Cientistas conseguem novo avanço em técnica de edição genética

A técnica conhecida Crispr-Cas9 (ou simplesmente "Crisper") permite a edição do DNA, com o objetivo de eliminar mutações indesejáveis

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29 OUT 2017Por Estadão Conteúdo11h02
'Até agora, nós conseguimos desativar os genes indesejáveis muito bem', disse Feng Zhang, líder do Estudo'Até agora, nós conseguimos desativar os genes indesejáveis muito bem', disse Feng Zhang, líder do EstudoFoto: Divulgação/USP Imagens

Um estudo publicado na última quinta-feira na revista Science, anuncia novo avanço em uma técnica que promete, no futuro, corrigir falhas no DNA de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro, evitando assim a transmissão de doenças genéticas ­hereditárias.

A técnica conhecida Crispr-Cas9 (ou simplesmente "Crisper") permite a edição do DNA, com o objetivo de eliminar mutações indesejáveis. Com o novo avanço, será possível editar o RNA, em vez do DNA - o que traria a vantagem de não afetar diretamente o código genético do paciente, segundo os autores da ­pesquisa.

Em agosto deste ano, um cientistas provou que é possível utilizar a técnica Crisper para editar o DNA de embriões humanos e corrigir uma mutação associada ao risco de uma doença genética. A descoberta foi anunciada como o início de uma nova era da ciência aplicada à reprodução humana.

Desta vez, os cientistas do Instituto Broad e do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT) e da Universidade de Harvard - todos dos Estados Unidos - desenvolveram um sistema, com base no Crisper, capaz de alterar individualmente os nucleotídeos do RNA, de forma precisa e ­programável.

Responsável por armazenar a informação genética e controlar a atividade das células, o DNA - ou ácido dosoxirribonucleico -, contém as instruções genéticas que coordenam todo o desenvolvimento e funcionamento dos seres vivos. O DNA é uma longa cadeia dupla de nucleotídeos - as "letras" que formam as instruções ­genéticas - arranjada em forma de ­hélice.

Os genes do DNA são expressos por meio de proteínas produzidas pelos seus nucleotídeos, com a ajuda do RNA - ou ácido ribonucleico. A função do RNA é transferir a informação do DNA para que as células possam sintetizar essas proteínas. O RNA é composto de uma só cadeia curta de algumas centenas de ­nucleotídeos.

"A capacidade para corrigir mutações que causam doenças é um dos principais objetivos da edição de genoma. Até agora, nós conseguimos desativar os genes indesejáveis muito bem, mas recuperar a função perdida de uma proteína é muito mais desafiador", afirmou o líder do estudo, Feng Zhang, pesquisador do MIT e do Instituto Broad.

"Essa nova capacidade para editar o RNA potencialmente abre mais oportunidades para que recuperemos as funções das proteínas e tratemos diversas doenças em quase todos os tipos de células", afirmou Zhang.

Edição química

O cientista explica que há dezenas de milhares de variações no código genético humano associadas a doenças. Embora algumas doenças envolvam múltiplas variações desse tipo, uma grande parte delas é resultado de uma só troca de "letras" do DNA.

Essas "letras", que compõem os nucleotídeos, são as moléculas citosina (C), adenina (A), guanina (G) e timina (T). Elas se apresentam sempre em pares de A e T, ou C e G. Segundo Zhang, metade das 32 mil mutações em um único gene associadas a doenças são causadas por uma simples troca de uma dessas "letras": quando aparece um G onde deveria haver um A, por exemplo.

Com o novo método, porém, é possível alterar individualmente as "letras" do RNA, trocando os nucleotídeos. Essa "edição química" é feita em apenas um dos nucleotídeos, convertendo bases C-G em T-A, e dispensando o procedimento de cortar a molécula de DNA como vinha sendo feito com o Crisper.

Assim, em vez de provocar uma modificação permanente no genoma da pessoa, ao editar o DNA, o novo método oferece uma opção mais segura e flexível para realizar correções nas células. "O novo método pode consertar mutações sem interferir no genoma, porque o RNA se degrada naturalmente e a intervenção é potencialmente reversível", disse David Cox, aluno de Zhang que é outro dos autores do ­estudo.