Artigo – De coragem, elefantes e o Porto 130

O conceito de um porto é referido não apenas pelas suas características geográficas, instalações e equipamentos, mas pelos seus resultados de movimentação e segurança, num aspecto global

Começamos pela história, em outro tempo e lugar. Na Roma antiga, dois séculos antes desta era cristã, Catão, em discursos no senado romano bradava ”Delenda Carthago”, “Destruir Cartago”, o império arqui-inimigo.  Mas, do outro lado, o general africano Aníbal, cruzou o Mediterrâneo comandando 40 mil soldados e 40 elefantes de guerra, seguindo pela Espanha, França até cruzar os Alpes e, vindo do Norte, alcançar as hostes romanas, impondo pesadas derrotas. Essa a lição do que parecia impossível.

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Neste nosso espaço de terra, em área privilegiada de águas abrigadas, desde as primeiras ocupações há quase 500 anos desenvolveu-se a recepção de embarcações, desde o chamado Porto das Naus até o acesso pelo Estuário no contorno da Ilha de São Vicente. 

Mas, se por um lado havia a aptidão natural para as atracações, defrontava-se a ocupação interior com a formidável barreira do contraforte do planalto, alto de 800m, com densa Mata Atlântica que copiosa chuva e intenso calor traduz em umidade e dificuldades diversas. Como promover o crescimento? Afinal, a Vila de São Paulo em meados do século XIX teria cerca de vinte mil habitantes. E uma incipiente produção agrícola vinha do interior em tropas de semoventes por caminhos precários. 

Eis que, a capacidade de enfrentar desafios se apresenta na construção da ferrovia, ainda nos tempos do Império e inauguração em 1867 da Inglesa São Paulo Railway com seu sistema funicular auxiliando a tração na subida e retendo a composição na descida.  A disponibilidade da ferrovia foi o divisor de água do desenvolvimento. A irradiação por outras linhas para o interior desenvolveu novas vilas e atuais cidades, impulsionando a pujante economia. 

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Com a mudança do poder imperial para a República, chega-se ao ponto de partida de uma nova era para o porto. A iniciativa privada foi chamada a instalar o porto organizado, com atracadouros em cantaria e armazéns amplos e espaçosos, iniciando em 1890, no Valongo e seguindo ao longo do Estuário. Fez a curva em Outeirinhos na virada do século XX, desmontando dois morrotes que foram usados para aterrar uma ampla esplanada, dando lugar a armazéns, ruas e linhas férreas sempre crescentes. 

A utilização do vapor como fonte de energia e movimento estava em mudança, para utilizar a eletricidade nos equipamentos e instalações. Outro desafio que a capacidade de um corpo de engenheiros com a visão extraordinária de Guilherme Weinschenk, com a inauguração da hidroelétrica de Itatinga em 1910, permitindo a utilização de guindastes elétricos. Para a cidade, a possibilidade de iluminação e outras, inclusive aposentando os bondes de tração animal.

Dai para frente, só crescimento e desenvolvimento, com o porto e a ferrovia tornando-se elementos decisivos para o progresso nacional. Segue-se num crescente de ampliação com a instalação da margem esquerda. Em 1981, encerra-se o ciclo da gestão e operação privada, assumindo a administração estatal. Que repassou a operação para terminais em áreas concedidas, na realidade da mudança decorrente da revolução dos contêineres, que transformou não apenas os navios e as operações, mas o próprio trade mundial de circulação das mercadorias. 

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Avança-se neste novo século na era da automação. A substituição da mão de obra, principalmente nas tarefas penosas e arriscadas, fez cair drasticamente os índices de ocorrência e gravidade de acidentes. O conceito de um porto é referido não apenas pelas suas características geográficas, instalações e equipamentos, mas pelos seus resultados de movimentação e segurança, num aspecto global. A automação intensiva já é realidade em portos do mundo, nas atracações, na operação remota de gigantescos portêineres, nos veículos e equipamentos autoguiados. 

O que antes era a azáfama das fainas portuárias com mais de 10 mil portuários circulando no cais entre caixas, atados e lingadas, trens e caminhões, hoje se traduz em espaço restrito, onde a presença de poucos trabalhadores é admitida exclusivamente para deslocamento em trilhas marcadas. Ressalte-se que a contribuição do trabalhador portuário, experiente e dedicado segue indispensável ao desenvolvimento, parceiro dos empresários na relação capital-trabalho.

Ainda há muito a avançar, mas as características e diversidade das operações exigem o melhor da capacidade técnica e gerencial. Veja-se que apenas um veículo combinado transporta cerca de 40 toneladas de carga e seu peso total atinge 70 t. O que falar de trens gigantescos, locomotivas de 180 t e alta tecnologia tracionando composições de 120 vagões cada um superando as 100 t? Comparável ao peso de diversos elefantes da tropa da manada de guerra de Aníbal.

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Como avançar de agora para o futuro? Este o desafio que ainda não está totalmente codificado. Voltar a ter uma administração privada gerenciando um conjunto formidável de terminais de características diversas para cargas de granéis sólidos e líquidos, contêineres, carga geral e de projeto, veículos e celulose, é possibilidade a conferir, já que o Porto é patrimônio do povo brasileiro.

Ampliar o porto para a zona oceânica exterior ou para montante, na zona continental, longe de áreas povoadas? Com riscos diferentes em um planejamento uniforme focado no desenvolvimento sustentado. Respeitar e ouvir a população das cidades que dependem do porto e dele se orgulham. Nestes 130 anos de Porto de Santos, preparar-se para a batalha a vencer, que requer a genialidade aliada à inovação.  

* Aureo Emanuel Pasqualeto Figueiredo, engenheiro e professor. Diretor da Unisanta. Diretor de Portos da AEAS. Atua no Porto desde 1970.