Aprender a viver com a doença celíaca

Me descobri celíaca após os 40 anos e tive que mudar tudo.

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17 AGO 2019Por Vanessa Pimentel08h05
Depois de descobrir a doença celíaca, muitas coisas que aconteciam há anos, começaram a fazer sentido para Iclécia.Foto: NAIR BUENO/DIÁRIO DO LITORAL

Até janeiro deste ano, minha saúde parecia normal. Sempre tive anemia ferropriva (deficiência de ferro), e por isso minhas unhas eram quebradiças, me sentia cansada, mas nada que me deixasse preocupada. Em fevereiro, precisei fazer uma cirurgia para retirada da vesícula e foi tudo bem. Mas, depois de um tempo da operação, comecei a sentir muitas dores na barriga, uma dor que não parava e vinha diariamente. Era como se fosse uma cólica muito forte que durava mais de uma hora.

Comecei a perceber que esse incômodo aparecia sempre depois que eu comia pizza, sucrilhos (que eu amo), ou pão. Há uns três anos eu já sentia um pouco de cólica quando comia essas coisas, mas nada comparado ao que começou a acontecer em 2019. Além das dores, vieram os enjoos, diarreias constantes, perda de peso e queda de cabelo. Comecei a ficar preocupada, sabia que alguma coisa não estava bem.

Voltei ao médico que me operou e ele disse que esses sintomas podiam ser uma adaptação do organismo, normal após a retirada da vesícula. Mas, os sintomas só pioravam. Estava cada vez mais magra, não conseguia comer porque quase tudo que eu comia me causava enjoo e dor.

Procurei um gastroenterologista e fiz endoscopia. O exame acusou que eu poderia ser intolerante a glúten. Aí fiz um exame específico chamado antitransglutaminase e enfim, veio o diagnóstico: intolerância ao glúten. Meu nome é Iclécia Azevedo Quirino Bueno, tenho 40 anos, e estou aprendendo a viver com a doença celíaca.

Depois que descobri o que de fato estava me fazendo mal, percebi que muitas coisas que aconteciam há anos atrás, faziam sentido agora. Por exemplo, a anemia que me acompanha há tanto tempo é uma das complicações de quem é celíaco. Até mesmo o incômodo causado depois da pizza ou do pão já era um sinal que eu estava desenvolvendo intolerância ao glúten, mas a gente sempre fica achando que são outras coisas, até porque pouco se fala sobre essa doença.

Antes de descobrir, eu cheguei a ir em dermatologista pra ver a queda de cabelo, tomava vitaminas para tentar ganhar peso, optei até por parar de menstruar para ver se a anemia melhorava, mas nada disso fazia efeito. Tudo porque meu intestino já estava ficando inflamado, e eu achando que meus sintomas eram por outras causas. Bom, agora que descobri o que tenho, em quatro meses de mudança de hábitos consegui ganhar peso, o cabelo parou de cair e até minhas unhas estão mais fortes.

Como não há medicamentos, o jeito é mudar a alimentação. Não como mais nada que tenha glúten, trigo, malte, cevada, ou seja, a cerveja que adorava tomar, não posso mais. Quando bebo, é só cerveja sem glúten, que é o dobro do preço.

Aliás, tudo é muito mais caro. Por exemplo, um pacote de bolacha sem glúten custa quase R$ 30. Mas, mudanças fazem parte da vida e só de me livrar daquelas dores horríveis, vale a pena.

A parte mais difícil pra quem é celíaco, acredito eu, é a vida social porque como a alimentação fica muito restrita, não há opções em restaurantes, pizzarias, ou festas de aniversário.

Como eu sempre gostei de cozinhar, preparar novas receitas não foi difícil. O pãozinho que amo tanto tive que deixar de lado, mas aprendi a fazer um pão sem glúten pra substituir. Não é tão bom quanto o tradicional, mas é melhor do que esses que vendem em mercado. Meu paladar não acostumou com eles, de jeito nenhum.

Outra coisa que virou rotina na hora das compras é a leitura dos rótulos. Com isso, descobri que alguns iogurtes, até mesmo o trident têm glúten. Mas, o que importa é que sou outra pessoa agora, sem dores, mais disposta, menos irritada, vou até voltar pra academia.

Continuo indo ao médico mensalmente pra acompanhar se a inflamação no intestino diminui. Se melhorar, posso até voltar a comer, de vez em quando, um pedaço de pizza. Nada exagerado, mas já é um começo. Um novo começo!

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