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PATRIMÔNIO

Cenário de Calixto e pioneira do Porto, Casa de Pedra vai ser 'desmontada'

Construção em blocos maciços de granito no Paquetá será remontada em outro local, mais próximo da Alfândega, preservando suas características originais

Nilson Regalado

Publicado em 13/04/2024 às 07:06

Atualizado em 14/04/2024 às 12:06

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Construção faz parte da história de Santos / Isabella Fernandes/ Diário do Litoral

É certo que os cenários retratados por Benedito Calixto mudaram significativamente desde que foram eternizados em óleo sobre tela pelo gênio, nascido em Conceição de Itanhaém no longínquo ano de 1853. E uma das poucas paisagens originais da Santos do século 19 que restavam está sendo demolida. Na verdade, o termo técnico é "desmontagem". Erguida em 1897 e imortalizada por Calixto na obra 'Porto de Santos em 1922', a antiga "Casa de Machinas nº 2" vai ser completamente desmontada e transferida do Paquetá para outra área, mais próxima do Centro. Mesmo destino terá o Armazém 7, que está em ruínas, mas que durante décadas abrigou uma unidade do Comando da Aeronáutica, usada para o transbordo de pessoal até a Base Aérea de Santos, do outro lado do Canal do Estuário.

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Patrimônio histórico tombado e um dos símbolos da antiga Companhia Docas de Santos, a Casa de Pedra e o Armazém 7 darão espaço a uma nova linha de trens e a um pátio de manobras, que serão construídos no local pela Cofco. A empresa é a maior produtora de alimentos da China. E a "desmontagem técnica" foi autorizada pelos órgãos de proteção ao patrimônio histórico no final de março.

Para dar lugar à terceira linha férrea naquele trecho e ao pátio de manobras, serão removidos mais de 400 blocos de granito maciço com pesos que variam de 120 quilos até meia tonelada. Os destaques são os 37 grandes módulos de rocha que formam o embasamento da atual construção, além de outros 15 conjuntos de esquadrias de portas e janelas, e outras seis a oito vigas maciças. 

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Na prática, a Casa de Pedra será transferida para uma nova área, 70 metros distante do sítio atual, em direção ao prédio da Alfândega. O novo prédio, feito com as velhas rochas e respeitando os detalhes arquitetônicos originais, ficará ainda mais perto do mar, 12 metros mais próximo da linha d´água. Remontá-la será como unir as peças de um jogo infantil de lego.

Com a remoção e posterior reconstrução, a Casa de Pedra do Paquetá será integrada, futuramente, ao Parque do Valongo, em sua segunda fase de implantação. Mas, naturalmente que não será possível reproduzir 100% dos materiais construtivos utilizados no final do século 19.

Porém, o trabalho será pautado por regras estabelecidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat) e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa).

Responsável pela execução da "desmontagem técnica", o arquiteto e urbanista Gustavo de Araújo Nunes garante que todas as características da construção original serão preservadas. "Sabemos que essa é uma construção emblemática do Porto, do tempo da família Guinle. O Porto nasceu ali. Todo o trabalho está sendo executado conforme rígido regramento estabelecido pelo IPHAN e pelo Condephaat", resume o arquiteto e urbanista.

Nunes foi escolhido para a tarefa por já ter desmontado e transferido o Armazém 12 A do Paquetá para as proximidades do Valongo, há 14 anos. "Estamos tendo o rigor de preservar todos os blocos de granito natural, as esquadrias e as ombreiras em seus formatos originais. Todas as peças foram registradas, cadastradas, catalogadas...", completa o arquiteto e urbanista.

Nunes também afirma que não havia possibilidade de instalação do pátio de manobras e da terceira via férrea naquele trecho do Cais sem o deslocamento das duas construções: "É impossível, teria que avançar para cima do arruamento da Cidade (Rua Xavier da Silveira)".

O projeto de desmontagem é de autoria do arquiteto santista Gino Caldatto Barbosa, especialista em restauração do patrimônio cultural pela Universitat Politécnica de Catalunya, em Barcelona, e pela Universitá La Sapienza, em Roma.

