Santos registra 540 casos de depressão em 2018

A incidência de cerca de 70% dos casos notificados é em mulheres, na faixa etária de 25 a 59 anos.

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07 ABR 2019Por Caroline Souza07h13
O psicólogo e coordenador de Saúde Mental da Prefeitura de Santos falou com a reportagem do Diário sobre a doença.Foto: Nair Bueno/DL

A Organização Mundial da Saúde estima que 300 milhões de pessoas sofrem com depressão em todo o mundo. No dia Mundial da Saúde, comemorado hoje, a reportagem conversou sobre a doença com o psicólogo e coordenador de Saúde Mental da Prefeitura de Santos, Paulo Muniz. Confira:

Diário do Litoral - As pessoas ainda têm muitas dúvidas sobre o que é tristeza e o que é depressão. Como diferenciar?

Paulo Muniz - A tristeza geralmente tem um motivo concreto, um fato que aconteceu na vida da pessoa, como uma separação, perda de emprego, ou seja, uma ruptura que pode ser mensurada. De um modo geral essas ocorrências têm um tempo para terminar. Em alguns casos, se leva muito tempo para essa tristeza ir embora, ela pode estar virando uma depressão.

Diário - Quais são os sintomas da depressão?

Muniz - A depressão muitas vezes é silenciosa, pode ter sinais que não são só a tristeza, como irritação, falta de sono, falta de apetite. Depende da situação e deve ser analisada por um profissional.

Diário - Em Santos, a incidência é maior entre homens ou mulheres?

Muniz - Dos casos que chegam no serviço público, ainda é maior em mulheres, cerca de 70%, na faixa etária de 25 a 59 anos.

Diário - Por que a doença acomete mais as mulheres ou por que os homens não procuram ajuda?

Muniz - Pela minha experiência, de um modo geral, as mulheres estão mais próximas da rede pública. Não acredito que o fato de ter maior número de mulheres diagnosticadas seja porque elas têm mais depressão que homens. A depressão não é uma doença de gênero.

Diário - Como os pais podem identificar os sintomas em crianças?

Muniz - Se notar algum tipo de alteração brusca no comportamento ou que vem ao longo do tempo se modificando, mesmo sem ser brusca, eles devem procurar um profissional. A depressão infantil não é tão incomum assim.

Diário - Vocês têm algum programa de prevenção nas escolas de Santos?

Muniz - Nós temos uma ação, que faz parte da rede de atenção psicossocial e das diretrizes nacionais do Ministério da Saúde, chamada matriciamento em saúde mental. Quando a escola nota alguma alteração no aluno, seja qual for o motivo, esse caso é comunicado para unidade de saúde referência e essa unidade faz o contato com a saúde mental. Os casos mais graves são acompanhados de perto pelo Programa de Saúde na Escola (PSE), que tem representantes na saúde e na educação. Essas ações de matriciamento são constantes para que os casos sejam acompanhados de perto.

A prevenção na saúde mental se dá muito com a produção de vida. Muitas vezes se faz prevenção sem necessariamente a equipe de saúde mental estar junto. Por exemplo, a prática de esportes e a inserção em atividades artísticas e culturais são ações extremamente importantes para produzir vida.

Diário - A Prefeitura oferece tratamento psicológico gratuito?

Muniz - No Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), a gente tem médico, psicólogo, terapeuta ocupacional, enfermeiro e assistente social. Essa equipe tem como diretriz fazer o atendimento psicossocial da pessoa. Quando há uma necessidade da pessoa ser atendida exclusivamente por um psicólogo, ela vai passar pelo profissional. Mas nem todos tem consulta individual, como em convênio. Primeiro porque existem vários aspectos a serem olhados, a gente não pode 'psicologizar' o atendimento da saúde mental. Além disso, não conseguiríamos atender todos que procuram o serviço. A construção da política da saúde mental está baseada no olhar ampliado com outros profissionais.

Diário - Como o munícipe pode ter acesso a esses profissionais?

Muniz - São duas possibilidades: ela pode ir em uma unidade básica mais próxima de casa e conversar com a equipe, ou pode ir direto a um CAPS. Temos cinco CAPS adultos, três infanto-juvenis, um CAPS-AD (álcool e drogas) infanto-juvenil e um CAPS-AD adulto.

Diário - Houve aumento ou diminuição dos casos de depressão em Santos nos últimos anos?

Muniz - Nos últimos dois anos foi mantido uma média. Em 2017, foram 400 casos registrados de depressão moderada e grave na nossa rede de saúde mental, e em 2018, 540. Para se ter uma ideia, temos 20 mil pessoas em média atendidas por ano na saúde mental, que passam por diversos profissionais. Dessas 20 mil, são 17 mil atendimentos realizados por mês.

Diário - Gostaria de acrescentar mais alguma coisa sobre o assunto?

Muniz - Quando falamos sobre depressão, é importante observar sem julgamento, entender que não é uma escolha da pessoa, e incentivá-la a procurar ajuda. O impedimento social que a pessoa que tem depressão passa, prejudica trabalho, relações e estudo. As pessoas podem e ficam doentes.

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