Movimento Hip Hop denuncia Guarda Municipal de Santos

Júlio Mad revela que três jovens ficaram cinco horas presos nus e algemados após serem abordados

Integrantes da Guarda Civil Municipal de Santos vêm abordando de forma truculenta grupos de Hip Hop que se apresentam em espaços públicos da cidade. A denúncia foi feita por Júlio Mad, do Mad Feeling Crew, composto por 15 jovens artistas, das mais variadas áreas periféricas do município, na última audiência pública realizada na Câmara de Santos. O encontro foi para debater a liberação de manifestações artísticas em espaços públicos, com a presença do Comando da Polícia Militar, membros da Câmara e da Prefeitura.

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“O comandante da Polícia Militar ressalta que encontra crianças de 12 anos na periferia, com armas nas mãos. Nós, do movimento Hip Hop, fazemos um esforço danado para convencer esses adolescentes a sair do crime e ganhar dinheiro com arte. Aí, eles assistem a Guarda nos abordando como criminosos. Na cabeça de moleque fica o seguinte: não importa, vou ser preso de qualquer jeito, como artista ou como traficante”, lamenta Júlio Mad, revelando que o Hip Hop transforma violência em arte. 

Após o desabafo, a Reportagem entrevistou Mad para obter mais detalhes das ações que só ocorrem em Santos. Ele é integrante do Movimento Hip Hop do Mercado (MHM) e revela situações dramáticas não só envolvem seu grupo, como outros que chegam à cidade para mostrar sua arte. No caso do Mad Feeling Crew, que costuma se apresentar no Bulevar da Rua Othon Feliciano, foram várias abordagens truculentas contra uma iniciativa chamada Quanto Vale o Show, e as pessoas, voluntariamente, colocam o valor que quiserem em um chapéu como pagamento pela apresentação de dança.

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“Não é esmola. O dinheiro serve para bancar viagens para apresentações em festivais. Só que há cerca de um ano e meio, os guardas vêm sistematicamente interrompendo as apresentações e nos expulsando do bulevar, contrariando o direito constitucional de liberdade de expressão. Em uma abordagem, empurraram a namorada de um dos componentes, obrigaram minha esposa e meu filho de nove meses a descer da bicicleta e queriam levar a caixa de som. A Polícia Militar foi acionada e disse que não faria nada porque nós não havíamos cometido crime algum”, lembra, enfatizando que o grupo já se apresentou gratuitamente a pedido da própria Prefeitura no projeto Muito Prazer, Meu Nome é Hip Hop. 

O integrante do grupo revela ainda que os guardas estão preparados para evitar que as pessoas fiquem sabendo de suas ações. “Em todas as abordagens exigiram que não fossem gravados, falando que se qualquer material sobre eles fosse posto na internet, a gente iria ser processado”, conta.

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Algemados e nus

Júlio Mad contou ainda outra situação vexatória a qual passaram três jovens de um grupo amigo, que chegaram do Nordeste para se apresentar nas ruas de Santos. “Eles foram surpreendidos no semáforo das avenidas Conselheiro Nébias e Bartolomeu de Gusmão, xingados, constrangidos por conta da origem, colocados dentro da viatura e levados para um local desconhecido. Depois, foram algemados, despidos e ameaçados por se recusarem a ir embora da cidade. Isso tudo durou cinco horas”, revela Mad. 

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Conforme disse, os rapazes depois foram levados à delegacia. No distrito, as alegações foram som fora do horário permitido e pedido de esmola no semáforo. “Também alegaram que não era permitido dançar nos semáforos da cidade. Pedimos uma retratação, um pedido de desculpas por parte da Secretaria de Cultura do município, mas nada foi feito”, comenta Mad, acreditando que há uma perseguição não só contra o Hip Hop, mas contra todos os artistas de rua, como as que compõem os grupos da Vila do Teatro e Trupe Olha da Rua.

Júlio Mad finaliza alertando que caixas de som, malabares, bicicletas e outros pertences dos artistas são apreendidos e levados pela GM e a taxa para retirar o material é R$ 500,00. Mesmo assim, há casos de pessoas que não recuperam o equipamento. “A atendente dá 10 dias de prazo e ainda revela que a GM, muitas vezes, não encaminha o material para o setor competente da Prefeitura. Há até processos internos sobre isso”, denuncia. 

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No final da audiência realizada na última terça-feira, na Câmara, o artista Júnior Brassalotti confirmou que a Guarda costuma interromper apresentações itinerantes nas ruas mesmo após os artistas, pessoalmente, protocolarem documentos e conseguirem autorizações para se apresentar. “Já teve espetáculo que foi interrompido várias vezes durante o percurso no Centro. Parece que não existe comunicação”, disse.

Corregedoria vai investigar abordagem  

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O comandante chefe da Guarda, Ronaldo Pereira Pinto, informa que Júlio Mad será convidado a comparecer à Corregedoria para ser ouvido em procedimento administrativo, afim de apurar todas as acusações apontadas, para que se tome as providências necessárias. Mas garante que as abordagens dos agentes são realizadas dentro dos padrões de cordialidade e educação e são devidamente pautadas no respeito mútuo, na preservação da integridade de todos os envolvidos e nas legislações pertinentes e são devidamente registradas em boletins de ocorrência.

Quanto aos motivos das abordagens, destaca que atua conforma a lei, que proíbe embaraçar ou impedir, por qualquer meio ou forma, o livre trânsito de veículos e de pedestres nas avenidas, ruas, praças e passeios dos aglomerados urbanos de Santos, bem como nas estradas e caminhos municipais, exceto para execução obrigatória de obras e serviços públicos ou quando a sinalização de trânsito ou exigências de ordem e segurança pública o determinarem. 

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Destaca ainda que para execução de qualquer evento faz-se necessário a prévia autorização da Administração e que é importante que qualquer tipo de denúncia de agressão ou abuso de autoridade por parte de integrantes da corporação sejam comunicadas na Praça Iguatemi Martins, 17 (Mercado Municipal), para instauração de competentes sindicâncias administrativas, para as devidas apurações e devida responsabilização. “A Guarda não se opõe à qualquer forma de arte, apenas exerce o seu papel na Segurança Pública”, conclui o comandante.