Índice de rejeitos explode em cooperativa de recicláveis de Santos

Pouco mais de dois anos de implantação da lei, a Comares tem recebido materiais que não são recicláveis

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23 SET 2019Por Vanessa Pimentel08h26
A população tem sua parcela de culpa quando descarta como lixo reciclável produtos não recicláveis, como roupas e colchõesFoto: RODRIGO MONTALDI/ARQUIVO DIÁRIO DO LITORAL

Pouco mais de dois anos de implantação da Lei Recicla Santos, a Usina de Triagem de Lixo Reciclável, administrada pela Cooperativa de Materiais Recicláveis Santista (Comares), na Alemoa, tem registrado aumentos consecutivos no índice de rejeitos, ou seja, o que não pode ser reciclado.

Só em junho deste ano, 63% de tudo que foi recolhido pela coleta seletiva, depois de triado, eram, na verdade, não recicláveis - sendo destinado ao aterro Sítio das Neves.

A situação tem sido acompanhada pelo vereador Sadao Nakai (PSDB), que no início deste mês protocolou um requerimento na Câmara questionando a explosão no índice de rejeitos do que é enviado à Comares.

Em outro questionamento, feito no semestre passado, o vereador quis saber os volumes recolhidos de recicláveis e de rejeitos em 2016, 2017 e 2018. Em resposta, obteve um relatório da secretaria de Meio Ambiente confirmando que, desde 2016, o rejeito vem aumentando ano após ano.

Antes da lei, em 2016, das mais de 3 mil toneladas coletadas no ano pela coleta seletiva, quase duas (1.940,62 toneladas) eram rejeito.

Com a sanção, em 2017, as toneladas coletadas pelo serviço chegaram a 4.562,58 T, mas junto com elas aumentaram os rejeitos, que contabilizaram mais de 2 mil toneladas.

No ano passado, a montanha de rejeito chegou a 2,8 toneladas até novembro, antes da temporada, época que a cidade aumenta a produção de lixo.

"Ano após ano, praticamente metade do que se coleta no programa municipal acaba sendo destinado ao aterro sanitário", alertou o vereador, que se diz preocupado também com a situação do Sítio das Neves.

O aterro está próximo do fim de sua vida útil, que chegou a ser cogitada para este ano. Mas, após a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) consentir uma área a mais de 40 mil metros quadrados, a capacidade de receber resíduos foi estendida até 2021.

"Fui visitar a cooperativa e percebi que os rejeitos aumentaram porque tem muita coisa que as pessoas acham que é reciclável, mas não é. Essa confusão acontece também porque as empresas responsáveis pela produção dessas embalagens ainda não se adequaram à logística reversa", diz Sadao.

Desde que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS)- Lei 12.305/10 - foi sancionada, passou a ser obrigação da indústria recolher o que coloca no mercado. É a chamada logística reversa.

Neste processo, os produtores de embalagens e produtos que não encontram compradores no mercado da reciclagem ou não podem ser reciclados, são obrigados a oferecer postos de devolução para destinação correta, mas até o momento grande parte da indústria ainda não se adequou.

Segundo o vereador, o poder público tem feito a sua parte pressionando as empresas através de acordos setoriais - contrato firmado entre as partes com objetivo de implantar a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida do produto.

POPULAÇÃO X INDÚSTRIA.

Sérgio Gomes, diretor administrativo da Comares, explicou que a parcela de culpa da população vem do descarte irregular de produtos não recicláveis, como roupas e colchões.

Já a indústria continua colocando no mercado embalagens descritas como recicláveis no rótulo, mas que na prática não têm destinação por meio da reciclagem.

"Por exemplo, garrafas de leite com a parte interna escura não têm mercado, mas a empresa fabricante informa no rótulo que elas são recicláveis, isso confunde as pessoas", diz.

Em uma reportagem do Diário, em 2017, o problema já tinha sido denunciado por cooperados da região.

Na época, fardos de embalagens de salgadinhos, café e garrafas plásticas de leite estavam paradas nas cooperativas porque não havia compradores devido ao tipo de plástico que as compõe.

No caso dos pacotes, separar a parte metalizada interna do plástico externo encarece o processo de limpeza pós descarte e afasta os compradores.

Quanto às garrafas de leite, a película escura interna ajuda a conservar o leite, mas prejudica o processo de reciclagem.

"Enquanto as empresas não se responsabilizarem por um processo cíclico para o que produzem, os aterros vão continuar sobrecarregados, e a população pagando imposto por um serviço de coleta que, na verdade, quem deveria arcar é a indústria", diz Sérgio.

VETO.

Há cerca de quatro meses, a Comares não tem mais acesso ao ticket de pesagem dos caminhões da Terracom que levam para o aterro os rejeitos da coleta seletiva.

Questionado sobre o veto, o secretário de Meio Ambiente de Santos Marcos Libório, informou que não há, por contrato, obrigação de passar esses dados para a cooperativa e que a mudança foi uma medida de gestão. Ressaltou, porém, que essas informações são públicas e podem ser consultadas com a Terracom e com a própria prefeitura.

Quanto aos altos índices de rejeitos registrados na cidade, e que até então eram divulgados pela cooperativa, Libório explicou que a Lei Recicla Santos ainda é nova e a população está se adaptando.

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