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ENTREVISTA

Suplicy lança biografia e fala de admiração por Mano Brown e Martin Luther King

Em entrevista ao Diário do Litoral e à Gazeta de S. Paulo, Suplicy conta sobre sua autobiografia, defende renda básica e fala da admiração por Mano Brown, Lula e Martin Luther King Jr

Eduardo Suplicy / Ettore Chiereguini/Gazeta de S. Paulo

Aos 80 anos, completados em junho, o paulistano Eduardo Suplicy mantém o hábito de fazer exercícios físicos três vezes por semana. Além da natural importância para a saúde, o petista afirma que cuidar do corpo tem um propósito específico: “Espero viver o suficiente para ver instituída a Renda Básica de Cidadania no Brasil”.

Suplicy lança no próximo sábado (11) o livro “Um jeito de fazer política” (Editora Contracorrente), pelo qual conta como o economista criado em um dos bairros mais ricos de São Paulo despertou para a preocupação social, como se aproximou de Luiz Inácio Lula da Silva e como se tornou uma figura tão única na vida política nacional. Além, claro, de explicar como nasceu seu desejo de que todo cidadão brasileiro tivesse o direito de ter uma renda que garantisse suas necessidades básicas.

A defesa do tema, que já foi alvo de deboche de adversários, por sua convicção inesgotável na proposta há décadas, voltou com a força e a seriedade merecidas durante a pandemia da Covid-19, quando o quase colapso na saúde pública e o abre-e-fecha dos serviços e comércios aprofundaram as desigualdades sociais e fez a fome voltar a ser tema no País. Hoje, até personalidades liberais e conservadoras defendem que o projeto seja colocado em prática.

Além da busca de uma renda mínima para todo e qualquer brasileiro, Suplicy também é conhecido pela cortesia com quem trata mesmo quem não gosta das suas ideias. Um modo de se comportar que o fez ser próximo, por exemplo, de Fernando Holiday (Novo), uma das vozes mais fortes contra o PT e a esquerda na Câmara Municipal. Suplicy também é marcado pela admiração que tem pelos cantores Bob Dylan, Joan Baez e Mano Brown – esse último, com quem divide o amor pelo Santos Futebol Clube e mantém uma relação de amizade desde a década de 1990.

A sua trajetória política teve ainda momentos tensos, como quando visitou uma unidade da Febem (atual Fundação Casa) e quando foi detido por usar o corpo para evitar que famílias de um bairro da periferia de São Paulo fossem despejadas de suas casas.

Nesta entrevista ao Diário e à Gazeta – que deveria durar 45 minutos, mas chegou a quase uma hora, porque ele quis falar com mais detalhes sobre sua admiração por Martin Luther King Jr. –, o ex-deputado estadual, ex-senador e atual vereador em São Paulo explicou parte da sua trajetória com entusiasmo e uma pontinha de orgulho do que fez. E o que ainda espera fazer.

Ele só se esquivou em relação ao futuro ao ser questionado pela reportagem se será novamente ao candidato ao Senado em 2022, cargo que ocupou por 24 anos – e que será tema do próximo volume da sua biografia, a ser lançada no ano que vem. “Depende da recomendação de vocês”, respondeu, sem se estender no tema.

Veja, abaixo, os pontos mais importantes da entrevista:

Como conheceu Mano Brown

Suplicy contou que o primeiro contato que teve com os integrantes dos Racionais MCs foi em um comício do PT no Grajaú, zona sul da Capital, em 1994. Na ocasião, Lula era candidato à Presidência, José Dirceu a governador e Luiza Erundina ao Senado.

Segundo ele, os comícios normalmente atraiam cerca de 3 mil pessoas, mas naquele dia havia mais de 10 mil espectadores. Logo descobriu o motivo: “Quando eu cheguei vi nos muros: ‘Hoje no comício do PT vão cantar os Racionais’. Eu discursei, e ainda tinham uns quatro ou cinco [políticos para discursar] antes do Lula, mas o pessoal começou a falar: ‘Queremos ouvir os Racionais’. Alguns até desistiram de falar”, relembra, entre risos.

“Eu fiquei impressionado porque quando eles cantaram o povo sabia as músicas, sabia as letras. Pensei, poxa, essas canções têm muito a ver com a vida dessas pessoas. Nas reuniões do Partido dos Trabalhadores eu comentava com meus companheiros que se a gente quiser compreender bem os problemas das áreas periféricas de São Paulo seria importante ouvir as canções dos Racionais. Comecei a me interessar, e ver, assistir a diversos shows, e me tornei amigo do Mano Brown, Edi Rock, KL Jay e Ice Blue”.

