Uma nova chance para a reciclagem

A partir de 2 de julho, a separação do lixo antes do descarte passa a ser obrigatória em Santos

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12 JUN 2017Por Vanessa Pimentel08h00
Legislação torna obrigatória a separação entre resíduos recicláveis (papel-papelão, metais, plásticos, vidros) e os orgânicos (restos de comida, por exemplo)Legislação torna obrigatória a separação entre resíduos recicláveis (papel-papelão, metais, plásticos, vidros) e os orgânicos (restos de comida, por exemplo)Foto: Matheus Tagé/DL

A partir do dia 2 de julho passa a valer em Santos a nova lei complementar 952, que torna obrigatória a separação entre resíduos recicláveis (papel-papelão, metais, plásticos, vidros) e orgânicos. As regras valem tanto para a população quanto para os grandes geradores de lixo – shoppings e supermercados, por exemplo.

Os munícipes continuarão sendo atendidos pela coleta seletiva oferecida pela prefeitura, já a figura do grande gerador comercial, aquele que produz acima de 200 litros ou 120 quilos-dia de lixo deve implantar serviço próprio de coleta, transporte, separação e destinação final dos resíduos, arcando inclusive com seu custo.

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semam) e a Guarda Municipal farão a fiscalização, podendo intimar e multar irregularidades. A Lei Recicla Santos renova a esperança de quem, até então, lutava praticamente sozinho.

É o caso de Odete Cunha dos Santos, presidente da Cooperativa de Materiais Recicláveis Santista (Comares), fundada em 2003 e de Marcelo Adriano da Silva, presidente da Cooperbrasil desde 2010, as duas cooperativas regularizadas da cidade.

Comares

Odete atende a Reportagem em uma sala pequena, térrea e com janelas para uma montanha de sacos plásticos, em um terreno cedido pela prefeitura, no bairro Alemoa. Enquanto explica o funcionamento da cooperativa, é interrompida por um cooperado em tom de voz bravo. “Minha marmita não veio. De novo isso! Assim não dá para trabalhar!”, esbraveja. Com calma, Odete pede para o rapaz esperar que ela já iria resolver. Ele sai.

“Todo dia é assim, essa luta até para comer”. A frase se explica no decorrer da entrevista. Atualmente, a cooperativa conta com 55 cooperados, gente que antes era dependente químico ou morador de rua e achou ali, uma forma de se reintegrar à sociedade ou ganhar um salário. Digno.     

Um dos problemas, segundo Odete, é a forma como a sociedade enxerga os “triadores”, como ela prefere chamar quem procura em lixeiras o que não deveria estar ali, “porque não é lixo”, diz.

“As pessoas ficam bravas, xingam, quando na verdade deveriam se envergonhar por não separar o lixo antes de descartar. Se houvesse separação, o reciclador não precisaria revirar nada, ele apenas pegaria os recicláveis e pronto”, justifica.

Rotina

À frente do trabalho na Comares, Odete explica a rotina do local. Todo dia, o caminhão da Prodesan, empresa responsável pela coleta seletiva em Santos, despeja lá o material retirado das ruas. Mas, com a baixa participação da sociedade em relação ao serviço, o rejeito, ou seja, aquilo que não é reciclável, chega a 30% durante a triagem diária.

Em meio a restos de comida, muito papelão, garrafas e embalagens que poderiam ser completamente reaproveitadas, mas perdem a chance ao se misturar com o lixo orgânico. Além disso, a presença de restos de alimentos trouxe aos cantos da cooperativa uma infestação de baratas. Os cooperados parecem ter se acostumado com elas, já que no descanso do almoço deitam ao lado das montanhas de sacos plásticos sem se importar com o passeio delas pelo chão.

Além do descaso com um serviço de extrema importância ambiental e social, a falta de infraestrutura também é visível. Com apenas uma esteira, uma empilhadeira e duas prensas, o material se acumula e fica difícil dar conta do volume diário – que deve aumentar com a nova lei de reciclagem. Por isso, de acordo com Odete, além da lei, obter mais atenção do poder público será fundamental.

 

Atualmente, no fim do mês, a cooperativa consegue vender em torno de 150 toneladas de recicláveis para indústrias. Com o valor da venda, cada cooperado consegue ganhar um salário mínimo.

Apoio

Além do envio do material pela Prodesan, a prefeitura paga a conta de luz e de água da cooperativa. E só. Todo o resto, como: alimentação, EPI’s, transporte e equipamentos é por conta da Comares. Nessa hora se explica a reclamação do cooperado nos parágrafos anteriores que ficou sem almoço.

“Eu não consigo arcar com as despesas de alimentação deles, então eles trazem de casa. O problema é que tem gente que não tem comida em casa. Às vezes, consigo um desconto com um fornecedor de marmitas, mas nem sempre vem a quantidade certa, daí a comida não dá para todo mundo e o pessoal vem reclamar. Já tentei falar com as centenas de empresas que têm aqui no bairro, mas nenhuma quer fazer parceria, nem mesmo oferecer uma cesta básica”, conta Odete, ao deixar claro que se alguém se interessar em oferecer alimentação, é só procurá-la. A busca pelo fornecimento de café da manhã pela Prefeitura também foi em vão.

Para Odete, falta um olhar mais responsável da Administração da cidade com as cooperativas e conscientização da sociedade em participar da coleta seletiva. “No site da prefeitura tem todas as informações sobre a coleta seletiva, o dia que passa e em quais bairros. É fácil: joga o lixo orgânico à noite, o reciclável de manhã no dia informado no site”, detalha.

Melhorias

No momento, a única parceira da Cooperativa em relação à equipamentos é com a Associação Brasileira de Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec). Com isso, o projeto de uma nova esteira, mais moderna, já é visível em um canto do galpão e deve começar a operar até o início do ano que vem.

Surpresa

Durante a Reportagem, muitas andorinhas em voos rasantes perambulavam de um lado para o outro na cooperativa. Questionada de o motivo do lugar ter tantos pássaros, nem ela nem os cooperados souberam responder. “É porque a reciclagem faz bem para o mundo, daí a natureza abençoa”, brincou um deles.

Cooperbrasil

A cooperativa está instalada em um galpão no centro de Santos. Sem nenhum tipo de apoio do poder público, Marcelo conta que precisa trabalhar dobrado para achar material, bancar o combustível do único caminhão próprio que faz a coleta, o salário de R$700 dos 30 cooperados, mais o aluguel do local no valor de R$5 mil mensais.

“Não temos nenhum tipo de apoio público. O material que chega aqui é fruto de parcerias com empresas e supermercados que nos procuram para fazer a retirada dos recicláveis”, explica ele. A média mensal de materiais vendidos pela cooperativa é de cerca de 70 toneladas/mês.

Para Marcelo, a lei Recicla Santos pode ajudar na mudança de postura da população e das empresas em relação ao descarte do lixo. De acordo com ele, desde que a lei foi sancionada, em 2 de janeiro deste ano, a procura pelo serviço de coleta aumentou bastante. “Espero que agora nos enxerguem de outra forma, não mais com pena ou com preconceito, mas como trabalhadores que somos no ramo de recicláveis”, declara.