CHAMINÉ

Como parte da compensação pela remoção e transferência das duas edificações a empresa chinesa se dispôs a incluir na reconstrução da Casa de Pedra um detalhe arquitetônico que foi erguido no final do século 19, mas acabou demolido já no século 20.

O "torreão", como foi batizada a chaminé da antiga "Casa de Machinas nº 2", tinha 17,5 metros de altura e quatro metros quadrados na base. E será completamente recomposto, resgatando as características do conjunto arquitetônico.

Antes de começar os serviços, foram elaboradas seis plantas com o detalhamento de cada item da Casa de Pedra: "Vamos requalificar essas construções. E, depois da conclusão, esse conjunto arquitetônico terá um uso digno", conclui Gustavo Nunes.

Os trabalhos na área entre o mar e a Rua Xavier da Silveira devem durar mais 14 meses. 

O Diário do Litoral procurou o Escritório do Patrimônio da Baixada Santista, mantido pelo IPHAN na Estação do Valongo. Mas, não havia nenhum servidor do órgão federal no local na última sexta-feira. 

Mais que um prédio

Mais do que um patrimônio de inegável relevância arquitetônica e histórica, a Casa de Pedra é uma referência afetiva no imaginário de todos que, um dia, ganharam seu sustento no Porto de Santos. O prédio fica na antiga Rua da Praia, onde a Avenida Conselheiro Nébias volta a encontrar o mar, depois de 'rasgar' a Cidade do Boqueirão ao Paquetá. O imóvel foi erguido em 1897 apenas nove anos após a empresa Gaffrée Guinle & Cia vencer a licitação promovida pelo imperador D. Pedro II para operar exportações e importações a partir de Santos. Portanto, o imóvel foi um dos primeiros a serem erguidos pela Companhia Docas de Santos, que deteve o monopólio das operações até 1980. Não é exagero dizer que a Casa de Pedra foi o motor que ajudou a construir o Porto, gerando e fornecendo energia à vapor para máquinas e equipamentos.

Nem a Autoridade Portuária de Santos (APS) sabe ao certo até quando a "Casa das Machinas nº 2" foi a força motriz do cais santista porque, mesmo após a inauguração da Usina Hidrelétrica de Itatinga, em 1910, o imóvel continuou operacional durante décadas.

Mas, a APS admite que após o fim da Companhia Docas de Santos e a transferência das operações para a Companhia Docas do Estado (Codesp), em 1980, a Casa de Pedra acabou desprezada.

"Sabe-se que toda a região do Valongo e Paquetá passou a ser menos utilizada, principalmente a partir da década de 1980, quando a dragagem daquela região já se apresentava inviável operacionalmente, também frente aos tamanhos das novas frotas de navios", resumiu, em nota, a Superintendência de Comunicação Corporativa da APS.

Educação

As intervenções no trecho de cais do Paquetá estão inseridas no pacote de obras que transformará toda a região entre os armazéns 1 e 8 para criação do Parque Valongo. Os detalhes e limites foram alinhados em um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre o Ministério Público do Estado (MP-SP), a Autoridade Portuária de Santos (APS), a Prefeitura e o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa). E o documento estabelece que, depois de reerguidos, tanto a Casa de Pedra II quanto o Armazém 7 deverão ser destinados a atividades relacionadas à tecnologia, à educação e à pesquisa.

O TAC foi assinado em 14 de março de 2023, sob a tutela do promotor de justiça Carlos Cabral Cabrera, com atribuições na área de Habitação, Urbanismo e Meio Ambiente na Comarca de Santos. O documento integra ações prévias à instalação do novo Terminal STS 11, da arrendatária Cofco e tem a eficácia de um título executivo extrajudicial, após arquivamento do inquérito civil que motivou o TAC.

Os compromissos foram firmados em conjunto pelo prefeito Rogério Santos, pelo então diretor-presidente da Autoridade Portuária, Marcus dos Santos Mingoni, e pelo presidente do Condepasa, engenheiro Marcio Borchia Nacif.

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