Em 2003, ele foi visitar uma unidade da Febem (atual Fundação Casa), após uma diretora de Direitos Humanos da ONU ter visitado o local e ficado impressionada com as péssimas condições com que os menores eram tratados no espaço. No local, após falar da Renda Básica de Cidadania, resolveu cantar Um Homem na Estrada, dos Racionais: “Um homem na estrada recomeça a sua vida...”

“A música tem uns sete minutos, e eu lendo no meu livro a canção e eles cantaram juntos, sabiam de cor, eu fiquei impressionado. Eles me pediram: “Você não quer trazer o Mano Brown aqui?” Na semana seguinte eu voltei lá com o Mano Brown e nós conversamos com os 500 menores, no refeitório lotado, tinha gente sentado na mesa, outros embaixo das mesas, Eles pediram e o Mano Brown cantou seis canções, e eles cantavam junto. Esse episódio muito me aproximou do Mano Brown. O Mano Brown é uma pessoa muito especial”.

Admiração por Martin Luther King Jr.

Ao ser instigado pela reportagem a citar quais personalidades admira, se disse sentir “um discípulo de Mahatma Gandhi e de Martin Luther King” – ambos que, parafraseando Mano Brown em Jesus Chorou, lutavam por justiça e paz e levaram tiros.

Suplicy nunca foi alvejado, mas se deitou em frente a um pelotão da PM, que faria uma reintegração de posse no bairro João XXIII, na zona oeste da cidade, em 2016, para evitar pacificamente que centenas de famílias fossem despejadas do local de forma violenta.

“Eu fiquei muito preocupado que pudesse haver tiros e feridos, e resolvi me deitar no chão. Eis que então a oficial de Justiça falou: ‘O senhor queira se levantar’, e eu disse: ‘Sou discípulo de Mahatma Gandhi e Martin Luther King Jr, e quero aqui evitar que haja um conflito grave e feridos”, relembra.

A cena do Suplicy sendo carregado por quatro PMs para a delegacia, cada um segurando um de seus membros, se tornou viral.

Além de Gandhi e Martir Luther King Jr., Suplicy também citou entre as personalidades que admira os músicos Mano Brown e Joan Baez, Lula, o ex-prefeito Fernando Haddad e o ex-presidente norte-americano Barack Obama.

Renda Básica e justiça social

“Quero ajudar a construir um Brasil justo, civilizado, fraterno, solidário, colocando em prática aqueles instrumentos de política econômica que possam significar a elevação do grau de justiça da sociedade”, diz Suplicy, para depois citar os instrumentos que, na sua visão, podem elevar a grau de justiça social no País.

Para ele, os séculos de escravidão de negros no País ainda têm consequências gritantes nas diferenças sociais, e isso seria atenuado com uma série de instrumentos públicos para diminuir as diferenças.

“Isso poderia ser alcançado se provermos a melhor qualidade de ensino para todos os meninos e meninas, se possível em tempo integral e para os adultos que não tiveram boas oportunidades quando eram crianças, como ensinou nosso querido professor Paulo Freire. Se tivermos mais oportunidades de economia solidária, como ensinou nosso querido Paul Singer. Se houver melhor qualidade de atendimento à saúde, na cidade e no campo. Se aperfeiçoarmos os sistemas de transferência de renda, e no Brasil tem muitos benefícios: o beneficio da prestação continuada, o sistema de aposentadoria, o seguro desemprego, o salário família, o abono salarial. Até pouco tempo tínhamos o programa Bolsa Família, e agora podemos avançar na direção da Renda Básica de Cidadania. É isso que eu quis e quero ver aplicado durante a minha vida”.

Além dos muros

Suplicy cresceu nos Jardins, bairro de ricos de São Paulo até hoje, como o oitavo de 11 irmãos. Sua formação foi católica, e seus pais, Paulo Cochrane Suplicy e Filomena Matarazzo Suplicy, costumavam sugerir, nas rezas costumeiras: “Procurem ser sempre unidos, fraternos e solidários, mas é importante que esses valores sejam válidos para além dos muros de nossa casa”.

Na adolescência, ele começou a aperfeiçoar sua visão política. “Procurei saber o que era o capitalismo, o socialismo, o comunismo, o marxismo, me interessei por isso. Viajei à Europa ocidental, Europa oriental e verifiquei que era importante podermos transformar a sociedade brasileira na direção de maior justiça. Vi era importante construir essa nova sociedade com maneiras democráticas e pacificas”.

Na década de 1960, se formou em Administração de Empresas na Fundação Getulio Vargas (FGV). Em 1966, foi aprovado por concurso para o cargo de professor no Departamento de Economia da FGV. Porém, seguiu no mesmo ano para a Universidade Estadual de Michigan, onde completou, em 1968, o mestrado em Economia.

