No ano passado, pesquisadores suíços da expedição Race for Water (“corrida pela água”) fizeram o primeiro mapeamento global sobre a poluição nos oceanos. Os dados coletados mostraram que, se os lixões encontrados nos cinco oceanos fossem reunidos, cobririam duas vezes o território brasileiro. Para a fauna marítima, o plástico representa um dos maiores perigos e mata um milhão de aves marinhas por ano.
Porém, outro tipo de lixo que preocupa os pesquisadores de todo o mundo são os materiais usados nas atividades pesqueiras. Anualmente, 10% dos petrechos de pesca como redes e cabos de amarra são perdidos no mar.
Para entender mais sobre o tema, o Diário do Litoral conversou com o doutor em Oceanografia Biológica e especialista em Tecnologia Pesqueira Luiz Miguel Casarini. Ele é um dos pesquisadores à frente do projeto pioneiro “Petrechos de Pesca Perdidos no Mar”, onde o objetivo é mapear e detectar estes materiais e removê-los para evitar a pesca fantasma.
Diário do Litoral – Como se deu a ideia do projeto “Petrechos de Pesca Perdidos no Mar – Brasil?
Luiz Miguel – O projeto nasceu em 2010, em parceria com a Fundação Florestal, a Secretaria do Meio Ambiente e o Instituto de Pesca, por conta da quantidade de petrechos de pesca dentro das unidades de conservação, detalhe, onde geralmente a pesca é proibida. Além de serem áreas de preservação, os animais são mais vulneráveis e a magnitude do impacto desses petrechos acaba sendo muito maior. Isso sugere que naquele local, em algum momento, ocorreu pesca ilegal. Também temos parceria com ONG´s como Gremar e BioPesca. Nosso projeto é reconhecido internacionalmente. Aqui no Brasil, a inciativa foi pioneira, mas lá fora isso já existia. Os países do exterior lidam com a questão dos resíduos, qualquer resíduo, melhor do que o Brasil, então para eles passou a ser só mais um tipo de resíduo para lidar. Aqui a gente ainda está numa briga insana para tentar ver o que conseguimos fazer. Há dificuldade em achar recicladoras que possam ter uma interface melhor para trabalhar com este material. Também comparecemos aos encontros com organizações mundiais para discutir sobre a pesca fantasma.
DL – O que é pesca fantasma?
LM – Pesca fantasma é quando instrumentos usados na pesca não tem mais controle humano, ou seja, uma rede jogada que se perde no mar ou por mau tempo ou qualquer outro motivo. Ela continua lá, continua pescando, mas sem mais o controle humano. Isto acaba gerando uma pesca cíclica, porque os peixes presos ali viram isca e atraem outros e assim por diante. É um ciclo vicioso que acontece tanto com redes perdidas, como com o espinhel (Aparelho de pesca que consiste numa corda comprida onde são fixados anzóis).
DL -Como fazem para localizar os resíduos?
LM – Usamos equipamentos tecnológicos como sonar, câmeras, robôs, e equipes de mergulhadores que posteriormente, retiram o lixo. No Museu de Pesca tem uma exposição com parte dos materiais retirados.
DL – Onde se concentra a maior quantidade de petrechos de pesca na região?
LM – Nas áreas de pesca autorizada e em áreas de preservação ambiental, fruto da pesca ilegal. Em alguns casos, as correntes marítimas são responsáveis por espalhar os resíduos. Na baia de Santos também tem bastante, mas o projeto ainda não teve fôlego pra fazer uma geral por toda a área. Trabalhamos basicamente nas áreas de conservação porque a nossa costa é muito grande e nas áreas de pesca regular tem muito material para ser removido. Cada vez que saímos, precisamos de embarcações, pessoal, equipamentos, há toda uma logística. Em Santos há muitos obstáculos, todo esse material no fundo do mar como âncoras, poitas, ficam como pegadores de petrechos e tudo se enrosca ali.
DL – As cidades da Baixada Santista são cercadas por mar e, consequentemente, atividade pesqueira. As prefeituras nunca pensaram em uma estrutura para lidar corretamente com este tipo de resíduo e sua destinação?
LM – Temos na região a pesca recreativa e a pesca comercial – em grande escala, são coisas distintas. Então, é necessário lidar com o problema de forma diferente. É fácil ver no calçadão idosos tropeçando em linhas de pesca, pessoal se cortando com anzol. A solução para isso seria coletores específicos para o pescador amador. Em alguns lugares do mundo você encontra isso, onde tem pesca amadora, tem um lixo próprio pra coletar anzóis, chumbo, etc. Aqui você não tem esse contexto porque as prefeituras não lidam com o problema. Fica tudo jogado por aí. A forma de lidar com qualquer lixo no Brasil já é um problema. O cidadão deveria ter um pouco mais de informação a respeito, um pouco mais de responsabilidade ambiental. Há alguns anos, o pessoal da prefeitura veio aqui para ver os materiais que a gente retira do mar. Uma forma de estimular a sociedade é disponibilizar um lixo adequado e assim chamar a atenção deles, mas o argumento é sempre o mesmo, “ah o pessoal destrói”, e nada é feito. Se na pesca recreativa já tem este tipo de problema, imagina na comercial, onde você tem materiais que chegam a pesar toneladas, 100 Km de espinhel lançados. Para esta quantidade, a solução seria postos de recebimento nos terminais de pesca, com um possível retorno aos pescadores que descartarem lá, por exemplo, a poliamida, que o pessoal chama de fio de nylon. Custa R$18 o quilo, dinheiro que vai para o lixo.
