A luta é contra a desinformação, o despreparo e a discriminação

De referência no enfrentamento, Santos passa a dar sinais de enfraquecimento no enfrentamento à AIDS, após três décadas de convívio com a doença.

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11 NOV 201209h00

É inacreditável. Santos – que em um passado não muito distante foi considerada uma referência na conscientização e no enfrentamento à  aids – vive um retrocesso com relação ao atendimento aos portadores do vírus HIV, formado pelo tripé: desinformação, despreparo e discriminação.

A situação foi revelada na manhã de ontem, no Senac Santos, pela presidente do Grupo de Apoio a Prevenção à Aids da Baixada Santista – Gapa/BS, Nanci Alonso, durante coletiva à Imprensa, sobre os problemas enfrentados na Cidade e na região, envolvendo milhares de portadores de HIV. 
 
“Se o paciente tiver qualquer problema no final de semana, quando o Centro Referência em Aids se encontra fechado, ele encontra problemas sérios nos prontos-socorros e unidades municipais de saúde, envolvendo uma série de problemas, até de preconceito”, revela Nanci.
 
A presidente do Gapa garante que os funcionários da Saúde desses locais não estão preparados para receber e tratar os quase quatro mil pacientes. Isso ocorre desde o porteiro até o médico plantonista. “É dado um passo atrás quando a pessoa se diz soropositiva (pessoa infectada com o vírus HIV)”.
 
Nanci Alonso chegou a se emocionar durante a entrevista (Foto: Luiz Torres/DL)
 
Relato emocionado 
 
Nanci Alonso chegou a se emocionar ao relatar, como exemplo da falta de preparo dos funcionários, a história do vice-presidente do Gapa, Procópio Vicente, que sofreu um acidente na cozinha do órgão e foi encaminhado ao Pronto-Socorro da Zona Leste e, no local, diante da inabilidade dos funcionários, foi levado para o Centro de Referência Emergência e Internação (Crei), em São Vicente. O caso ocorreu no ano passado.
 
“Ele estava com uma fatura de fêmur, que não foi detectada no pronto socorro. No Crei, o Procópio tinha que se banhar com uma garrafa plástica. Ele estava com um ferimento nas costas e ninguém o atendia. Tivemos que contratar um enfermeiro particular para assisti-lo no Crei”, explica Nanci.
 
A presidente do Gapa lembra que, depois de muita pressão junto à Direção Regional de Saúde (DIR-19), conseguiu transferir Procópio Vicente para o Hospital Guilherme Álvaro. “Mas já era tarde e 15 dias depois ele faleceu, pois já havia contraído uma infecção generalizada no Crei, onde permaneceu por dois meses”.
 
Acolhimento
 
Além da falta de tratamento clínico adequado nas unidades de Saúde, Nanci afirma que os pacientes não se sentem acolhidos, envolvendo, entre outras, a área psicológica. Ela acredita que a situação não deve mudar devido ao verdadeiro corporativismo existente entre os profissionais de saúde, principalmente os médicos não envolvidos diretamente com a questão da aids. “O que mais a gente houve é: isso dá em nada. Vão falar que ele (paciente) tinha HIV e que houve uma evolução no quadro, enfim”.
 
Direito
 
Nanci Alonso explica que, mais do que as dificuldades médicas, os pacientes têm que enfrentar a questão burocrática, que interfere em pequenos direitos como, por exemplo, o de vale-transporte. “Em Santos é um problema. A pessoa é portadora do HIV e, por não apresentar um sinal aparente, encontra dificuldades de obter o benefício”, conta, alertando que o crivo é praticamente visual e que essa situação impede, por exemplo, que os pacientes de outras cidades sejam tratados no Gapa. 
 
Até as cestas-básicas distribuídas pelo órgão às famílias de baixa renda são encaminhadas por intermédio dos motoristas de ônibus. “O serviço social das cidades não dá a retaguarda necessária para que paciente consiga o valor da condução e vá buscar o benefício, doado pela população”. 
 
Preconceito

Para tocar na questão do preconceito, Nanci cita outro exemplo próximo. O de uma paciente que está seis anos afastada de sua atividade profissional e vivia isolada em casa em função de uma Síndrome do Pânico. Por diversas vezes, a empresa tentou reintegrá-la. Por recomendação médica, a moça vinha recebendo tratamento no Gapa. Mas, passado um tempo, denunciaram ao INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) que ela estava trabalhando no órgão. “Tivemos que apresentar o atestado e demonstrar o tratamento que ela estava recebendo”, disse. 
 
A presidente do GAPA acredita que, após 30 anos de convivência com a AIDS, ainda exista uma grande desinformação no quadro de funcionários da rede pública de saúde de Santos e região, que acaba por fomentar o preconceito. “Se você tem informação, não tem porque ter preconceito e, consequentemente, não tem com atender mal. O Gapa tentará sensibilizar os prefeitos eleitos e reeleitos no sentido de mudar essa postura. Essa guerra o Gapa irá enfrentar”.