“Sou contra o samba de uma nota só”

Mariângela Duarte é pré-candidata a prefeita de Santos e é contra a reeleição

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17 FEV 201319h10

Longe de cargo eletivo, a ex-deputada federal Mariângela Duarte pretende retornar ao cenário político trabalhando em sua campanha para prefeita de Santos. Pré-candidata declarada pelo PSB, Mariângela, hoje com 61 anos, deverá ter sua primeira disputa ao cargo majoritário municipal, em 20 anos de peleja política em mandatos legislativos.

Mariângela militou no Partido dos Trabalhadores por 23 anos, sendo filiada por 21 anos. Entretanto, segundo ela, após um período de seis meses de reflexão, optou por ingressar no PSB, em agosto de 2007, onde obteve apoio unânime para concorrer ao pleito deste ano como candidata a prefeita.

Mariângela confessa que se ressente pelo fato de não ter tido essa oportunidade no PT, partido pelo qual se declara desiludida. Embora ainda esteja na condição de pré-candidata, Mariângela está confiante na confirmação de seu nome na convenção partidária que acontecerá entre março e abril.

Mariângela foi professora durante 42 anos. Durante 33 lecionou língua portuguesa na rede estadual de ensino. Já na Universidade Católica de Santos (Unisantos) ministrou aulas de literatura brasileira e teoria literária por 25 anos.

A ex-deputada iniciou sua trajetória na vida pública em 1988 quando foi eleita vereadora pela primeira vez. Devido ao cargo eletivo, a servidora pública estadual não pôde mais lecionar nas escolas estaduais. Em 1992, Mariângela foi reeleita para o mandato legislativo municipal, que não chegou a completar.

Em 1994, a então vereadora se elegeu deputada estadual, pleito no qual concorreu, segundo ela, a pedido do então prefeito de Santos, David Capistrano Filho, “que não abria mão de uma candidatura estadual”. Entretanto, Mariângela observou: “não é do meu feitio não cumprir os meus mandatos”. Quatro anos depois, Mariângela foi reeleita para a Assembléia Legislativa.

Em 2002, ao término desse mandato, a parlamentar disputou as eleições para a Câmara Federal. Com cerca de 95 mil votos entrou como primeira suplente, assumindo em seguida a cadeira do titular José Dirceu, que na ocasião, assumiu O Ministério da Casa Civil, no Governo Federal, nomeado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

DL – Por que você escolheu o PSB?
Mariângela
– Eu me decidi pelo PSB porque era mais próximo de tudo o que eu vivi. O PSB foi parceiro do PT a vida inteira e eu acho que o PSB vivia um momento muito propício, com atitudes muito corretas no Congresso, como no caso Renan Calheiros. Ao longo dos quatro anos em que fiquei no Congresso, eu pude perceber perfeitamente que o PSB estava mais condizente com o que eu esperava, uma vez que nós como militância, ficamos muito decepcionados com tudo que veio ocorrendo no PT e onde muita vezes não se apurava as coisas —medo de punir dirigentes. Tudo isso me causou descontentamento. Então quando eu fiz a “quarentena”, não larguei nenhum partido, ainda aguardei seis meses. Afinal, 23 anos freqüentando o PT, sendo 21 anos de filiação, é uma vida né? E quando eu entrei no PSB e declarei que entrei não foi para ganhar algum cargo no Governo Federal, muito menos para ser vice-candidata ou candidata a prefeita.

DL – Os comentários sobre uma possível composição de chapa com o prefeito João Paulo Papa, na condição de vice-prefeita não são verídicos?
Mariângela
– Eu nunca vi candidatura a vice. Vice é candidatura à sombra. E vice não somos nós que escolhemos numa campanha de reeleição. Pesa muito o prefeito que está num jogo de vida ou morte. Não sei de onde surgiu isso. É muito honroso ser convidada, mas nunca ocorreu. Nunca o prefeito Papa me fez o convite ou sondou o PSB. Não mudei de partido para isso, nem para ser vice, nem na intenção de ser candidata a prefeita.

