Doulas tornam partos mais 'leves'

Santos e Praia Grande regulamentaram a presença em hospitais.

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09 SET 2019Por Thaís Moraes07h44
Não existe um tempo certo para procurar uma doula, pode ser assim que se descobre a gravidez ou semanas antes do parto .Foto: NAIR BUENO/DIÁRIO DO LITORAL

Desde o último dia 23 de agosto, qualquer gestante que utilizar o Sistema Único de Saúde (SUS) estadual poderá optar, mesmo sem indicação médica, pela cesárea a partir da 39ª semana de gestação, assim como analgesia, no caso de parto normal. Trata-se de um projeto de lei de autoria da deputada estadual Janaina Paschoal, sancionada pelo governador João Doria.

Na contramão do parto cesariana, realizado na Baixada Santista três vezes mais (54%) do que o recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), cuja taxa ideal é de 10 a 15%, muitas gestantes estão procurando a ajuda de doulas para serem protagonistas no seu trabalho de parto.

"A função de uma doula é munir a gestante de informações para que ela saiba o que acontece no parto, quais as fases e como o corpo responde a elas. O conhecimento dá o poder para que a mulher escolha conscientemente, com autonomia, como dará à luz ao seu bebê. A profissional dá apoio físico e emocional antes, durante e após o nascimento", explica Paula Gonçalves, doula há seis anos em Santos.

A analista de importação Flávia Bittencourt, de 34 anos, espera seu primeiro filho para o mês de outubro. "Tive certeza de que queria parto normal depois de acompanhar o nascimento da minha sobrinha, há cinco anos, em casa e com acompanhamento médico. Minha irmã pariu, levantou e foi tomar banho. Achei isso incrível", relata.

QUANDO PROCURAR

Não existe um tempo certo para procurar uma doula, algumas mulheres buscam uma profissional logo que descobrem estar grávidas, outras só pensam na possibilidade semanas antes de o bebê nascer. As gestantes que Paula acompanha fazem duas aulas: a primeira ocorre entre a 27ª e 30ª semana e a outra entre a 37ª e a 39ª, ambas com duração média de duas horas e meia. Além da teoria, são utilizados boneca, placenta e útero de pano para elucidar melhor as explicações.

"É fundamental que o pai da criança acompanhe as aulas porque ele também deve estar presente no momento do parto. O apoio emocional faz grande diferença. O homem também é parte do processo", ressalta a profissional.

Não são todos os hospitais que permitem a entrada de doulas. Por esse motivo, algumas cidades brasileiras já possuem leis para garantir o direito às gestantes. Na Baixada Santista, Santos, Praia Grande e Itanhaém permitem a presença da profissional em hospitais públicos e privados. No Estado, municípios como São Paulo, Santo André e São Caetano já possuem legislação desse tipo. Em 2013, a deputada estadual Leci Brandão (PCdoB) propôs projeto para garantir a presença de doulas em todos os serviços obstétricos no território do estadual, mas o projeto ainda aguarda votação na Assembleia Legislativa.

Para a diretora regional da Associação das Doulas do Estado de São Paulo (ADOSP), Deborah Delage, é importante explicar que as doulas não são e nem nunca foram parteiras, embora haja confusão.

"O parto sempre foi um evento familiar e entre mulheres. As doulas do passado eram familiares, amigas e comadres que levavam conforto durante o processo de trazer um bebê ao mundo. Já a parteira entrava nesse cenário especificamente para o parto", esclarece.

A analista de Recursos Humanos, Suellen Nascimento, de 33 anos, teve seu primeiro filho há seis meses. Para ter mais chances de parto normal, o que sempre quis, pesquisou sobre a função da doula e concluiu que seria fundamental a presença dessa profissional.

"Estudar sobre o parto fez toda a diferença na minha experiência, pois eu sabia muito bem dos meus direitos. A dor é tão intensa que se eu não tivesse conhecimento teria desistido. Foi um parto totalmente humanizado e sem anestesia", conta.

REGULAMENTAÇÃO

Para se tornar uma doula existem cursos com formatos e cargas horárias variadas, pois ainda não existe uma regulamentação da profissão com parâmetros mínimos de conteúdo e tempo. Existem desde cursos públicos e gratuitos a cursos privados. Na Capital, uma formação de 32 horas, custa cerca de R$ 1 mil.

"Fisiologicamente, toda mulher está preparada para o parto normal, o que manda é o psicológico. Não existe certo ou errado, cada mulher escolherá a forma, com ou sem anestesia, a posição e o lugar que achar melhor. Cabe aos profissionais e à família respeitar essas decisões", enfatiza Paula.

Deborah Delage, da ADOSP, afirma que há muito o que caminhar, pois o cenário obstétrico brasileiro impõe muitos desafios às mulheres, em sua grande maioria destituídas de seu protagonismo e de escolhas informadas pelas melhores evidências científicas.

"As maiores lutas se relacionam com a melhoria global da assistência ao parto e ao nascimento, seja no âmbito da assistência pública ou privada. O que desejamos é: doulas para todas".

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