Do luxo à xepa: o resgate da autoestima e o empoderamento

Superação. Mulher de São Vicente perde tudo o que tinha e hoje ajuda mulheres a recuperar o amor próprio

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06 JUN 2016Por Diário do Litoral10h00
Erika (Centro) resgatou a autoestima e fundou a Filhos do Rei e o movimento de mulheres Ponto & VirgulaErika (Centro) resgatou a autoestima e fundou a Filhos do Rei e o movimento de mulheres Ponto & VirgulaFoto: Daniela Origuela/DL

Levava uma boa vida. Filha de pais ricos, a jovem paulistana mantinha suas regalias com o dinheiro da família. Cursou uma faculdade, mas nunca trabalhou. Até que o destino quis mudar os rumos de sua vida. Perdeu o pai, a mãe e os tios em um curto espaço de tempo. Sem ninguém, a única herdeira gastou tudo o que haviam lhe deixado. Erika Lima chegou ao fundo do poço. Foi do luxo à xepa e hoje ajuda mulheres de São Vicente a resgatar a autoestima e centenas de crianças da periferia da cidade.

“Era muito bem de vida. Eles faleceram e perdi tudo porque não soube administrar. Gastei R$ 100 mil no cartão de débito. Cem mil e cem reais para mim tinha o mesmo valor. Quando vi já não tinha mais nada. Até as propriedades eu já tinha vendido. Tudo para manter o padrão de vida”, disse Erika, de 40 anos.

Disposta a recomeçar, Erika se mudou para São Vicente. Já conhecia a cidade. “Vendo tudo o que tinha para sobreviver. Ao invés de trabalhar eu sai vendendo tudo. Não entendia que o meu padrão de vida tinha acabado. Quando tudo acabou entrei em depressão”, destacou.

Sem o que comer em casa, Erika colocou a bolsa no braço, se arrumou e foi para a feira no bairro Vila Valença, em São Vicente. “Só tinha água na geladeira. Mesmo sem nada eu mantinha a pose. Fui bem chique para a feira pedir ajuda. Perguntei ao homem da barraca se ele tinha alguma coisa para me dar. Ele me apontou o chão.

Peguei. Naquele momento tive um encontro com Deus e disse: preciso mudar a minha vida e a vida das pessoas”, afirmou.

Foi à luta, trabalhou e decidiu fundar a Organização Social Filhos do Rei. A ideia era ajudar pessoas que, assim como ela, tivessem passado por alguma dificuldade e não sabiam como recomeçar. “Nesse meio, meu filho foi diagnosticado com TDH - transtorno de déficit de atenção. Sai do hospital com um saco de remédios. Fui pesquisar sobre a doença e descobri que se eu submetesse ele a grandes esforços físicos ele teria menos crises.

Não precisei dar remédios para ele e foi aí que nasceu o Ponto & Vírgula Futebol Clube”, destacou. A entidade tem quatro anos.

Trabalho

O marido de Érika, que mantém um negócio próprio de informática, passou a dar aulas voluntárias de futebol para crianças em uma escola pública do bairro Catiapoã, em São Vicente. Boa parte dos atendidos tinham transtornos comportamentais de leve a moderado como o seu filho.

“Na escola a gente se deparou com outra realidade: as mães tinham mais problemas que os filhos. Foi aí que também nasceu movimento de mulheres Ponto & Vírgula, que surgiu com o objetivo de emponderar a mulher”, destacou Erika.

O trabalho com o futebol cresceu e hoje ­atende 119 meninos das comunidades Sá Catarina de Moraes e do Sambaiatuba - regiões de ­extrema carência na ­cidade. Além do esporte, a entidade atende outras 350 ­crianças cadastradas cujas famílias recebem ajuda, principalmente de alimentação. O apoio vem de desconhecidos e pessoas comum.

“Não tenho vergonha de pedir. Peço mesmo. Na minha rede social tenho quase cinco mil amigos. Vou em cada um deles pedindo um saco de arroz, um quilo de feijão. E eles doam. A maior parte das doações vem assim. De pouco em pouco dá para ajudar muita gente”, destacou Erika.

Mulheres se ajudam para superar situações

O movimento de mulheres Ponto & Vírgula, fundado por Erika, promove encontros mensais. Nas reuniões, as mulheres trocam experiência e são envolvidas em cursos de capacitação e palestras. Já são 140 cadastradas. O método consiste em apoio mútuo para superar as mais diversas situações.

“Estava caminhando na praia e conheci uma das diretoras do movimento. Ela falou da história da Érika com os meninos do futebol. Me convidou para um encontro. Achei até que quisessem vender alguma coisa. Mas não.

Cheguei lá e me deparei com um grupo de mulheres que se ajuda”, disse a pedagoga Juciara Santos Pinto.

Vanessa Crocco se divorciou recentemente. Sem colocação no mercado de trabalho e em busca de melhorar a autoestima foi convidada a participar dos encontros. Acabou se tornando uma das diretoras do movimento. “É um processo de cura. Um trabalho de fortalecimento. Uma apoia a outra a resgatar a autoestima e a dignidade “, destacou.

Erika disse que o movimento está trabalhando para finalizar o processo de locação de uma casa na Vila Valença, onde funcionará a Casa Rosa. Nela serão oferecidos cursos de capacitação para mulheres como oficina de pães de mel e defesa pessoal, que já ocorrem de forma precária nas reuniões.

“Estamos vendendo a camisa da campanha Diga Não ao Primeiro Tapa, que tem o objetivo de conscientizar as pessoas sobre o combate da violência contra a mulher. Esperamos que com essa venda consigamos arrecadar o dinheiro necessário para o depósito. Será a realização de um sonho”, afirmou Erika. As camisetas podem ser adquiridas por meio dos perfis Diga não ao Primeiro Tapa e O S Filhos do Rei no Facebook.

O movimento de mulheres Ponto & Vírgula conta com o apoio de advogada, psicóloga é nutricionista voluntárias.

As reuniões são abertas e acontecem uma vez por mês, na última quarta-feira, as 19h30, na Associação Comercial de São ­Vicente.