DL – Se sua entrada no PSB não foi para buscar uma candidatura a prefeita ou vice-prefeita, como ocorreu a escolha de seu nome para o pleito deste ano?
Mariângela
- Acontece que o PSB estava um pouco divido na última eleição do diretório que aconteceu um mês depois da minha entrada no partido. A medida que comecei a freqüentar o partido com minha experiência de militante houve uma coisa muito bonita. Além de ter sido acolhida por todos do partido e me perguntarem se eu queria ser prefeita, confiaram em mim. Demonstraram um sentimento de admiração que realmente me comoveu. E esse foi um fator que ajudou a agrupar o PSB. O PSB de Santos ainda é um partido pequeno, mas de figuras notórias, com três vereadores na Câmara de Santos, não é pouca coisa. A minha identidade com a ala socialista é muito grande, não vim para ser candidata, é muito mais sólido. Temos certeza que o momento do PSB é excelente a nível federal, estadual.      

DL – Ainda é cedo para falar em coligação?
Mariângela
– Não acho não. Antes de eu entrar no PSB, já vieram aqui todos os partidos. O PFL, o PCB e até o PTB. Eu já havia conversado com os partidos do bloco: PC do B, PDT, os demais partidos, só não conversei com o PMN. E agora vamos começar outra vez. Não a Mariângela, mas a Executiva do partido. Eu tenho amigos, admiro o PPS local. Vamos conversar com todos, mas gostaríamos de ter uma identidade partidária de centro-esquerda. 

DL – O PSB de Santos já está trabalhando a campanha eleitoral?
Mariângela
– Tivemos uma reunião aqui em Santos com todos os presidentes do PSB dos nove municípios e os pré-candidatos a prefeito. Nós vamos imprimir um ritmo metropolitano nessas campanhas. Aí vale muito da minha experiência como deputada — oito anos de deputada estadual e depois o mandato federal. Então vamos ter os parceiros como co-partícipes de governo e de decisões. A campanha vai ser tranqüila.

DL – O prefeito Papa, apesar de não confirmar, é pré-candidato natural à reeleição no pleito deste ano. Como seria essa disputa durante o período de campanha?
Mariângela
- Eu sei que o prefeito Papa me admira e me elogia e o considero extremamente educado, correto e civilizado. O que não significa que eu não possa ser candidata e que nós temos que ter na cidade o samba de uma nota só. Eu sou contra o samba de uma nota só. Empobrece a discussão política. Mas acredito que pelo respeito mútuo que mantemos, isso pode até ajudar a termos um melhor nível de campanha. Não gosto de campanha de baixo nível. Eu nunca fiz política destruindo nenhum adversário.   

DL – Apesar de sua admiração pelo prefeito João Paulo Papa, como você avalia sua administração?
Mariângela
– Há diferenças entre eu e o prefeito de ritmos, de métodos. Acho que nós empreenderíamos no social uma força muito maior. Nós temos nohal em algumas áreas que são importantes. Para mim as coisas são muito rápidas. Eu não demoro três anos para tomar uma decisão. Eu tenho outro ritmo. Acho que o tempo de Governo é curto e eu não acredito muito em reeleição. Se viesse a ser eleita, dificilmente partiria para uma reeleição.

DL – Você é contra a reeleição?
Mariângela
– Eu não gosto de reeleição. Eu preferia que o mandato tivesse cinco anos. Sempre tive essa posição. No dia que me chamassem para votar isso, eu votaria contra. Não acho que é ilegítima a opinião dos que defendem a reeleição. Acho que cinco anos é o suficiente para você passar o bastão. Mas, se a população gosta de um prefeito e quer reelegê-lo, a decisão, em último caso, é a soberania popular.

