Santos, 24 de abril de 1964. Era pouco depois das 8 horas quando uma embarcação incomum chamou a atenção no Porto: casco negro, grandes chaminés e nenhum movimento próprio.
Rebocado desde o Rio de Janeiro, o navio já não navegava , mas carregava e arrastava um destino ainda mais pesado e que posteriormente seria cruel para trabalhadores presos e seus familiares.
Era o Raul Soares, transformado pela ditadura militar em um presídio flutuante, ou uma concentração militar em pleno cais do maior porto da América Latina.
Ancorado nas proximidades da Ilha Barnabé, o navio permaneceu no estuário santista por quase seis meses, até 23 de outubro. Nesse período, abrigou sindicalistas, estudantes, jornalistas e lideranças políticas presas por se oporem ao regime instaurado naquele ano.
O que se passou a bordo entrou para a história como um dos capítulos mais duros da repressão no país, marcado por violência, tortura e medo, mas também por resistência.
DL fez a reconstrução da história
Décadas depois, os relatos sobre o navio-prisão vieram à tona na série Navio-prisão: democracia à deriva, publicada pelo Diário do Litoral em 2012. O trabalho ajudou a embasar investigações da Comissão da Verdade sobre o caso.
Transformada em livro-reportagem, a série recebeu dois prêmios consecutivos de Direitos Humanos em Jornalismo (2017 e 2018).
A apuração reuniu testemunhos de sobreviventes, entre eles o médico Thomas Maack, além dos sindicalistas portuários Argeu Anacleto e Ademar dos Santos, o “Ademarzinho”, já falecidos.
Recentemente, outro prisioneiro, o portuário Osmar Alves de Campos Golegã, 91 anos, e um dos poucos sobreviventes desta história, também falou sobre sua dor, sofrimento e luta para refazer a vida.
Ele foi homenageado pela Câmara de Santos que lhe outorgou a Medalha de Honra ao Mérito Brás Cubas.
Médico entre os presos
Preso aos 29 anos, Thomas Maack foi levado ao Raul Soares após ser detido na Universidade de São Paulo. Dentro do navio, passou de prisioneiro a médico dos próprios companheiros.
“Se resisti, foi pelo apoio dos outros presos, especialmente dos sindicalistas de Santos”, relembrou.
Hoje, aos 90 anos e vivendo em Nova Iorque, Maack concedeu nova entrevista ao Diário do Litoral. Ele defende que a cidade preserve a memória do episódio com a criação de um memorial na região do Valongo, onde o navio permaneceu.
“Foi uma afronta a Santos e ao país. Essa história precisa ser conhecida, principalmente pelas novas gerações.”
O médico também destacou o papel das mulheres dos trabalhadores portuários, que mantinham vigília constante no cais diante do temor de que o navio fosse levado ao mar e afundado com os presos.
Conta como foi seus primeiros dias num dos calabouços do navio: ”Fui colocado em uma cela fria, alagada, desumana. O tempo não passava, ele pesava.”
Diz que a rotina mudou após ser chamado para atender um detento que havia tentado suicídio. ”Naquele momento, voltei a exercer o que nunca puderam tirar de mim: minha humanidade.”
A partir daí, passou a cuidar dos demais presos.”O Raul Soares foi um lugar de sofrimento, mas também de resistência silenciosa.”
Memória e reparação
Para Thomas Maack, preservar essa história é uma forma de evitar que episódios semelhantes se repitam.
“Quando a memória se apaga, abre-se espaço para que os erros voltem.”
Ele fez um apelo direto às autoridades de Santos para a criação de um memorial em homenagem aos prisioneiros do
A proposta começa a ganhar respaldo. Vereadores de Santos, Antônio Carlos Banha Joaquim (PSD), Francisco Nogueira (PT) e Débora Camilo (PSOL), assumiram o compromisso de encaminhar a iniciativa.
Além disso, a Câmara aprovou projeto da vereadora Débora Camilo(PSOL) de que institui o dia 24 de abril como data oficial de memória dos prisioneiros do Raul Soares.
Mais de seis décadas depois, a cidade começa a transformar lembrança em reconhecimento e o pesado silêncio em registro histórico.
