Salles usa vídeo editado para criticar Greenpeace e discute com políticos

O vídeo utilizado pelo ministro para criticar a suposta ausência da ONG em grupos de limpeza de praias do Nordeste foi editado e parte foi retirada

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22 OUT 2019Por Folhapress11h50
Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Nos últimos dias, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, discutiu com figuras públicas e ONGs ambientais sobre as ações do governo federal frente à crise das manchas de óleo no Nordeste.

Nesta segunda (21), o ministro ironizou um vídeo do Greenpeace em que um porta-voz da ONG responde à pergunta "Por que o Greenpeace não está nos locais atingidos ajudando na limpeza?".

"O Greenpeace 'explicou' porque não pode ajudar a limpar as praias do Nordeste... ahh tá... (sic)", escreveu Salles.
O vídeo utilizado pelo ministro para criticar a suposta ausência da ONG em grupos de limpeza de praias do Nordeste foi editado e parte foi retirada. O vídeo completo tem cerca de três minutos, dos quais mais da metade não aparece na montagem compartilhada pelo ministro.

A ONG respondeu à publicação: "Durante o final de semana um dos nossos vídeos foi cortado e editado para tirar de contexto uma fala do nosso porta-voz sobre as manchas de óleo. O corte foi publicado pelo ministro e respondemos mostrando a realidade. No lugar de agir de forma concreta, Ricardo Salles prefere culpar ONGs como o Greenpeace. O ministro mente e espalha falácias sobre a atuação de ONGs, como vimos nas queimadas na Amazônia, como forma de desviar a atenção da sua própria inação e incompetência".

A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) também escreveu ao ministro no Twitter. Ela disse que Salles não tem cumprido suas obrigações e estaria tentando "botar a culpa nos outros". Salles respondeu à deputada: "Vc é que não tem vergonha. Mas deveria ter, e muita, pois o petróleo que está atingindo o Nordeste e o Brasil, é venezuelano, cujo governo ditatorial comunista vocês apoiam (sic)."

No sábado (19), o ministro já havia discutido com o governador da Bahia, Rui Costa (PT), após o petista cobrar que o governo federal se manifestasse sobre ações para a contenção do óleo que atinge as praias do Nordeste.

"Já foram removidos mais de 155 toneladas deste material, entretanto precisamos de um posicionamento e de resoluções do Governo Federal, através da Marinha e do Ibama, que são os responsáveis pelo cuidado com o oceano, mas continuam em silêncio."

Salles respondeu ao governador dizendo ter ido pessoalmente à Bahia e visto fuzileiros navais, agentes do Ibama e equipes municipais trabalhando na limpeza, mas diz não ter encontrado pessoas ligadas ao governo estadual.

Costa rebateu e disse que Salles não estaria trabalhando, mas apenas tirando fotos. "De helicóptero realmente não tinha como ver. Fazer foto e dizer que trabalhou é muito fácil. Deixe de fazer política e trabalhe."

Na sexta (18), o MPF (Ministério Público Federal) entrou com uma ação contra a União por omissão no desastre das manchas de óleo no Nordeste. A Procuradoria pedia que, em 24 horas, fosse colocado em ação o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Água.

A Justiça Federal do Sergipe reconheceu no domingo (20), após a União apresentar sua resposta à ação do MPF, que o plano de contingência foi colocado em prática em setembro.

Na tarde desta segunda, Salles viajou ao Rio Grande do Sul para encontrar empresários no Country Club, em Porto Alegre. Ele foi recebido por um grupo de cerca de quinze pessoas que gritava frases como "sinistro exterminador do futuro" e "Salles na cadeia".

Após o encontro, Salles não respondeu ao questionamento da reportagem sobre o presidente Jair Bolsonaro (PSL) não ter visitado as praias nordestinas afetadas. O ministro se limitou a criticar a "politização" do vazamento de óleo.

"Todos os ministérios têm dado suas contribuições, os órgãos federais têm feito um grande trabalho, os órgãos municipais também estão participando, voluntários estão prestando um bom serviço ao país. Não tem sido bom para o país essa 'polemização' e essa 'politização' que alguns querem fazer", respondeu sem mencionar os órgãos estaduais.