Novos caminhos da moda

No município de Santos, duas marcas de vestuário apostam na sustentabilidade e no reforço da identidade local

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15 SET 2019Por Luiza de Oliveira15h00
Marcas apostam na sustentabilidade e em causas sociaisFoto: Luiza de Oliveira/DL

Para além do ato de se vestir, a moda pode ser um canal de transformação social e militância. São muitos os exemplos de marcas autorais que apostam na sustentabilidade e no reforço da identidade local para abrir caminhos e carregar bandeiras sociais. Em Santos, duas se destacam: a Avanzzata e a Essência Favela.

Idealizada por Maria Alice Beloto, professora de sociologia, a marca santista de roupas Avanzzata surgiu em 2018 com o propósito de fazer a diferença. Coordenada por sua filha, Ana Beatriz Beloto, de 19 anos, a Avanzzata utiliza tecidos vendidos por refugiados africanos, através de uma cooperativa de mesma origem.

A marca se destaca pelo viés caseiro, de maneira que a equipe responsável pela produção é integrada por apenas três pessoas: Maria Beloto Bastista, Maria Alice e Ana Beatriz Batista. Avó, mãe e filha, respectivamente. O manuseio da máquina de costura fica por conta de Maria Beloto, mais conhecida como Dona Zefa. Já Alice e Ana Beatriz auxiliam na elaboração dos moldes e cortes de tecido, além da divulgação de um modo geral.

Prestes a se aposentar, a professora conta que criou a Avanzzata com a finalidade de não só empreender, mas beneficiar toda uma cadeia produtiva. Adepta de produções artesanais desde muito cedo, Alice acredita ser possível promover uma relação entre produtor e consumidor baseada no benefício mútuo. "Esse empreendedorismo tem um significado diferente pra gente. Estamos vivendo em um período no qual o trabalho está se ressignificando, as pessoas estão aprendendo a viver de uma outra forma", afirma.

Além de adotar o conceito de slow fashion, que consiste em uma alternativa sustentável em meio à moda globalizada, como um de seus ideais, a Avanzzata pratica ainda a técnica de Upcycling. Isto é, todas as sobras de tecidos são reaproveitadas na produção de acessórios como colares, faixas e anéis, medida que torna o lixo produzido pelo trio quase nulo.

Embora a marca tenha adquirido um número considerável de consumidores locais, Ana afirma que não há a pretensão de que ela tome maiores proporções. Isto porque, para elas, investir em um grande negócio seria como fugir do principal propósito do projeto, no caso, um empreendedorismo caseiro e familiar.

ESSÊNCIA FAVELA.

Graduadas em design de moda pela Faculdade Belas Artes, em São Paulo, Beatriz Gil e Gabriela Rolemberg falam com a comunidade periférica de uma maneira diferente. Elaborado por meio de um trabalho de conclusão de curso, o Essência Favela é muito mais que uma marca de roupas, é um projeto social.

Da periferia e para a periferia, o Essência Favela surgiu da falta de sensibilidade para com o público. Segundo Gabriela, os produtos consumidos pela comunidade são provenientes de marcas de bairro, populares, além daquelas conhecidas por seu viés de ostentação, que não são produzidas para ela. A designer explica que, apesar de amplamente consumidas, estas marcas não coincidem com o poder aquisitivo e nem com a realidade dessa população.

Com preços acessíveis, a produção do Essência é realizada em pequena escala. Isto acontece porque, desta forma, não há desvalorização ou comprometimento da qualidade das peças, que são de fácil poder aquisitivo.

Apesar de não residirem mais nas periferias, Gabriela e Beatriz têm como preocupação a representação dessas comunidades ao constituírem sua equipe. Por isso, todos aqueles que auxiliam nos devidos processos da marca, seja na produção em si ou em sua divulgação, são membros da favela e convivem diariamente com a sua respectiva realidade.

Gabriela conta que não existe um preconceito apenas com o produto, mas sim com o conceito geral do projeto. "O Essência é uma marca que lida diretamente com pessoas negras, gordas e de classe baixa. Assim que nos colocamos na posição de representar essas pessoas, já sentimos sim muito preconceito", afirma.

Com bagagem suficiente para entender o funcionamento das grandes marcas, as meninas procuram trazer para o projeto todos os conhecimentos adquiridos ao longo da faculdade e de experiências em importantes eventos do mundo da moda, porém adicionando todo o conceito do que se é viver na favela. "O nosso objetivo é empoderar essas pessoas, essas minorias que sofrem todos os dias uma grande pressão externa, uma grande dificuldade, seja para trabalhar, seja para estudar", diz Gabriela.

Hoje com a produção direcionada ao público da Baixada Santista, Beatriz diz que há a pretensão de que o Essência cresça, porém explica que em cidades maiores, como São Paulo, este movimento de empoderamento já está bem construído. "Aqui ainda há uma certa carência de bater no peito e dizer com orgulho que é de comunidade", comenta.

Quanto ao resultado do projeto, elas relatam que o Essência Favela possibilitou uma valorização e visibilidade muito maior para as comunidades. De acordo com Gil, quem é da favela pôde perceber que é possível ter produções oriundas da periferia que sejam boas e dignas de reconhecimento.