De volta ao Brasil, além de lecionar na FGV, começou a escrever artigos sobre economia para revistas e jornais, como na Visão, Última Hora e Folha de S. Paulo, quando começou a ganhar notoriedade. Até que, em 1978, surgiu o convite para ser candidato a deputado estadual, pelo MDB.

“Eu então fui conversar com Ulysses Guimarães, André Franco Montoro, Plínio de Arruda Sampaio, Chopin Tavares de Lima, Alberto Goldman o que é ser um representante do povo. Me explicaram, achei interessante e me inscrevi”. Ali nascia sua vida político-partidária, que não deixaria mais.

Primeiro contato com Lula

Suplicy começou a ouvir falar sobre os metalúrgicos do ABC Paulista em 1976, quando começaram a estourar as primeiras greves por melhores condições salariais e de trabalho. Naquele mesmo ano ele foi fazer uma palestra sobre economia na Fundação Santo André, e na plateia estava o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC: Luiz Inácio Lula da Silva.

Na palestra, ele disse aos futuros economistas que não deveriam, caso se tornassem ministros no futuro, conversar apenas com empresários, mas também com os trabalhadores que seriam afetados com as suas decisões. Ao fim, ao abrir para perguntas, Lula levantou a mão e começou a fazer algumas observações.

Depois, o sindicalista o esperou no pátio da faculdade, e ficaram conversando um bom tempo. O líder dos trabalhadores convidou o professor a visitar o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. E, com a aproximação, Suplicy teve papel importante na defesa dos sindicalistas a partir de 1978, quando o poder público apertou o cerco contra as greves no ABC.

“Quando houve o indiciamento de diversos líderes sindicais, como Lula e Djalma Bom, entre outros, por causa da greve que tinham feito, eu entrevistei os 13 sindicalistas indiciados na Lei de Segurança Nacional e fiz um pronunciamento, como deputado estadual, sobre a vida deles”, lembra.

Cortesia com a direita

O seu bom relacionamento com quem tem visão diferente ficou bem ilustrado logo após as eleições municipais de 2016. Naquele ano, Fernando Holiday (Novo) tinha acabado de ser eleito vereador na Capital e vinha da militância do Movimento Brasil Livre (MBL), marcado por ser importante na pressão pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

No início do mandato, no ano seguinte, o projeto de Suplicy para que a cidade de São Paulo instituísse gradualmente a Renda Básica de Cidadania começou a tramitar na Câmara Municipal. Holiday, que integrava a Comissão de Justiça, pediu vistas do projeto. Suplicy, então, o chamou para conversar.

“Eu falei: ‘Olha, se você quiser conhecer mais sobre o projeto eu gostaria de conversar’, e ele veio aqui com a sua assessoria. Nós tivemos um encontro que, salvo engano, durou 4 horas. Ao terminar ele me disse: ‘Vou dar parecer favorável ao projeto’”.

Em entrevista à Gazeta, em junho deste ano, Holiday confirmou que houve esse encontro, e disse que aquele momento foi importante para ele atenuar seu tom agressivo dentro da política.

“Ao longo do mandato nós discutimos vários outros projetos, como a Renda Básica, que é uma bandeira dele, e o Revogaço, que é uma bandeira minha, e agora na eleição da Mesa deste ano o Suplicy foi o único vereador do PT que votou em mim para segundo secretário, contrariando a indicação do próprio partido, sinalizando um pouco desse histórico de diálogo que a gente teve”, disse Holiday.

“Muitas vezes nós votamos contrário, eu voto a favor, ele contra, e vice-versa, mas o diálogo respeitoso eu aprendi a ter com todas as pessoas”, diz Suplicy.

Senado

Ao ser questionado se será candidato ao Senado novamente, após as derrotas em 2014 e em 2018, Suplicy deixou de responder duas vezes, emendando em outros assuntos. Diante da insistência da reportagem, ele devolveu a pergunta: “Aí depende muito da recomendação de vocês. O que vocês acham?”.

Em 2020 ele quis sair primeiro como candidato a prefeito de São Paulo e, depois, convidou a advogada Eliane Dias para ser candidata ao cargo para ele ser sua vice – ela não aceitou. Pressionado pelo PT, acabou abrindo mão da pré-candidatura para apoiar Jilmar Tatto (PT), que chegou em sexto nas eleições vencidas por Bruno Covas (PSDB).

Ao fim da entrevista, já que o gravador desligado, ele voltou a questionar as pessoas presentes na sala se deveria ser candidato ao Senado, em tom de brincadeira. Alguém da sua equipe respondeu: “Acho que sim”. Ele emendou: “Então vou pensar”, e sorriu.

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