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Berçário em Santos não tem telhado para atender necessidades dos seus 'bebês'

Moradora do Marapé ajuda na criação de duas espécies de borboletas.

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26 MAI 2019Por Thaís Moraes06h06
Simone Anjos virou uma espécie de parteira de borboletas.Foto: NAIR BUENO/DL

Em 2016, o bairro do Marapé, em Santos, ganhou um novo berçário. Na fachada, nada de placas. Na recepção, apenas uma longa escada. Oito metros adiante, chega-se ao cômodo com 18 metros quadrados. As paredes são amarelas claras, mas não há telhado. Os banhos de sol e chuva são à vontade.

Nesse berçário não tem uma incubadora sequer. As camas são verdes. Verdes porque são nas folhas da planta capitão-da-sala que os ovos aguardam sua eclosão.  

De uma grande variedade de plantas que habitam o espaço, como um limoeiro, uma jabuticabeira, uma bananeira, um abacateiro e uma pitangueira, apenas a capitão-da-sala é alvo da borboleta Monarca, espécie originária do sul do Canadá e que pode viver até nove meses. Ela sai de lá durante o inverno à procura de temperaturas mais amenas, segue para o México e depois para o Brasil. Um bater de asas que soma mais de 10.500 quilômetros de distância.

Há três anos, a artista visual Simone Anjos, de 45 anos, virou uma espécie de parteira de borboletas e seu quintal, um berçário. O trabalho começou por acaso. “Apareceram lagartas no meu pé de maracujá. Para que elas não comessem minhas plantas, decidi criá-las em potes de vidro. Crio as lagartas desde pequenas até virarem borboleta. Depois, solto na natureza”, explica.

A lagarta que gosta de comer folhas do pé de maracujá é da espécie pingos-de-prata, muito comum em todo o Brasil e a primeira que Simone criou por muito tempo. Todos os dias, pela manhã, como um ritual, ela vai até o quintal verificar se novos ovos foram postos pela Monarca ou se eclodiram. Essa espécie coloca até 500 ovos, mas só nascem cerca de 50 por conta de predadores, aranhas, abelhas e vespas.

Quando aparecem, as lagartas são brancas e tão minúsculas que é necessária uma lupa para enxergá-las. Nesse momento, Simone as coloca junto com folhas de capitão-da-sala dentro de potes de vidro, que são vedados por uma tela, presa por um elástico.

Em apenas três dias, depois de tanto comer, a lagarta já mede três centímetros e ganhou listras pretas, brancas e amarelas. “O inseto segue engordando por até dez dias e pode chegar até dez centímetros, quando procura um local seguro, geralmente um galho, pendura-se de cabeça para baixo e adere à superfície com fios de seda que ele mesmo produz”, diz Simone.

Isso mostra que é hora da terceira fase de desenvolvimento: a pupa, que será protegida pelo casulo. Entre dez a 12 dias depois, quando a borboleta está pronta, ela rompe o casulo. “As borboletas geralmente nascem bem cedo, no máximo, até o início da tarde. Leva-se geralmente duas horas para que as asas desamassem totalmente. Quando ela está pronta, solto na natureza e um novo ciclo é iniciado”, conta a “parteira” Simone.

O maior trabalho da borboleta será encontrar alimento (flores) e um parceiro ou parceira para reprodução. Ambas as tarefas são difíceis devido à falta de vegetação nas cidades, ao desmatamento das florestas e aos pesticidas encontrados nas plantações.

Uma pesquisa sobre insetos divulgada em 14 de fevereiro deste ano pela BCC, revelou que 40% das espécies no mundo, entre borboletas, abelhas e libélulas estão passando por uma "dramática taxa de declínio" e podem desaparecer. Enquanto isso, a população de baratas e moscas não para de aumentar.

Criação é simples, mas exige cuidados

Toda lagarta vira borboleta ou mariposa, mas não deve ser manuseada sem que se tenha a certeza de que não é nociva. “Se houver dúvida, é preciso pegá-la com uma luva, pinça ou até mesmo um galho. Muitas se alimentam de plantas tóxicas e acabam queimando”, alerta Simone.

Também não adianta encontrar uma lagarta na rua e levá-la para casa porque não se sabe que tipo de planta ela come. “As pessoas me ligam para falar que acharam um tipo diferente e querem doar para mim, mas eu só trago se ela estiver junto à folha que come. Estou com uma pupa da espécie olho de pavão, mas agora preciso descobrir qual é o nome da planta”, esclarece.

A prática da artista visual mostra que criar borboletas é mais simples do que parece. “A informação que eu tinha sobre esse animal era a mesma que todo mundo tem e vemos nos livros da escola. Moro numa casa sobreposta, em meio a prédios, meu jardim é todo plantado em vasos e mesmo assim as borboletas vêm. As pessoas podem fazer o mesmo até mesmo numa pequena sacada. O grande desafio é encontrar em quais espécies as borboletas botam os ovos”, resume.

Para mostrar a transformação pessoalmente às crianças, Simone criou o Projeto Borboletear, que teve sua terceira edição realizada no último dia 4 de maio. Durante uma tarde, a criadora explica e mostra aos pequenos as quatro fases da metamorfose (ovo, lagarta, pupa e estágio adulto). Ao final do encontro, se possível, a criança leva um casulo para sua casa para fazer a soltura da borboleta.

 

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