Dor nas costas é campeã de buscas no Google na pandemia

Pesquisa registrou um aumento na procura por dor nas costas – e ela não é necessariamente sintoma da Covid-19

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01 OUT 2020Por Gazeta de S. Paulo08h18
Mais tempo em casa, com menos exercícios e bombardeados de informações sobre a pandemia podem resultar em dor nas costasFoto: Belchonock/Deposit.com

Por Vanessa Zampronho

O novo normal atinge praticamente a vida de todo mundo, em todas as áreas: da convivência familiar ao relacionamento no trabalho, passando, claro, pelos cuidados com higiene e distanciamento social. Mas um sintoma desses hábitos foi identificado pelo Google: de acordo com o Google Trends, uma ferramenta que analisa os termos pesquisados, houve um aumento de 75% na busca pelo termo desde o início da pandemia – o pico foi em abril, mas mesmo assim ele vem em alta até os dias de hoje.

Embora muitos usuários associem no campo de busca a dor nas costas à Covid-19 (e também a remédios que ajudem a aliviá-la), esse comportamento mostra um outro lado dos efeitos da pandemia: a mudança de hábitos impostos pela quarentena e distanciamento social. E são três as principais causas desse problema, segundo o ortopedista João Paulo Bergamaschi, especialista em cirurgia na coluna, do hospital Samaritano.

A primeira delas tem a ver com o ficar em casa e se movimentar menos. “A falta de movimentação deixa a musculatura mais fraca. Qualquer coisa que se faça causa algum desconforto”. A segunda diz respeito especialmente para quem está em home office. “As pessoas estão trabalhando de casa em uma cadeira ruim, mesa ruim, ergonomia inadequada para fazer seu trabalho”. E o terceiro é o fator psicológico. “Ele pode interferir. Hoje já temos mais informações sobre a Covid-19, temos vacinas em desenvolvimento, mas no começo da pandemia, não sabíamos o que ia acontecer no dia seguinte, isso gera uma tensão que pode causar dor nas costas”.

Essa busca pelo termo no Google, além de saber o que é, também tem a ver com a procura por medicamentos para aliviar a dor. Mas é importante verificar as causas, visto que em muitos casos, o tratamento não necessita de remédios. “O ideal é atuar na causa. No caso de musculatura fraca, voltar a fazer exercícios físicos, pode ser em casa mesmo. Já para quem trabalha em casa, cuidado com a cadeira, a mesa, e faça adaptações para tornar o local de trabalho o mais ergonômico possível. E no caso da tensão, cuidado com as fake news sobre a Covid que somente pioram a situação. A atividade física também ajuda a extravasar a tensão também”, aconselha Bergamaschi.

Mas é importante verificar se a dor continua mesmo com as atitudes acima e procurar ajuda médica se ela continuar. Deixar para lá não é indicado – e a dor nas costas não tratada pode trazer problemas ainda mais graves. “Quanto mais dor, menos tratamento, menos atividade física a pessoa busca. Vira uma bola de neve. E podem aparecer alterações degenerativas, desgaste, bico de papagaio, até hérnia de disco [quando uma parte do disco entre duas vértebras que amortece o impacto se solta e pode comprimir nervos]”. Nesses casos, o tratamento é mais intenso.

O próprio consumo de remédios para dor deve ser feito com muito cuidado. Se a dor ficar mais intensa ou persistente, por vários dias seguidos, é indicado procurar ajuda médica. “O especialista pode pedir algum exame para encontrar a causa, e fazer um tratamento mais efetivo em busca da causa da dor”. Mesmo porque tomar remédio de forma contínua provoca mais mal do que bem, como lesões a órgãos como os rins. “Vamos levantar, alongar um pouco, tomar uma água, um café, ir ao banheiro, e vamos esticar o corpo. Ele não nasceu para ficar parado”, completa.

Bico de papagaio x hérnia de disco

São duas doenças que acometem os discos vertebrais que causam confusão. O bico de papagaio (ou osteofitose, seu nome clínico) acontece quando há um crescimento anormal entre duas vértebras da coluna, e o disco fica com deformações. Visto em um raio-X, o formato dele lembra o bico de um papagaio, e esse problema causa dores e limitação de movimentos. Já a hérnia de disco acontece quando uma parte do disco 'vaza' para fora, atinge os nervos da coluna e causa dores. Nesses casos, o diagnóstico é feito pelo médico, que vai indicar o tratamento adequado.

Novas atitudes

1. Atividade física: Vale aqui desde retomar os exercícios na academia quanto movimentos simples, como o de levantar, esticar-se, ir tomar água, café: o que atrapalha é ficar parado.

2. Móveis adequados: Essa vale para quem passou a trabalhar em casa. Veja se a altura da cadeira, mesa e computador está de acordo com seu estilo de trabalho. Você precisa estar confortável para passar boa parte do dia sentado.

3. Preocupação com a pandemia: É importante não se deixar levar por tratamentos milagrosos ou notícias duvidosas sobre sintomas da Covid-19. Procure informações confiáveis e mantenha os cuidados como higiene, distanciamento social e uso de máscara.