Em 1961, apostar em comida árabe na cidade de Santos era algo fora do comum. / Isabella Fernandes/DL
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Em 1961, apostar em comida árabe na cidade de Santos era algo fora do comum. A cidade praiana, acostumada à culinária caiçara, ainda não havia experimentado o sabor de um kibe cru, uma coalhada seca ou uma esfiha. Mas, para Elias Bakhos, aquela era a oportunidade perfeita de negócio.
Assim nasceu o restaurante Beduíno, há seis décadas pioneiro na gastronomia árabe e um dos estabelecimentos mais tradicionais da cidade.
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Mas essa história começa muito antes, ainda em 1947, quando o patriarca da família Bakhos desembarcou no Brasil em um navio cargueiro, vindo clandestinamente de Damasco com a esposa e os quatro filhos, entre eles Elias, então com apenas sete anos.
Em Santos, o pai de Elias começou trabalhando como cozinheiro em uma pensão, enquanto ele entregava marmitas pelas ruas, aprendendo português e se inserindo na nova vida. Pouco tempo depois, a família assumiu a gestão da pensão e, mais tarde, adquiriu um hotel na Avenida Presidente Wilson.
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Mesmo trabalhando com a família, Elias desejava construir algo totalmente dele. Queria se afastar da sombra do pai e provar que podia vencer por conta própria. Em 24 de março de 1961, abriu o Beduíno na Avenida Presidente Wilson, 48, onde hoje se encontra a gelateria Borelli. O primeiro restaurante árabe de Santos servia esfiha, beirute, kibe e outros pratos até então desconhecidos da maior parte da população santista.
A ousadia logo se tornaria sua marca registrada. Elias sempre escolhia o caminho diferente, criativo e inesperado.
“O meu pai era único. Sempre optou pelo diferente. Ele não servia azeitona como todo mundo. Ele queria temperar, apresentar de outro jeito. Nada podia ser igual”, relembra Paulo Bakhos, 48 anos, atual gestor do Beduíno.
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Anos depois, em 1967, a trajetória de Elias tomou um rumo inesperado. O Beduíno, aberto com um sócio investidor, não estava sob controle total da família. Como o contrato e o nome pertenciam ao investidor, Elias não tinha poder sobre decisões administrativas.
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Quando o sócio decidiu encerrar as atividades, o restaurante foi fechado e ele perdeu o direito de usar o nome Beduíno.
Sem poder reabrir o próprio negócio, Elias precisou recomeçar. Foi assim que nasceu o Kash Kash, na Rua Amador Bueno, batizado em referência ao palhaço que alegrava os sultões árabes, conhecido pelo som dos guizos que carregava.
Entre 1967 e 1972, ele operou exclusivamente o Kash Kash, que se destacou ao introduzir o primeiro buffet self-service de Santos, reforçando novamente o espírito pioneiro que sempre marcou sua trajetória.
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Em 1972, Elias finalmente conseguiu recuperar o nome Beduíno e reabriu o restaurante na Rua Floriano Peixoto, onde a marca se consolidou de vez e ganhou força para crescer. A partir dali, começou um novo capítulo, marcado por expansão e inovação.
Nos anos seguintes, vieram novas unidades e formatos de atendimento que ajudaram a transformar o Beduíno em referência na gastronomia árabe da região.
Em 1979, foi criada a central de produção na Avenida Presidente Wilson, responsável por abastecer as lojas. Em 1989, o restaurante chegou ao Shopping Miramar, com o primeiro Beduíno por quilo. Já em 2014/2015, a família inaugurou uma nova unidade no Shopping Balneário.
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Ao longo da trajetória, a família Bakhos foi o alicerce do negócio. A mãe, Mirian Bakhos, criou vários pratos que marcaram o buffet. E Elias, com sua visão ousada e capacidade de sair do óbvio, permaneceu como o coração do Beduíno até seus últimos dias.
Ainda criança, Paulo, a irmã Vívian, 53 anos, e a caçula Lilian, 44, cresceram dentro do Beduíno.
Entre fritadeiras e balcões, ele aprendeu a rotina do restaurante antes mesmo de entender seu tamanho. Passava os dias andando pela lanchonete, ajudando como podia, observando o movimento e transformando o espaço em seu próprio quintal.
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Quando não estava ajudando o pai, jogava bola com uma cebola embrulhada em papel alumínio pelos corredores.
Hoje, o Beduíno funciona em dois endereços: na Avenida Ana Costa e no Shopping Parque Balneário. As unidades contam com cerca de 70 funcionários e mantêm o modelo de buffet por quilo, além da opção de comer à vontade por preço fixo.
O cardápio segue fiel às tradições da casa, com beirutes, kibes, esfihas, pratos árabes clássicos e uma operação de delivery que atende toda a cidade.
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Em 2024, a morte de Elias foi uma perda para a família e para a cidade de Santos. Mas, no salão do Beduíno, o atendimento não podia parar. O trabalho seguiu, sustentado pela equipe e pela família, que transformaram a saudade em força para manter vivo o legado que ele deixou.
“Aqui é um lugar de alegria. A dor fica dentro da gente, mas não chega ao cliente”, conta Paulo.
E esse cuidado se reflete na relação com o público. No Beduíno, há quem abrace funcionários, quem entre na cozinha para cumprimentar, quem apresente filhos e netos. Há clientes de três gerações que falam da casa como parte da família.
“Nosso maior patrimônio não é o ponto físico, é o cliente. O cliente que sente bem-querer, que volta, que avisa quando algo não vai bem, que tem carinho pela casa. Esse é o legado que meu pai deixou”, afirma Paulo.