Intervenção municipal no Hospital Anchieta completa 28 anos

Hospital psiquiátrico santista conhecido como ‘Casa dos Horrores’ foi denunciado por maus tratos e superlotação

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15 MAI 2017Por Rafaella Martinez12h00
Construído em uma área de aproximadamente cinco mil metros quadrados, o local despertava pavor nos moradores do entorno da Rua São PauloFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Há aproximadamente 30 anos, ficavam detidas em uma pequena sala anexa aos Distritos Policiais de Santos as pessoas que aguardavam uma vaga na Casa de Saúde Anchieta, hospital psiquiátrico que recebia aporte do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para manter mais de 500 pacientes psiquiátricos em dependências que comportavam no máximo 300. O método de encarcerar em um ambiente inapropriado pessoas com transtornos mentais era uma das facetas da forma como era trabalhada a Saúde Mental no Brasil antes da reforma psiquiátrica que teve início justamente no manicômio conhecido com ‘Casa dos Horrores’.

Construído em uma área de aproximadamente cinco mil metros quadrados, o local despertava pavor nos moradores do entorno da Rua São Paulo, na Vila Belmiro. Não é raro, ainda hoje, encontrar pessoas que narram o medo que era passar por aquele trecho de Santos na década de 80, onde o silêncio noturno era interrompido por gritos dos internos: pessoas com deficiência, esquizofrênicas ou alcoólatras internadas - na maior parte das vezes de forma compulsória - naquele que foi construído com o objetivo de ser o hospício mais moderno da América do Sul.

Na manhã do dia 3 de maio de 1989, após as denúncias de mortes violentas no hospital entre os meses de fevereiro e abril, a então prefeita de Santos, Telma de Souza, ao lado do secretário de Saúde do município David Capistrano Filho e representantes da plenária dos trabalhadores de saúde mental decretaram a intervenção municipal na equipamento de Saúde Mental. 

Segurando uma foto antiga onde discursa na Organização das Nações Unidas, a hoje vereadora Telma relembra dos dias que antecederam a intervenção no equipamento. “Eu não podia governar uma cidade que tinha aquela chaga. Era como se ninguém ligasse para o Anchieta, pois ali eram despejadas as pessoas consideradas ‘problemáticas’. Ninguém queria levantar o tapete e olhar o que de fato acontecia lá dentro. A nossa equipe era pequena, difusa e diferente. Mas precisávamos fazer algo e fizemos”, comenta.

É Telma quem nos acompanha em uma visita ao imóvel que hoje ainda levanta o debate sobre as questões sociais em Santos: atualmente, cerca de 240 pessoas vivem no terreno particular cuja desocupação foi determinada pela 1ª Vara do Trabalho do município em março. Uma liminar suspendeu a desocupação e o processo ainda corre na justiça.

Embora o espaço tenha sofrido algumas mudanças estruturais pelos atuais moradores ao longo dos anos, ainda é possível vislumbrar no edifício as celas, as solitárias e o pátio de recreação. Em um cômodo, ao lado da biblioteca comunitária erguida para as crianças que moram no Anchieta, é possível ver uma cela de isolamento de pouco mais de 1,5 metro por 1 metro com uma pequena janela: o ‘chiqueirinho’, local onde eram depositados os internos que desobedeciam as ordens do espaço. 

Com as declarações de internação em mãos, Gilberto de Jesus relembra das quatro passagens que teve pelo espaço na década de 80 causadas por ‘distúrbios neuro-psíquicos’, conforme atesta os papéis. Ex-funcionário do Porto de Santos, ele conta que muitas pessoas chegavam ao local após ingerirem bebidas alcoólicas - a criação de um pronto-socorro psiquiátrico do Estado para o tratamento da fase aguda do alcoolismo na Baixada aconteceu apenas em 1985. Antes disso, todos os pacientes eram encaminhados para o Anchieta.

“Eu ficava bem e me livrava dos remédios fortes escondendo embaixo da língua. Mas eu lembro que os demais internos ficavam desesperados pela medicação, a ponto de fazer filas para receber uma quantidade maior. Era como se fosse um veneno ‘bom’, que ajudava a fugir da realidade. Justamente por não tomar, eu quase surtei”, conta o ex-interno, acrescentando que tinha medo de não seguir as regras do espaço. “Eu obedecia para não ser punido. Quem não se comportava ia para o chiqueirinho ou para o choque. Eu vi bastante gente que tinha levado choque, gente sem roupa, gente que precisava fazer as necessidades no chão e fazer as refeições no mesmo lugar. Era um inferno”, conta.

O jornalista Jorge Viana foi internado no Anchieta em 1988. Sem um diagnóstico conclusivo, o laudo do hospital apontou uma ‘psicose’. “Fiquei dois dias e foi tempo suficiente para sentir a angústia de estar em um presídio. Os profissionais de saúde passavam e sequer olhavam para as pessoas. Celas superlotadas, pessoas jogadas no chão sem tratamento. Era um depósito de carne humana. O Anchieta foi útil para excluir os pacientes em sofrimento mental do meio social. Para os pacientes em si ele contribuiu muito pouco”.

A fala dos ex-internos condiz com os poucos registros gravados em vídeo sobre as condições insalubres e de violência nas quais eram submetidos os pacientes do Anchieta. Nas imagens, os internos mostram hematomas e denunciam maus tratos por parte dos funcionários do hospital. Doze celas fortes eram destinadas para aqueles que desobedeciam as regras do espaço. As denúncias também se aplicavam ao uso desmedido de eletrochoques e medicação desproporcional. 

Na visão de Telma de Souza a intervenção municipal no espaço, embora questionada por alguns seguimentos da sociedade até os dias atuais, foi uma ação devidamente embasada e assertiva. “Tínhamos convicção que nosso dever primordial era agir em qualquer cenário que colocasse em risco a integridade de qualquer segmento da população da Cidade. O resultado desse ato se tornou parte tanto da história das pessoas envolvidas no trabalho quanto da história da cidade de Santos, que se tornou pioneira na luta antimanicomial”, finaliza.