DL – Você acredita que é possível traçar um plano de Governo e cumprir esse plano num único mandato?
Mariângela
– Não, mas também você não precisa esperar três anos para tomar uma decisão. Isso é uma das críticas que faço a atual administração. Você não pode ter um governo apenas de planejamento. Eu acho que você tem que Ter a dimensão clara de tempos de governo, isso não implica você jogar as principais questões para uma reeleição. É um risco e não é meu estilo.

DL – Como seria o seu governo, caso você se eleja prefeita de Santos?
Mariângela
– Gostaria de imprimir ao meu governo duas coisas: um ritmo mais popular — não populista e não demagogo — essa uma das qualidades do prefeito Papa. Ele não é nem populista, nem demagogo. Eu defendo que todo mandatário, todo parlamentar, tem que se adequar ao seu devido mandato. Senão enrola muito. O que eu gostaria de fazer? Muita rapidez na desburocratização da máquina. É uma máquina paquidérmica, feita para não funcionar. Eu gostaria, por exemplo, de diminuir o número de cargos de comissão. Eu gostaria de fazer uma máquina mais ágil e iniciar uma racionalização dessa máquina. A primeira coisa que eu pediria seria uma radiografia da Prefeitura. Temos que revalorizar o servidor público, que está desvalorizado há, no mínimo, 20 anos. Investir na sua qualificação permanente. E eles vão ter que trabalhar com metas. Comigo todo mundo trabalha com metas.

Outro ponto. Eu sou uma pessoa fundamentalmente ligada a três áreas: cultura, ciência e tecnologia e educação. Essas áreas terão destaque absoluto no nosso programa de governo. E, cotidianamente a saúde. Quem traz uma Unifesp para Santos sabe a necessidade da Saúde. Outras áreas são Transporte e Segurança. Então rigor na máquina pública, exigência de competência e dedicação, valorização permanente do cargo de carreira, plano de cargos e salários atualizados, mais metas. Não é bom, vai ter ficar bom. É preciso rever essa questão.  
  
DL – A Mariângela Duarte é conhecida por sua atuação parlamentar e articulação junto aos Governos Estadual e Federal, no tocante a liberação de recursos para a Região. Essa sua representatividade ajudaria em sua gestão como prefeita?
Mariângela
– Sem mandato, eu continuei articulando, foi o que me deu mais trabalho porque eu sei a rapidez com que eu articulo as coisas, mas também terei que ter a humildade, embora eu seja uma parlamentar perfil executivo. Porque eu vou lá e forço a realizar as questões, mesmo quando era oposição. Agora já vou começar desde agora porque tenho muito a aprender sim com a faceta executiva. Quem tem rigor, seriedade e experiência política aprende. 

DL – A sua intenção de concorrer a prefeita de Santos já é antiga e todo mundo sabe e só agora você tem a oportunidade. 
Mariângela
– Eu julgo que eu já deveria ter saído candidata a prefeita e havia dois impedimentos. No PT não tinha como você enfrentar a Telma (de Souza). Era a Telma e pronto e tem lá as razões disso. Não tinha chance e eu nunca admiti largar um mandato que é da região inteira para ser prefeita numa cidade só. Assim como eu estava muito desiludida com o PT, não abandonei o PT até acabar o mandato. Isso que o Tribunal (Tribunal Superior Eleitoral) reconheceu agora eu já fazia.

DL – Então, você é uma defensora da fidelidade partidária?
Mariângela
- O Márcio me namorou seis anos para eu vir para o PSB. Ele falou: “quando eu desisti ela veio”. As pessoas não refletem sobre isso. Em 2002, eu tive quase 95 mil votos, 10 mil foram de Cubatão. Como eu poderia olhar para essas pessoas e mudar de partido. Mudar de partido é absolutamente absurdo e mesmo largar o mandato para ser prefeita de uma cidade, quando você é deputada de várias e recebeu voto em todas.