Temer diz que ser presidente é 'estar sujeito a bombardeios a todo momento'

O presidente reagiu, em Vitória, às perguntas da reportagem sobre a prisão de aliados nesta quinta-feira (29)

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30 MAR 2018Por Folhapress04h30
Em seu discurso, Temer também ignorou a operação da Polícia FederalFoto: Divulgação/Fotos Públicas

Michel Temer (MDB) disse ser "um trabalho dificílimo" estar na Presidência. "É uma coisa que você fica sujeita a bombardeios a todo momento, mas tenho a felicidade de ter chegado até aqui", se referindo a ter feito um governo "não de quatro ou oito anos", mas de "um ano e 11 meses".

Com silêncio e um leve sorriso, o presidente reagiu, em Vitória, às perguntas da reportagem sobre a prisão de aliados nesta quinta-feira (29) pela Operação Skala da Polícia Federal.

Após a inauguração do novo aeroporto da capital capixaba, enquanto conversava com políticos e posava para fotos, o presidente foi questionado sobre a operação e se havia sido informado previamente dela. Ignorou até ser retirado do palco por seguranças.

Enquanto isso, do lado de fora do aeroporto, Temer enfrentou protestos. O boneco de um "vampirão" de dois metros de altura, armado com um fuzil, foi queimado por manifestantes. Faixas contra o governo foram colocadas no saguão do novo aeroporto.

No início da manhã desta quinta-feira (29) foram presos o empresário e advogado José Yunes, o coronel João Batista Lima Filho, o ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi (MDB) -todos entre os principais aliados de Temer- e o empresário Antônio Celso Grecco, dono da Rodrimar, empresa que atua no Porto de Santos.

As detenções foram autorizadas pelo ministro Luis Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), relator do inquérito que investiga Temer por suposto recebimento de propina em troca de benefícios a empresas do setor portuário via decreto.

Líder da maioria na Câmara dos Deputados, o deputado Lelo Coimbra (MDB), que viajou para Vitória no mesmo avião de Temer, disse que o presidente não tocou no assunto das prisões dos aliados e "estava tranquilo".

Em seu discurso, Temer também ignorou a operação da Polícia Federal. Preferiu autoelogiar o mandato. Disse que seu governo transmite "segurança para o mercado" e que "as pessoas passaram a ter um padrão de vida melhor".

"Vai precisar muito malabarismo eleitoral por parte de quem quiser criticar o governo (nas eleições). Porque, para criticar, tem que ser contra o teto de gastos públicos, a reforma do ensino médio, a queda da inflação e da taxa de juros", disse.

Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD) defendeu ações do governo e que a entrega do aeroporto é um exemplo do crescimento da economia. "Estamos empenhados em modernizar o país. O Brasil está recuperando sua capacidade de investir e realizar". Também citou investimento no Bolsa Família.

Já o Ministro dos Transportes, Maurício Quintella, aproveitou a ocasião para anunciar sua saída da pasta já de olho no pleito de outubro.

Cerco

O Palácio do Planalto avalia que a operação da Polícia Federal desta quinta-feira representa a escalada do cerco político que asfixia o governo e uma ampliação das investigações contra Temer.

Na opinião de aliados, as prisões de integrantes de um núcleo tão próximo a Temer -somadas à quebra de sigilo bancário do presidente no início de março- podem contribuir para a montagem de um "enredo mais substancioso" que sirva de base para a apresentação de uma eventual terceira denúncia contra ele.

A operação desta quinta foi um pedido da Procuradoria-Geral da República e autorizada pelo STF (Supremo Tribunal Federal). E é justamente a PGR a responsável por apresentar denúncias contra o presidente.

Temer já conseguiu barrar o andamento de duas denúncias no ano passado -por corrupção, obstrução de Justiça e organização criminosa- mas outra batalha dessa magnitude, dizem assessores, poderia fazer minguar o seu já escasso capital político em pleno ano eleitoral.

A tese de auxiliares do presidente é de que será preciso apresentar informações muito mais concretas para dar credibilidade a uma eventual nova denúncia depois das falhas apontadas no fechamento do acordo de delação dos irmãos Batista, em 2017, do qual derivavam as principais acusações contra Temer.

O medo no Planalto é que o roteiro da PGR e do STF esteja indo por esse caminho.