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Papo de Domingo: “No Brasil, epidemia da Aids termina antes de 2030”

Diretor do Departamento de DST do Governo Federal garante que País tem condições de acabar com a doença

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07 DEZ 201409h42

Uma semana após a comemoração do Dia Mundial de Luta Contra a Aids – celebrado dia 1º de dezembro - o médico santista Fábio Mesquita, atual diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Governo Federal, considerado referência mundial no tratamento da Aids, garante: Brasil tem condições de acabar com a epidemia da Aids antes de 2030 – meta estabelecida pela ONU.

Diário do Litoral (DL) - Por que o senhor tem convicção disso?
Fábio Mesquita (FB) -
Estamos num momento histórico brasileiro fascinante no campo do combate à Aids. O Brasil possui medicamentos de excelente qualidade, que praticamente não causam mais efeitos colaterais, temos a possibilidade de tomarmos cada vez menos comprimidos (hoje há medicamentos combinados), temos informações que a pessoa, quando derruba a carga viral, não transmite mais a doença e estamos caminhando para o controle total da epidemia. Essa meta da ONU é coerente com os avanços da ciência e nunca tivemos uma condição tão boa de trabalho, de confronto de informações e de experiências. Temos condições de acabar com os níveis epidêmicos da Aids e torná-la uma endemia.

DL - Houve um relaxamento por parte da população?
FB -
Os indicadores nacionais mostram uma estabilidade da epidemia, mas ela difere em regiões brasileiras. Há um declínio no Sudeste, mas temos um aumento no Sul e Norte, considerados locais quentes da epidemia e que estão sendo implantadas forças tarefas desde 2013. A primeira foi no Rio Grande do Sul e a segunda foi no Amazonas. Em 2015, vamos montar uma força tarefa em Santa Catarina e outra no Rio de Janeiro. Esses estados são os mais preocupantes do País.

DL - Como trabalha esta força tarefa?
FB -
Ela reúne os governos Federal, dos estados mais atingidos, os principais municípios, as universidades e ONGs. Primeiro é feito um diagnóstico da situação e depois um plano de trabalho para inibir o problema. Definimos a compra de um medicamento de primeira linha que possui três componentes juntos, que possibilitou que o paciente ao invés de quatro comprimidos, ingira apenas um. Ele já está sendo distribuído no Amazonas e no Rio Grande do Sul. Vamos estender para todo Brasil agora em dezembro.

(Foto: Matheus Tagé/DL)

DL - Como evoluiu o combate?
FB -
Na década de 80, as pessoas tinham pouca coisa a fazer com relação à Aids. Depois surgiu o AZT e, em 1996, o coquetel de medicamentos. As pessoas morriam em seis meses. Essa geração (80) perdeu ídolos e esperanças. Ela percebeu rapidamente a gravidade da situação e passou a se cuidar. Em 2000, a mortalidade é derrubada e há um certo relaxamento. Essa nova geração, que tem muito acesso à informação, não viveu aquela época e não vê amigos morrerem de Aids, está mais liberal sexualmente, usa menos a camisinha, embora saiba da importância de se prevenir. Essa nova geração está arriscando mais.

DL - O que fazer então?
FB -
Se adaptar à essa nova realidade. Por exemplo, não adianta fazer somente campanha de televisão dirigida para os jovens. É preciso fazer campanha via redes sociais, twitter, facebook e outros meios alternativos. Os aplicativos de encontro também são caminhos.

DL - Há faixas etárias preocupantes?
FB -
A maioria dos casos ainda atinge pessoas entre 30 e 39 anos. Mas estamos muito preocupados com a faixa que está crescendo, que vai de 16 a 24 anos, nosso principal alvo no momento. Hoje, a epidemia está atingindo muito os gays jovens, usuários de crack e profissionais do sexo. Essas populações chaves estão atualmente mais vulneráveis e nos preocupam bastante. A população brasileira tem uma prevalência de HIV de 0,4%. Nos usuários de crack, por exemplo, o percentual é de 5%. Homens que fazem sexo com homens o percentual é de 10,5%. Prostitutas também é de 5%.

DL – E com relação aos idosos?
FB -
A proporção no impacto da epidemia é irrelevante, apesar de ter dobrado nos últimos oito anos. Isso ocorre porque os idosos tem pouco costume de usar camisinha e agora estão ampliando a vida sexual com os medicamentos.


(Foto: Matheus Tagé/DL)

DL – O preconceito ainda pesa?
FB -
Diminuiu. Preconceito é uma coisa muito complexa. Não se acaba por lei, decreto. É preciso investir em campanhas contra ele. A ONU trabalha muito esse tema. Ainda há um grande terreno a ser percorrido. Ainda há pessoas que não querem ter sequer amizade com portadores de HIV em pleno ano 2014. É uma luta interminável. Conseguimos aprovar uma lei recente, já promulgada pela presidente Dilma Rousseff, que penaliza quem discrimina portadores com HIV. Isso foi um avanço. A lei é do senador Aluísio Nunes (PSDB). Mais a lei ainda não é o suficiente.

DL – Os conservadores atrapalham o trabalho?
FB -
Sem dúvida. Temos o parlamento eleito mais conservador desde o fim da Ditadura Militar. Existem religiosos extraordinários, gente muito boa, mas há alguns segmentos radicais, ortodoxos, de extrema direita, que cresceu muito e atrapalham o trabalho, pois classificam os cidadãos em categorias diferentes.

DL – Ainda sim, estamos em um bom momento?
FB -
Sem dúvidas. Temos medicamentos de excelente qualidade, que praticamente não causam efeitos colaterais. Estamos tomando cada vez menos medicação. Temos informação mais rápida e diagnóstico mais rápido e uma meta estabelecida que pode ser atingida. Temos um mundo diferente, um momento histórico fascinante no campo do combate à Aids.

(Foto: Matheus Tagé/DL)