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Telma de Souza lembra da intervenção na 'Casa dos Horrores' 30 anos depois

Três décadas de intervenção do Anchieta, hospital psiquiátrico privado conhecido como "Casa dos Horrores".

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05 MAI 2019Por Carlos Ratton08h22
Telma de Souza (PT) decretou intervenção municipal no equipamento no dia 3 de maio de 1989.Foto: Facebook/Telma de Souza

Na última sexta-feira (3), a Câmara de Santos realizou sessão solene para celebrar os 30 anos de intervenção na Casa de Saúde Anchieta, hospital psiquiátrico privado conhecido como "Casa dos Horrores". À frente da iniciativa a vereadora Telma de Souza (PT), prefeita à época e que, após várias denúncias de maus-tratos e mortes violentas de pacientes no Anchieta, decretou intervenção municipal no equipamento no dia 3 de maio de 1989. A intervenção na Casa Anchieta é um marco na política de Saúde Mental e se tornou referência internacional. Confira os melhores trechos da entrevista com a ex-prefeita de Santos:

Diário do Litoral (DL) - A ideia é um contraponto à proposta da nova política de Saúde Mental do Governo Bolsonaro?

Telma de Souza - Precisávamos marcar a data, para que o santista e a Baixada pudesse rememorar o que era o Anchieta e a política pública adotada em Santos para acabar com o sofrimento daquelas pessoas. Ela foi elaborada, em termos legislativos à época, pelo deputado federal Paulo Delgado (PT-MG). Nossa política pública até hoje é considerada um marco mundial na Luta Antimanicomial e na reforma psiquiátrica, que estabeleceu um novo modelo de tratamento, baseado na humanização do atendimento, na integração do paciente e no respeito aos direitos humanos. A sessão também tem o objetivo de se contrapor à nota técnica publicada pelo Ministério da Saúde propõe mudanças radicais ao atendimento humanizado já reconhecido no Mundo.

DL -Um retrocesso?

Telma - Sim. As medidas retomam procedimentos e ferem diretamente a dignidade humana. O texto do Governo Federal define o retorno do eletrochoque em pacientes, a possibilidade da internação de crianças e adolescentes em hospitais psiquiátricos, junto com adultos, e defende a abstinência para o tratamento de dependência química, seguindo na contramão dos avanços desta política, contrariando o tratamento humanizado e a prática da redução de danos.

DL - O que mais vai permitir, por exemplo?

Telma - Que adultos sejam tratados junto com crianças. Temos que denunciar e lembrar que existe outra maneira de fazer políticas públicas relacionadas à saúde mental. O que se fazia antes da intervenção era, entre outras coisas, tortura. E a cidade era cúmplice da situação. Não se envolvia o Anchieta. As famílias dos pacientes não sabiam como lidar com a situação e nem imaginavam o que ocorria na conhecida Casa dos Horrores. Eu, enquanto prefeita, resolvi agir e nossa iniciativa acabou promovendo uma lei nacional e servindo de exemplo para o Mundo. Fui chamada para discursar na ONU (Organização das Nações Unidas) e vários países. Minha equipe fez uma política de vanguarda.

DL - Nem todas as pessoas que eram levadas ao Anchieta estavam com problemas mentais, não?

Telma - Para se ter uma ideia, tive denúncias de três mortes violentas no local, uma por espancamento e duas por suicídio. Os pacientes eram mantidos encarcerados em uma área superlotada. Encontrei pessoas presas, sem roupas, dormindo ao relento e que comiam e defecavam no mesmo latão de óleo. Havia 565 internos, num espaço com capacidade para 280 pessoas, sobrevivendo em condições de alto risco de vulnerabilidade. Casa dos Horrores era pouco. Fiz bem em intervir e faria tudo de novo. Quando lidamos com saúde mental, lidamos com a alma humana.

DL - Após a intervenção o que foi feito?

Telma - Mudei tudo. Promovi uma série de mudanças na antiga Casa dos Horrores. Foram proibidos os eletrochoques, instalados chuveiros quentes, arrancadas portas das celas, quadruplicamos o número de profissionais e implantamos a Comissão de Alta, que liberou 50 pacientes somente na primeira semana. Promovemos arte como tratamento e implantamos a Rádio Tam Tam, que se tornou um projeto que também virou referência.

DL - Além da lembrança e do alerta, a sessão teve outro objetivo?

Telma - A iniciativa na Câmara é um ato de resistência de cidadãos comuns, profissionais e entidades contra a retomada da ideia do manicômio e do tratamento por eletrochoque. Esta é uma luta central em nome do compromisso com a vida. Continuaremos na resistência contra todos os retrocessos que estão tentando nos empurrar goela abaixo. É a reafirmação do compromisso com a cidadania e respeito ao ser humano.

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