DL – Caso a administração passasse a disponibilizar coletores, há um espaço específico atualmente para receber estes materiais?
LM – Não, outro problema. Hoje, acabaria indo para os aterros. Atualmente, há apenas um ecoponto de recebimento dos petrechos retirados do mar, no Parque Estadual Xixová-Japuí, em São Vicente. Ele deveria ser apenas um ponto de transição, mas por enquanto o material está ficando lá e tem mais de toneladas. É lá que desenvolvemos trabalhos de pesquisa para que, com os dados obtidos, a reciclagem seja facilitada no futuro.
DL – Quais seriam os produtos finais oriundos da reciclagem dos resíduos de pesca?
LM – São poucas instituições que trabalham com o tema de uma forma intensa, a maior parte são ONG’s. Na América do Sul somos nós e uma ONG no Chile que faz pranchas e óculos com o material recolhido no mar. Nós temos uma parceria com o SENAI Mário Amato, em São Bernardo do Campo, que está testando este material na tentativa de criar uma linha, um fio a base de poliamida para ser usado na confecção de objetos em impressoras 3D.
DL – Um objeto reciclado também vai para o lixo um dia. E aí?
LM – Esta foi a minha primeira pergunta quando ouvi a ideia do SENAI. A resposta é que aquele objeto reciclado recebe um reforço em seu material e se recicla novamente. Esta é a ideia para se fechar o ciclo.
DL- Quais são as discussões nos encontros internacionais que o projeto participa?
LM – De 20% a 40% do lixo marítimo global é de petrecho de pesca, é uma parcela significativa do lixo que vem do mar. Então, discutimos como lidar com o problema e quais as soluções para ele. A ONU vem, desde 2005, trabalhando incessantemente com as nações costeiras formas para lidar com o tema, minimizar o sofrimento animal.
Lá fora existem canais onde os pescadores avisam quando perdem algum material, informam a posição, então ele é mapeado e assim que possível vai alguma agência governamental ou não governamental para retira-lo da água.
DL – E no Brasil, existem estes canais de comunicação entre pescadores e órgãos?
LM – No Brasil ainda não há nenhum tipo de canal. A gente tenta implantar, mas ainda é complicado porquê já se tem essa dificuldade na questão ambiental como um todo. Especificamente no mar a coisa muda de figura, são atores muito diferentes, sazonais, o pessoal da pesca é um pessoal que, infelizmente, se sente a margem desta situação ambiental. O pescador entende a pesca sempre como um setor produtivo, o Instituto de Pesca também, mas considera a questão da sustentabilidade. A pesca fantasma precisa ser considerada e o pessoal da pesca ainda tem dificuldade em entender este processo, os danos que causa e como ele poderia evitar. Uma das experiências que começou há pouco tempo, no litoral sul, é a identificação junto aos pescadores dos apetrechos que eles utilizam. Identificar as redes, gera responsabilidade.
DL – Que tipo de trabalho é feito para tentar conscientizar quem trabalha com a pesca?
LM – Damos palestras, a mais recente foi em Itanhaém, na Eco Surf, e fazemos campanhas junto aos pescadores. O pessoal ligado ao meio ambiente tem se engajado demais, há atividades semelhantes no Rio de Janeiro e no rio São Francisco.
DL – E com a sociedade?
LM – Em uma das ressacas, no ano passado, uma rede apareceu na praia do Embaré. O pessoal estava preocupado em pegar os peixes que estavam presos nela e não em retira-la dali antes que a maré subisse novamente. Eu tive que chamar os bombeiros para recolher. No Sul, as redes de pesca já causaram a morte de surfistas. Essa falta de noção não é só culpa da população. Há pouca divulgação do assunto e pouca responsabilidade. Quando as pessoas não sabem, elas não se importam.
DL – Parece que as empresas que trabalham com moda estão com um olhar mais sustentável. A Adidas, em parceria com os clubes Real Madrid e Bayern de Munique estão produzindo uniformes feitos com resíduos retirados do mar. Isto pode ser uma forma de chamar a atenção sobre o problema?
LM – A Adidas também fez campanha com o surfista Kelly Slater e lançou um tênis feito com redes de pesca. O pessoal lá fora está mais adiantando nesse contexto de logística reversa desse material. Muitas marcas investem neste sentido por lá.
DL – Quanto tempo dura uma rede utilizada na frequência da pesca comercial?
LM – Antes o Brasil era quem produzia redes de melhor qualidade, com a durabilidade maior, mas era mais caro. Hoje, as próprias industrias importam da China porque sai mais barato, redes de péssima qualidade que tem apenas 2 a 3 anos de vida útil, só que na natureza duram 400, 700 anos.
DL – Para você que é pesquisador, trabalha com isso, há esperança em achar soluções para o problema? E as leis, funcionam?
LM – Tem muita lei, lei para tudo, mas não funciona. O Brasil parece que não anda para frente, não se livra das amarras. Como pesquisador, os estudos que fazemos são para isso, para achar soluções e fechar um ciclo sustentável. Enquanto isso, conscientizar as pessoas sobre as questões ambientais é um começo.
