Muitas novidades sobre o já conhecido leite materno

Formação da flora intestinal, melhor desenvolvimento da linguagem, prevenção do TDAH e regulação da produção de colesterol estão associados aos benefícios do aleitamento materno

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23 OUT 201313h43

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o aleitamento materno já na primeira hora de vida (iniciando o contato pele a pele), exclusivo e em livre-demanda até o sexto mês, estendido até 2 anos ou mais. E essa é a linha seguida pelo Ministério da Saúde e pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

“Sempre é estranho ter que ‘defender’ o aleitamento materno (AM). Mas a cada dia surgem mais e mais trabalhos comprovando a importância dessa prática tão saudável para os recém-nascidos, para crianças, jovens, mães, famílias e sociedade. Acho que vale a pena começar por essa ‘novidade’ que é o contato pele a pele, logo após o parto. Estudos mostram que o corpo da mãe aquece o recém-nascido (RN), que o contato reduz possíveis estresses negativos do parto para o RN e que o bebê é exposto às bactérias da mãe, menos agressivas e contra os quais o colostro já tem proteção. Essas bactérias, juntamente com as que aparecem no parto vaginal, começam a colonização positiva do intestino e da pele do bebê”, afirma o afirma o pediatra Moises Chencinski (CRM-SP 36.349).

Sobre esse tema, um trabalho de pesquisadores na Suíça mostrou a importância do aleitamento materno na formação da flora intestinal dos bebês. Dentro do útero, o intestino do feto é estéril e vai criando sua flora bacteriana de acordo com os contatos com o mundo exterior, através, principalmente, da sua alimentação. Crianças em Aleitamento Materno Exclusivo (AME) demonstravam em sua flora “boas bactérias” (Bifidobactérias entre outras) que estavam presentes no organismo da mãe (em sua flora intestinal) e que foram passadas através do leite materno. Uma boa flora bacteriana, além de ser importante para uma boa digestão, favorece, segundo estudos recentes, o desenvolvimento da imunidade do bebê.

Os últimos dados brasileiros sobre aleitamento materno apontam para uma média de AME de 54 dias, sendo que aos 6 meses de vida, apenas 9% das crianças estão nessa prática. Além disso, apenas 41% das crianças ainda estão em AM (mesmo não exclusivo) aos 6 meses, longe da meta proposta da OMS (90 a 100%).

Os últimos dados brasileiros sobre aleitamento materno apontam para uma média de AME de 54 dias, sendo que aos 6 meses de vida, apenas 9% das crianças estão nessa prática (Foto: Agência Brasil)

Um estudo publicado no JAMA – Pediatrics, realizado por pesquisadores da Universidade de Harvard demonstrou a importância do AM no desenvolvimento cognitivo de 1332 crianças, entre 3 e 7 anos de idade, através de métodos de avaliação da linguagem, vocabulário, habilidades motora e visuais. “As conclusões apontaram para o benefício do aleitamento materno mais prolongado no primeiro ano de vida, promovendo um melhor desenvolvimento da linguagem”, diz o médico.

Outro estudo que foi feito em Israel, na universidade de Tel Aviv, publicado no jornal Breastfeeding Medicine, associou um possível efeito protetor do AM em relação ao desenvolvimento do Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Foram avaliados os prontuários de crianças entre 6 e 12 anos com diagnóstico de TDAH e feitas avaliações em questionários. “Os resultados mostraram uma menor probabilidade de TDAH em crianças que estavam em AM, entre 3 e 6 meses de vida, quando comparadas a outros grupos sem essa prática. Ainda são necessários mais estudos para que essa constatação seja considerada definitiva, mas ainda assim há grandes indícios dos benefícios do AM também nessa área estudada”, comenta Chencinski.

E para acabar, uma curiosidade. Do colesterol que temos em nosso organismo, 70% é de produção interna e só 30% vem da dieta ingerida. “Se formos dosar o colesterol do bebê, ele é alto. Assim, o leite materno é fundamental para que haja uma regulação futura em sua produção. Assim, além de tudo, o aleitamento materno protege contra a hipercolesterolemia, cada vez mais comum em crianças, que é base de muitos problemas cardíacos”, alerta o pediatra.