Santos

População da ZN se queixa em pleno aniversário da região

Moradores relatam enchentes, incêndios, falta de serviços básicos e promessas não cumpridas

Carlos Ratton

Publicado em 31/08/2025 às 06:40

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Este é o segundo incêndio que acontece na comunidade Caminho São Sebastião durante o mês de agosto / Nair Bueno/DL

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A Zona Noroeste de Santos completa mais um aniversário neste domingo (31), mas os moradores de uma das regiões mais populosas e trabalhadoras de Santos têm muito pouco a comemorar. A Reportagem colheu depoimentos de alguns e os problemas persistem por décadas sem solução, apesar das promessas que, ano após ano, são lançadas em tribunas, indicações, requerimentos, projetos de lei e gabinetes administrativos. 

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Mesmo diante de uma história que remonta século 16 (ver nesta reportagem) os moradores só tem um pouco de atenção na época de eleição, quando há uma chacina ou morte de uma inocente vítima de incêndio, como ocorreu com a idosa de 64 anos recentemente.

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Estudante de Jornalismo e suplente de vereador, Luis Henrique Fernandes da Silva encaminhou uma verdadeira lista de problemas, muitos pautas de reportagens, como as eternas enchentes que seriam resolvidas com a implantação de 10 estações elevatórias, sendo que somente uma foi entregue até agora.     

“Vivemos sofrendo com incêndio nas favelas, como o que ocorreu em 1º de agosto último. Falta saneamento básico, segurança pública, com a população sendo vítima de criminosos até do próprio Estado, como nas operações Escudo e Verão”, lembra. 

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Também acrescenta a falta de mobilidade. Lembra de uma das maiores tarifas do país (o que faz uma família perder o direito até de ir à praia) e que a população precisa ficar pelo menos uma hora dentro do transporte para chegar ao trabalho, estudo ou lazer. “Muitos santistas nem sabem da existência do Jardim Botânico e do Engenho dos Erasmos”. 

O estudante ainda lembra da dificuldade no acesso à Educação em todas as fases, com escolas de estrutura defasada, que sofrem com enchentes (interna ou externamente) e sem a possibilidade de acesso ao ensino superior. “Por isso, existe um forte movimento para que o Instituto Federal, que será instalado em Santos, fique na ZN”.

Ele lembra ainda dos problemas com moradias em condições precárias, em palafitas. “Muitos moradores de bairros como Rádio Clube e Jardim Castelo possuem suas casas, mas sem acesso à escritura, dificultando qualquer transação com o imóvel, como vender de forma financiada”.

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Moradores confirmam

Como o estudante, Daniel Rodrigues, que mora há 24 anos, lembra da segurança pública. Jovem, ele alega que geralmente a ação policial é diferente de outros regiões. “A Polícia, que era para servir e proteger, condena nossos jovens antes mesmo do julgamento. Nossas famílias a sofrer, nossos irmãos a morrer. Aqui, a segurança pública não está para proteger, mas para destruir tudo aquilo que a gente um dia construiu com a desculpa que está combatendo o crime”, afirma. 

Moradora de palafitas desde 2010, Patrícia de Aguilar Ovarenga vê nos incêndios os maiores problemas. “Tudo por causa de muita fiação exposta. Os moradores não tem opção se quiserem ter o mínimo de conforto em casa. O número de postes e a fiação acabam gerando insegurança. Moramos em um pavio de pólvora. Qualquer faísca pega fogo em tudo”.

Maria Helena Silva reclama da falta de saneamento e lembra das enchentes. Ela conta que, quando enche, fica com medo da água fétida e contaminada atingir sua palafita. “E as crianças pegarem alguma doença. Toda vez que eu saio para trabalhar morro de medo. 

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E é sempre promessas que vão resolver alguma coisa, que vão mudar. Eu moro aqui no Caminho São Sebastião há cinco anos e parece que estamos abandonados” afirma. 

Sociólogo, professor e servidor público, Américo Galdino ratifica a questão do transporte público e lembra que o tempo entre as zonas Noroeste e Leste, de carro ou moto, é cerca de 25 minutos sem trânsito. No entanto, trabalhadores estão enfrentando dilemas absurdos, como preço da passagem e a superlotação dos ônibus, além do tempo da viagem. “Uma linha específica, a 155, principalmente de manhã, é sofrível”. 

Estudante de Relações Internacionais, Gabriel Felippe volta à questão turística. Diz que Santos recebe, em média, três milhões de turistas por ano apenas na entrada de verão. No entanto, acredita que a distribuição geográfica das atividades continua mal organizada. “A cidade tem a oportunidade de impulsionar turismo na ZN por meio da elaboração de um projeto de integração e promoção desses equipamentos públicos em torno da sustentabilidade, abrindo caminho para a elevação da qualidade de vida da população local e a dinamização da economia”, sugere. 

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Os moradores lembram ainda que, mesmo tendo equipamentos de saúde, eles se mostram insuficientes, sem estrutura e com qualidade inferior aos de outros bairros. O CAPS da Zona Noroeste acumula diversas denúncias, assim como a UPA da ZN e policlínicas, como a do Rádio Clube, que apresentam atendimentos inadequados.

