Vendedor diz que se sente enganado após cirurgia ocular

Oftalmologista afirma que procedimento foi um sucesso e que George abandonou o tratamento pós-operatório

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08 MAI 2017Por Vanessa Pimentel11h00
Guile, o conhecido vendedor da entrada de Santos está com uma placa pedindo ajuda para voltar a enxergarGuile, o conhecido vendedor da entrada de Santos está com uma placa pedindo ajuda para voltar a enxergarFoto: Matheus Tagé/DL

George de França Freitas, o Guile, conhecido vendedor de bombons há mais de 20 anos do semáforo da Rodovia Anchieta, na entrada de Santos, está passando por um drama. 
De acordo com ele, tudo começou em agosto do ano passado, quando um cisco entrou em seu olho direito. “Doía muito, joguei água, mas não saiu. Fui até a Santa Casa e a médica que me atendeu passou um cotonete para tentar tirar. Senti que machucou e sangrou. Depois disso, minha visão piorou muito, inflamou a pálpebra e tinha dores todos os dias”, explica George.

Para buscar ajuda a página online ‘Viver em Santos’ retratou o caso em fevereiro. O relato teve inúmeros acessos e compartilhamentos até que o Instituto Santista de Olhos ofereceu atendimento.

Segundo George, ele foi atendido pelo oftalmologista Roberto Ivo Pasquarelli Neto e, durante a consulta, informado que além da inflamação na pálpebra, estava com catarata. “Ele falou que como eu estava com 50 anos, a chance dela aumentar era grande, então me mostrou uma caixa com uma lente intraocular que cura a doença”, ­explica.

George diz que não demonstrou interesse em realizar o procedimento cirúrgico porque não sentia problemas na visão, apenas dor na pálpebra onde o cisco tinha entrado. “Eu perguntei se a cirurgia era mesmo necessária porque eu só queria cuidar da inflamação, mas ele respondeu que tinha 10 anos de profissão e sabia o que estava fazendo, que era para eu não ter medo. Então, aceitei”.

Pós-operatório

De acordo com George, após alguns dias de cirurgia começou a sentir dor nos olhos, visão embaçada e falta de foco ao olhar para luzes, sintomas que não tinha antes do ­procedimento.

Ele afirma que voltou a clínica para reclamar, mas que durante a conversa, foi hostilizado pela esposa do oftalmologista e desde então se sente ameaçado e sem confiança de completar o ­tratamento no ­mesmo lugar. 

Famoso por seu porte atlético e pela semelhança com o ator Jean Claude Van Damme, George perdeu 15 quilos, alega que está com depressão, não consegue mais ir para a academia e diz ter perdido 40% da visão. 

Para tentar achar um oftalmologista que avalie o implante e uma suposta rejeição, George pendurou uma placa junto ao corpo onde diz que se sente enganado e quer ajuda para voltar a enxergar. Também afirma ter feito um mapeamento de retina e vítreo em um consultório em Cubatão e lá recebeu um laudo com a observação de considerar a troca de lente do olho direito devido ao desconforto.

O outro lado

A Reportagem entrou em contato com o oftalmologista Roberto Ivo, que realizou a cirurgia. Ele explica que durante o exame clínico notou que havia uma catarata maior no olho direito e uma menor no olho esquerdo, além da blefarite (inflamação na pálpebra).

“Tratei a blefarite e expliquei que faria a cirurgia de graça, que ela era necessária para curar a catarata, até porque pelo SUS ele não receberia o atendimento adequado. Ele aceitou e o procedimento foi um sucesso, tanto que nas poucas consultas do pós-operatório que ele veio, foi comprovado através de exames que ele enxerga melhor que qualquer um de nós aqui”, afirma ­Roberto. 

A esposa Marina Camargo é neurologista na mesma clínica e afirma que George já chegou ao local apresentando sintomas de depressão, além do problema no olho. “Eu receitei a medicação necessária para iniciar o tratamento também da depressão, mas dois dias depois ele me ligou dizendo que os remédios não estavam fazendo efeito. Expliquei que o tratamento era contínuo e levava um tempo para sentir os efeitos, mas mesmo assim ele ­abandonou as ­medicações”, diz.

Roberto Ivo afirma que Guile não seguiu as orientações médicas e nem voltou para completar as consultas do pós-operatório. “Ele abandonou o tratamento, não usou os óculos de proteção que demos e que é indispensável nessas situações”, explica.

Procedimentos jurídicos

Roberto Ivo informou que já contatou seus advogados para que as devidas providências sejam tomadas. Ele alega que os vídeos compartilhados na internet onde Guile diz que foi enganado são irresponsáveis e que irá processar as pessoas que estão dando continuidade na história sem ­apurar os fatos. 

“As pessoas precisam se conscientizar da falta de responsabilidade em compartilhar esse conteúdo sem verificar se é verdade. Toda cirurgia realizada recebe uma identificação, como se fosse um RG, está tudo registrado e toda acusação precisa ser respondida no Conselho Federal de Medicina. Em um feriado, ele me ligou dizendo que o olho estava com uma irritação e abri a clínica apenas para atendê-lo. Depois começou a fazer esses vídeos e não voltou mais aqui. Hoje mesmo ele tinha consulta e não veio”, declara Ivo. 

Marina diz que está preocupada com a situação mental de George e que a clínica está de portas abertas para continuar os tratamentos tanto da depressão quanto dos olhos.

Segundo a documentação apresentada a Reportagem, a lente implantada no olho direito de George é importada, modelo Symfony, da marca Abbott, custou em torno de R$ 18 mil e foi doada após o casal relatar o caso do paciente ao fornecedor.