Ela não tinha a idade de boa parte dos companheiros de sala de aula. Se dedicou à família e à uma vida de muita batalha, e deixou os estudos para segundo plano. Motivada por amigos e pelo marido, Vilma Ribeiro, de 54 anos, decidiu frequentar o cursinho pré-vestibular do Educafro, projeto comunitário que atende pessoas de baixa renda, para tentar realizar seu grande sonho: ser técnica em Enfermagem. Com muito esforço tem alcançado seus objetivos, e, se no Dia Internacional da Mulher, comemorado nesta terça-feira (8), a palavra de ordem é empoderamento, sua história pode inspirar outras mulheres.
“Moro no México 70 há mais de 30 anos. A minha vida foi sempre de muita batalha. Terminei o primeiro grau no supletivo. Trabalhava em casa de família de dia e à noite estudava. Sempre tive vontade de fazer curso de Enfermagem, mas era muito caro e o dinheiro não dava”, disse Vilma. A comunidade onde mora é uma das mais carentes de São Vicente.
A então diarista casou. Do relacionamento teve três filhos. Interrompeu os planos de estudar e passou a cuidar da família. Quando as crianças estavam maiores, incentivada pelo marido e pela necessidade de dar exemplo, aos 40 anos ela voltou para a sala de aula. “Fui fazer o Ensino Médio. Meu marido me apoiou muito. Ele é analfabeto. Sempre pensei: como posso querer exigir dos meus filhos que eles estudem se o pai é analfabeto e eu parei? Tenho que dar o exemplo”, afirmou.
Mas ela não queria parar por aí. A vontade de fazer o curso de Auxiliar de Enfermagem ainda persistia. Conheceu por um amigo o curso pré-vestibular comunitário do Educafro, que mantém um núcleo no México 70. Se inscreveu e começou a participar das aulas que ocorrem aos domingos das 8 às 17h. Encarar o ‘intensivão’ com aulas de todas as disciplinas não foi fácil. “No Educafro encontrei o apoio que me faltava para persistir no meu sonho. Nunca pensei em fazer um Enem. Os meus amigos me ajudaram bastante”, disse Vilma. Em sua primeira redação no cursinho, a moradora do México 70 relatou o sonho que tinha.
Vilma soube do processo seletivo realizado para ingresso na Escola Técnica (Etec) Dra. Ruth Cardoso, no Centro de São Vicente. Na unidade haviam vagas para o curso técnico em Enfermagem. Após muitas aulas no Educafro, sentiu-se preparada a encarar a prova. Para sua surpresa foi aprovada. “Não acreditei quando me chamaram. Fiz um ponto a menos que o Bruno (companheiro de sala no Educafro). Ele me incentivou muito. Quando me ligaram para levar a papelada para a matrícula fui providenciar correndo e feliz”, relatou.
A estudante conta a emoção que teve ao entrar pela primeira vez em um hospital para fazer estágio. “Quando me vi dentro do hospital fiquei parada. Passou um monte de coisa na minha cabeça. Que eu tinha conseguido. Eu não estava acreditando naquilo. Muitas vezes, diante das dificuldades, pensei em desistir”, disse. Vilma estagiou em diversos hospitais da Baixada Santista. Efetuar cálculos está entre as suas principais dificuldades.
No ano passado, Vilma vestiu beca na formatura do módulo Auxiliar de Enfermagem. O que havia escrito na primeira redação no cursinho tomou forma e se tornou real. Neste ano, ela conclui todo o curso com o módulo técnico em Enfermagem e não deve parar. Pretende fazer o superior na área da saúde. “Vamos prestar de novo o Enem. A área da saúde precisa de humanização”, disse.
Apesar de ter boa parte do tempo dedicado aos estudos, Vilma ainda cuida da casa, dá atenção aos filhos e ao casal de netos. Com o sonho realizado e o desejo de prosseguir no caminho do conhecimento, ela aconselha outras mulheres a persistirem no sonho: “Somos batalhadoras. Todas as mulheres que têm um sonho devem correr atrás. Têm que seguir e nunca desistir. Nunca é tarde para estudar e eu pretendo continuar estudando até morrer. O conhecimento nunca é demais”.
Amigos
Grande apoiadora de Vilma, a amiga do Educafro Laura Martins disse que tem orgulho da auxiliar de enfermagem. “Ela é uma guerreira que está sempre preocupada com a família, que luta para melhorar a cada dia sempre ao lado do marido que está sempre dando força pra ela estudar, apesar dele ser analfabeto, sem nenhum estudo. Ele sempre a incentiva e a ajuda pra que ela não desista. Ela luta para que os filhos sigam o seu exemplo”.
Um dos coordenadores do núcleo Educafro Vila Margarida, Jorge Pinheiro, também reforça a batalha de Vilma para alcançar seus objetivos. “Quando a Vilma procurou o Educafro era bem receosa de voltar aos estudos por conta da idade. Ela pensava, no início, que não conseguiria acompanhar o desenrolar das aulas. Entretanto, o esforço dela superava toda a dificuldade de ter ficado anos longe dos estudos. Ela sempre foi muito disciplinada e participativa nas aulas de cidadania, sempre trazendo sua experiência para os mais novos. Sua determinação servia de espelho para os demais alunos”.