Poeta

O escritor e poeta Alexandre Miguel de Souza lembra que Santos possui dois reservatórios de água, sendo que um deles fica na ZN. “Só que nos bairros da Leste não falta água com os da ZN. Falta investimento para que a população tenha o mesmo direito de usufruir da água que a população da Orla”.

O escritor acredita que Santos viola Direitos Humanos diariamente, na forma como as pessoas em situação de rua são tratadas, no direito de ir e vir no São Manuel, no Jardim Piratininga e na Vila dos Criadores, presos a filas de caminhões na Rodovia Anchieta, perdendo emprego, consulta médica e estudos.  

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“E a questão da criminalização da pobreza, onde o jovem periférico é abordado de forma truculenta e violenta pela polícia. Nossas crianças e jovens sofrem com condições climáticas insuportáveis dentro das escolas, enquanto a população aguarda meses para conseguir uma simples consulta médica. O Restaurante Popular Bom Prato fecha as portas nos fins de semana, deixando milhares sem alimentação e o déficit habitacional aumenta, enquanto Zonas Especiais de Interesse Social são entregues aos interesses da especulação imobiliária”. 

Túnel: a promessa eterna

Entra ano, sai ano e um dos presentes de aniversário mais esperados pelo santista - o túnel do maciço central, unindo as zonas Leste e Noroeste - nunca chega. Em fevereiro, em reunião com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), na Capital, o prefeito Rogério Santos (Republicanos) destacou a importância da obra para a mobilidade urbana da Baixada Santista, uma vez que ela cria um novo corredor viário que estará conectado ao futuro túnel submerso entre Santos e Guarujá, que fica na mesma direção, e ao projeto da terceira pista da Imigrantes, já anunciada.

Em 11 de fevereiro de 2022, o Diário publicou que a construção do túnel foi incluída no pacote de obras que seriam executadas na Cidade com a desestatização do Porto do Santos, após pedido da Prefeitura. Os investimentos, que somariam R$ 16 bilhões, também contemplariam a construção do túnel Santos/Guarujá e o já entregue viaduto da Alemoa, que contribui na expansão industrial do bairro.

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Há pelos menos 60 anos se fala no Túnel da Zona Noroeste, mas desde 1994, gestão do então prefeito David Capistrano (PT), ele se tornou um verdadeiro fantasma que assombra o Paço Municipal Santista. Mas foi nos governos Beto Mansur (PP), João Paulo Tavares Papa (MDB) e Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) que o assunto foi bastante explorado eleitoralmente.

Estima-se que o tão esperado túnel - o maior sonho dos cerca de 120 mil habitantes da Zona Noroeste, depois do fim das enchentes, iria beneficiar cerca de um milhão de moradores da Baixada Santista, formando uma nova ligação viária entre o Marapé (Santos) e São Jorge (São Vicente), cortando o morro, desafogando o trânsito das avenidas Nossa Senhora de Fátima e Martins Fontes.

A zona 

Numa área de 12,3 quilômetros quadrados, composta por 16 bairros (Alemoa, Areia Branca, Bom Retiro, Caneleira, Castelo, Chico de Paula, Ilhéu Alto, Piratininga, Porto Alemoa, Porto Saboó, Rádio Clube, Saboó, Santa Maria, São Jorge, São Manoel e Vila Haddad), a Zona Noroeste comemora seu aniversário sempre no último domingo de agosto, desde 1976, após a lei 4.047 do então prefeito Antônio Manoel de Carvalho.

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Mas os registros de movimentação ali vêm de muito antes: em 1534 era instalado no local o Engenho dos Erasmos, um dos primeiros engenhos de açúcar da América Latina, construído a mando de Martim Afonso. 

Foi a partir dele que a região começou a ser povoada gradativamente. Sua posição geográfica também contribuiu com o início das ocupações, por ser ligação entre Santos e São Vicente, pelo caminho onde hoje fica a Avenida Nossa Senhora de Fátima, e pela construção do Polo Industrial de Cubatão. 

O incêndio

Antes do término desta reportagem, dia 28 (quinta-feira) um incêndio atingiu a comunidade Caminho São Sebastião, no Rádio Clube, na Zona Noroeste. O segundo somente neste mês de aniversário da região. Mais de 50 barracos foram atingidos pelas chamas.

Várias guarnições do 6º GB estiveram no local e conseguiram controlar o fogo. Um homem precisou ser socorrido pela ambulância do SAMU após inalar fumaça e queimar as vias aéreas superiores.

Este é o segundo incêndio que acontece na comunidade Caminho São Sebastião durante o mês de agosto. No dia 1º, 100 moradias construídas sobre palafitas foram atingidas pelas chamas. Uma idosa de 60 anos morreu.

O Desfile Cívico-Militar de Aniversário da Zona Noroeste, que estava previsto para ontem, foi cancelado. Todos os esforços dos serviços municipais estão voltados ao atendimento e suporte aos afetados pelo incêndio.

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