Santos
A cidade celebra aniversário reafirmando seu papel como motor da história nacional, da imigração paulista e do maior complexo portuário da América Latina
Um dos navios que partiram da Europa com imigrantes rumo ao Porto de Santos, trazendo milhares de pessoas com sonhos e muitos planos / Elisabete Recchia/Acervo Pessoal
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Nesta segunda-feira (26), a cidade de Santos completa 480 anos de uma história que até se confunde com a própria construção do Brasil. Fundado por Brás Cubas em 1546, o município não é apenas uma estância balneária ou o lar de um dos times mais famosos do Brasil, é também considerado como o início do desenvolvimento do Estado de São Paulo.
Embora a Capital seja frequentemente exaltada por sua imensa diversidade cultural, é preciso considerar que essa grandeza só existe por conta do Porto de Santos, que abriu suas águas para a chegada de novos povos. Foi através do nosso estuário que a imigração tomou forma e ganhou força de trabalho, revelando a cultura de italianos, japoneses, árabes, alemães e, claro, de portugueses, que encontraram na orla e no Valongo os cenários ideais para recomeçar a vida.
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A influência portuguesa é a espinha dorsal da cidade de Santos, desde a arquitetura do Centro Histórico ao sotaque e à culinária local. A herança dos colonizadores e dos imigrantes, que vieram em massa no século XIX, moldou a identidade santista e nos ensinou os grandes artífices do comércio e da expansão urbana. Posteriormente, tamanho conhecimento preparou a cidade para o "Ciclo do Café".
Em 1922, Santos tornou-se o termômetro da riqueza brasileira com a inauguração da Bolsa Oficial do Café (atual Museu do Café). O grão que descia a Serra do Mar pela histórica ferrovia São Paulo Railway, um projeto audacioso do Barão de Mauá, era negociado sob a proteção do Porto, garantindo que o "ouro negro" chegasse ao mundo e financiasse o crescimento vertiginoso da vizinha capital.
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Foi essa mistura de nações, que inclui ainda espanhóis, franceses, gregos e africanos, que transformou Santos em uma cidade cosmopolita por natureza. Cada monumento aqui construído por imigrantes conta uma parcela da jornada de quem atravessou o oceano para construir, a partir do litoral, a pujança do Estado de São Paulo e da própria Baixada Santista.
Não é à toa que o Museu da Imigração possui um registro vivo para a consulta de uma série de documentos regionais, como o registro de matrículas de época, lista geral de passageiros de navios extintos, cartas de chamadas que declaravam a garantia de auxílio ao imigrante, além de cartográficos e iconográficos antigos do Porto de Santos. Clique aqui para conferir!
O Porto de Santos, hoje considerado como o maior da América Latina, teve um início modesto com pontes de madeira conhecidas como trapiches. Foi a visão estratégica de Brás Cubas, ao transferir o porto para o interior do estuário no Lagamar do Enguaguaçú, que protegeu os navios e permitiu o florescimento das operações.
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Em 1892, a inauguração dos primeiros 260 metros de cais pela Companhia Docas de Santos marcou o nascimento do porto organizado. Desde então, o complexo evoluiu para uma estrutura tecnológica que bate recordes consecutivos de exportação e importação.
Para se ter uma ideia, o complexo atingiu em 2025 a marca histórica de 186,4 milhões de toneladas movimentadas, um crescimento de 3,6% sobre o recorde anterior estabelecido em 2024 (179,8 milhões). Se hoje o Brasil é um player global no agronegócio e na indústria, deve-se à eficiência desse cais que nunca para.
É importante citar que a cidade de Santos não faz aniversário sozinha, pois a infraestrutura portuária completará 134 de história no próximo dia 2 de fevereiro. Embora o município registre atividades marítimas desde o século XIV, a data remonta à inauguração oficial do porto organizado, em 1892, quando houve a atracação no navio inglês Nasmyth, o primeiro a ser registrado nos então 260 metros de cais. Hoje, são mais de 16 km de "história".
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A junção das tramas de "A Muralha" (2000) e "Terra Nostra" (1999) oferece uma perspectiva completa da evolução de Santos como o grande portal da civilização brasileira. Enquanto a primeira retrata o desbravamento bruto e a superação da Serra do Mar, a segunda ilustra o florescimento econômico e humano que transformou a cidade no maior centro de acolhimento de sonhos do continente.
A importância dessas obras para a cidade reside na forma como imortalizaram o Porto de Santos em diferentes eras. Por exemplo, "A Muralha" retrata o destino final de uma travessia marítima perigosa e o ponto de partida para o confronto com o imenso obstáculo geográfico que separava o porto da Vila de São Paulo, enquanto a trama italiana utilizou o porto como cenário do desencontro épico de Giuliana (Ana Paula Arósio) e Matteo (Thiago Lacerda), em meio a Peste Bubônica, simbolizando o impacto da imigração italiana que desembarcava no cais para substituir a mão de obra escrava nas fazendas de café.
Juntas, as produções destacam que Santos nunca foi apenas uma cidade costeira, mas o elo vital entre o Velho Mundo e o progresso do interior paulista. Além disso, as tramas consolidaram o imaginário de Santos como o berço da diversidade brasileira ao mostrar a jornada dos imigrantes que deixavam os navios para subir a serra em busca de uma "vida melhor".
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A ficção histórica deu rosto e emoção aos milhares de imigrantes que moldaram a identidade da região. Para Santos, ver essas histórias na tela foi o reconhecimento de seu papel como o coração de um sistema que trazia a cultura europeia e exportava a riqueza nacional, reafirmando que a história do Brasil moderno começou, invariavelmente, passando pelas suas águas.
Santos chega aos 480 anos ocupando a 10ª posição em qualidade de vida no país e sendo a 5ª cidade mais importante para a economia brasileira. Mais do que números, o município ainda detém o título simbólico de Capital Paulista todo dia 13 de junho, data do aniversário de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), o patrono da Independência, lembrando a todos que o planalto metropolitano não teria horizonte se não fosse os nossos mares.