva, comportamental, motivacional, afetiva e somática a flexibilizar os pensamentos do viés negativo, para uma reestruturação dos pensamentos disfuncionais por funcionais, eliciando esperanças. O objetivo disso é auxiliar o paciente a responder de forma mais realista e mais adaptativa, eliminando os sintomas da depressão para uma melhor qualidade de vida.

DL - Como a família deve agir nestes casos?

Francys - A família deve estimular o paciente depressivo a fazer um tratamento psiquiátrico e psicoterápico.

DL - Como é possível identificar os sintomas da depressão?

Francys – A depressão tem sintomas afetivos como tristeza, choro excessivo, apatia, ansiedade. Também é possível identificar sintomas motivacionais como desejo de escapar da vida (quando o paciente pensa em suicídio) para evitar problemas e atividades do dia a dia. Há sintomas cognitivos como a dificuldade de concentração, problemas de atenção e memória.

Geralmente, o depressivo também apresenta sintomas comportamentais como ficar na cama ou parado em um canto. Dentro dos sintomas fisiológicos aparecem os distúrbios do sono, da apetite e baixa libido.

Robin Willians se suicidou no último dia 11 (Foto: Divulgação)

DL - A depressão pode ser o resultado de um trauma como o que ocorreu com os moradores da Rua Vahia de Abreu na quarta-feira, dia 13?

Francys - A depressão pode sim ser um resultado de um trauma como o que aconteceu na semana passada. É comum.

DL - O que este tipo de trauma pode ocasionar à saúde das pessoas?

Francys - Este tipo de trauma pode gerar uma depressão, uma síndrome do pânico ou mesmo um estresse pós-traumático. Estes traumas podem desencadear qualquer uma dessas doenças dependendo de como uma pessoa interpreta tal situação, qual a percepção que ela tem do episódio acontecido. Isto acontece devido à particularidade de cada pessoa. Cada um interpreta os problemas de uma forma, dependendo de suas crenças e expectativas.

DL - Como agir diante de um trauma como este?

Francys - A recuperação do trauma vem com o tempo e cada um lida de formas diferentes. O importante, neste momento, é contar com a ajuda de amigos e familiares, voltar a estabelecer a confiança, o autovalor, a melhorar a qualidade de vida com atividades prazerosas e promover a estabilidade emocional. Quando estas estratégias não surtem tanto efeito, o melhor é procurar a ajuda de um profissional habilitado e fazer terapia.

DL - Crianças também podem sofrer com a depressão? A incidência da doença é maior em qual faixa etária?

Francys – Sim, as crianças ficar depressivas. A incidência é maior entre 8 e 14 anos de idade.

Com quadro de depressão, Fausto Fanti se suicidou no final de julho (Foto: Divulgação)

DL - Qual a melhor forma de tratar a depressão em crianças? Como tratar uma criança que passa por um trauma? Quais os tipos de tratamento?

Francys - A melhor forma de tratar a depressão, um trauma ou estresse pós-traumático em crianças é a terapia cognitiva, com a participação ativa da família e dos amigos da escola.

Assim é preciso desenvolver na criança, meios funcionais para que ela consiga lidar com problemas do dia a dia, desenvolver novas habilidades para a resolução do problema e crescer mais feliz.