Dragagem: impactos à pesca e ecossistema marinho são imensos

Pescadores revelam morte de peixes, doenças de pele e perda de material de pesca. Prejuízos ambientais insustentáveis

Divididos em mesas de discussão, pescadores (as) fizeram um trabalho importante que está nas mãos dos ministérios públicos

Divididos em mesas de discussão, pescadores (as) fizeram um trabalho importante que está nas mãos dos ministérios públicos | Divulgação

Relatório intitulado Lama e Caos – Os Prejuízos à Pesca Artesanal, encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF) e o Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (Gaema) Baixada Santista, do Ministério Público Estadual (MP-SP), elaborado pelo Instituto de Pesca, através do Projeto Valoriza Pesca, e em parceria com a Área de Proteção Ambiental (APA) Marinha Litoral Centro, é revelador em relação aos impactos da lama da dragagem à pesca e ao ecossistema marinho da Baixada.

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Os estudos que geraram o documento foram baseados, entre outras coisas, na experiência dos pescadores (as) de 23 localidades que, divididos em quatro mesas de discussão, apontaram situações alarmantes na área da saúde física e mental; a qualidade do pescado; petrechos, embarcações e áreas de pesca afetadas.

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Está se pescando muito menos, pois os efeitos cumulativos: da lama, do esgoto na Baía de Santos e emissário muito próximo à costa contribuem para a diminuição do peixe e influencia diretamente na ausência de safra de camarão branco e de outras espécies de peixes da região.

“Antes, pescava-se 100 quilos de tainha por semana. Hoje, pesca-se 100 quilos em um mês. O cavalo-marinho desapareceu. O camarão branco está sumindo. Os mariscos estão menores e a qualidade caiu. Algumas espécies como tainha, sororoca, anchova, robalo guaivira, camarão e siri do estuário sumiram da região. Diminuiu o robalo flecha e perva, cação-martelo, siri, bico de prata, unha de gato, bico de ouro, bagre, pescada amarela e amboré. Caiu uns 70% a quantidade de siri e camarão no estuário e a lama está prejudicando a criação das ostras”, apontam pescadores (as).

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Entre outras observações não menos importantes, os trabalhadores alertam a presença de muitos meros mortos pela falta de oxigênio e camarões soterrados pela lama. “O paredão de lama faz os peixes fugirem, impede a migração. A dragagem trabalha os sedimentos e esse material é depositado novamente, tornando alguns locais mais rasos provocando a migração de espécies. Os peixes procuram águas limpas”, explicam.

SAÚDE DAS PESSOAS.

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Segundo apurado, o passivo das dragagens no canal do Porto de Santos não só prejudica a vida marinha, mas também a dos pescadores. Doenças de pele; irritação e coceira que piora quando tem lama suspensa e gordurosa. Eles citam situações em São Vicente, Guarujá, Praia Grande, Santos e ferimentos altamente contagiosos se espalhando para outras cidades.

Bolhas nos pés que estouram e viram feridas com pus, muita coceira no local e se espalha com o contato. Praticamente todos os pescadores estão com o mesmo problema. A irritação atinge membros inferiores e parecem sarna, que aumenta no verão, devido ao calor porque o pescador trabalha sem capa. Alguns chegaram a ter feridas, erupções e infecções.

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“Cortes que entram em contato com a lama demoram para fechar. Coça muito, mesmo após o banho. O mau cheiro dá náusea. Familiares passam mal após ingerir caranguejo. Também há ardência nos olhos, no nariz e inflamação nos ouvidos”, contam, alertando que, além da questão física, a saúde mental do pescador (a) é afetada por conta das dificuldades de sustento.

RISCOS.

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A lama afeta os petrechos, as embarcações e áreas de pesca. O deslocamento do trabalhador para conseguir o sustento aumenta. Os pescadores pescam muito longe, tornando vulneráveis as condições ambientais ampliando os riscos de acidentes.

As embarcações acabam ficando inadequadas para determinadas distâncias e a fiscalização praticamente impede o trabalho já bastante escasso porque o pescador é obrigado a pescar em outras áreas, em que a documentação da embarcação não permite, além do gasto com combustível.

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A lama impregna na rede e é difícil sua remoção. São sucessivas lavagens e com o cuidado de não utilizar água tratada com cloro, que danifica o material. A lama de bloco rasga a rede. Os tubos da draga prejudicam a rede. A rede de espera tem que ser retirada em partes devido ao peso agregado da lama e esse processo é feito em duas viagens ou mais gerando custo, tempo de pesca e reparo da rede cortada.

Os trabalhadores garantem que a rede deteriora mais rápido. Uma rede que tem investimento médio entre R$ 10 e 12 mil, e durava três anos, hoje dura seis meses. “A lavagem da rede é trabalhosa devido aos briozoários. Alguns têm de ser retirados manualmente pois enroscam na trama. Além disso, a lama não sai facilmente. Tem que passar por um processo de secagem no sol para facilitar a retirada e esse processo de limpeza custa de dois a três dias de trabalho do pescador”, explicam no relatório.

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MEIO QUILÔMETRO.

O documento ainda relata que a lama fica aproximadamente a 500 metros da zona de arrebentação, comprometendo o arrasto de praia. Os pescadores fazem o arrastão com 300 metros de distância da praia para evitar a área de acúmulo de lama. As áreas de berçário têm sido prejudicadas e/ou não existem mais: mudanças no ecossistema.

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Especificamente no Estuário, não só o descarte da dragagem em alto-mar afeta devido às correntes, mas indicam que o processo de sucção das dragas colabora com a suspensão da lama. A Ilha dos Bagres – “Pulmão do Estuário” – área rica em cioba, tainha, robalo e camarão branco está ameaçada. O descarte da draga ocorre em área de pesca e a corrente e o vento potencializam os efeitos.

Alertam que problemas econômicos no que diz respeito a comercialização do que é pescado são comuns. “Muitos turistas ouvem falar da contaminação e não querem consumir peixes de determinadas regiões. Não se vende ostra do canal. Quem é mais afetado é o pescador da costeira e estuário que não tem como sair para fora, para águas mais limpas”.