Professor Igor: 'Escola não é pai e mãe.'

Vereador eleito de Santos pelo PSB, educador comenta falhas na Educação

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25 NOV 201205h21

Igor Martins de Melo tem 49 anos e nasceu em Santos. Casado, pai de dois filhos, ele é formado em Ciências Sociais e Economia pela Unicamp e tem pós-graduação em História pela PUC-SP.  Eleito em sua primeira tentativa de chegar ao Legislativo santista com 1.689 votos, Igor entrou no PSB graças ao vereador Fabião, de quem é grande amigo. Na entrevista a seguir, ele fala sobre seus projetos para a Câmara e os problemas do Município.

Diário do Litoral – Como se deu sua filiação ao PSB? Foi seu primeiro partido?

Igor Martins de Melo – Cheguei ao PSB pelas mãos do Professor Fabião, que eu já conhecia há 20 anos. Nunca tinha me candidatado porque sempre o ajudava na campanha. Não apresentava minha candidatura para não colidir com a dele, o que seria perda de tempo. Sempre ajudei informalmente, pedindo voto e colocando faixa no apartamento. Era algo voluntário, informal. Mas antes, quando eu era universitário, eu me filiei ao PSDB e fui da Juventude Tucana. Mas por muito pouco tempo, em Campinas. Parei de militar partidariamente e apenas acompanhava como cidadão os candidatos, seja para o Executivo, seja para o Legislativo. Em 2010, o Fábio me apresentou a ideia dele de ser candidato a prefeito, e me disse que queria que eu me candidatasse a vereador. Amadureci a ideia, conversei em casa.

Professor Igor foi eleito vereador, na última eleição, com 1689 votos (Foto: Matheus Tagé - DL)

DL – Antes do convite do Fabião, o senhor não tinha o desejo de ser candidato?

Igor – Tinha, era um desejo preso no fundo do cérebro que não havia tomado corpo, como aqueles sonhos que sempre alguém desejou. Eu acreditava que era complicado, caro, difícil...Mas a ideia ganhou forma em 2011. Depois teve a aliança com o Marco F. e o Rivaldo, dois assessores, e aí começamos a desenvolver projetos, ideias, até que chamei um advogado, que era colega, e hoje é amigo, o doutor Celso de Jesus Pestana Duarte, e assim ganhou forma. Um amigo de Publicidade também aderiu, como outros colegas professores e colegas de bairro aderiram, e a candidatura foi ganhando volume. Com poucos recursos materiais, muita criatividade e muita sola de sapato.

DL – Foi como a primeira campanha do Fabião, então? Só faltou pedalar?

Igor - Exatamente (risos). Mas o que fizemos de campanha em porta de faculdade...

DL – Uma de suas principais atuações na Câmara deve ser na área de Educação, pelo fato de o senhor ser professor?

Igor – Minha atuação não será restrita a essa área, mas é óbvio que não dá para fugir do nicho. Deve ter outros colegas na Câmara que desejem participar da Comissão Permanente de Educação.

DL - Desde que o senhor foi eleito, já foi conhecer o plenário algumas vezes. Quais foram suas primeiras impressões do Legislativo?

Igor – Senti coisas positivas, como o nível do debate. Achei técnico e interessante. Quem vê de fora pode achar que são inconsequentes, carreiristas, oportunistas, e não são. Muito pelo contrário! Fiquei extremamente gratificado com a autenticidade das falas, a objetividade do discurso, a coerência até nas interpelações. Não é discussão por politicagem, do tipo “eu não quero que seu assunto ande, senão meu partido perde”.

DL – O senhor tinha essa impressão antes?

Igor – Tinha. Achava que era um querendo engolir o outro. As discussões são extremamente pertinentes, são técnicas, algumas até de densidade surpreendente.

DL – Alguma coisa o desagradou nesses primeiros contatos?

Igor – No primeiro expediente (quando são apresentados projetos e indicações), ninguém ouve ninguém. Mas, na soma geral, a impressão é extremamente positiva. Fui muito bem tratado, respeitosamente, a estrutura funciona, respeita horários, respeita protocolos, foi algo até surpreendente.

DL – Como vereador eleito, quais os principais problemas que o senhor identifica em Santos?

Igor – Eu não caracterizaria os problemas na ordem vertical. Eu caracterizaria por áreas. Por exemplo, na área econômica, vejo dois problemas: a legislação que emperra que certos estabelecimentos e projetos comerciais avancem. Seria primordial estabelecer uma agilidade na legislação. A Associação Comercial de Santos tem um projeto de incubadora fantástico, que vou querer abraçar na Câmara, para gerar empresas genuinamente santistas, trazer o santista empreendedor para a Cidade. Há muitos entraves, seja de ordem financeira, seja de ordem burocrática. Outro setor vital para a Cidade, o Porto, algumas pessoas que conversei citaram problemas na logística, no deslocamento de caminhões, contêineres e trens. Tem de se melhorar essa logística, já que não dá para se mexer no Porto. Mas pelo menos nos entornos. Outro problema é a Saúde. Santos recebe muita gente de fora. Se pudesse encontrar uma solução para resolver problemas médicos como problemas médicos. Não “medicamentalizar” a doença ou os problemas. Essa redução paliativa, rápida, de medicar a pessoa, dar um sedativo para quem está com estresse, um tipo de calmante para quem tem transtorno obsessivo compulsivo. O que for doença mesmo, com quadro patológico claro, que se tenha um lugar decente para esse pessoal tratar. E as outras áreas, como Naps, e outros núcleos, que também tenham sua estrutura. O que eu ouvi de reclamação de diretores do Naps...

DL – Que tipo de reclamações?

Igor - Ouvi que falta estrutura para abrigar criança que é maltratada pelos pais, por exemplo. O que faz com ela? Vai devolvê-la para os pais. E o problema continua. O que faz com uma adolescente grávida? Não se sabe o que fazer. O que se faz com criança com problema emocional ou comportamental? Não tem lugar para ela.

DL – O senhor entende que a rede de atendimento é falha?

Igor – Nesse sentido é. É bonita no tocante à oportunidade. Ela quer resolver o problema, mas esbarra nas próprias regras ou leis que ela mesma criou.

DL – E nas outras áreas do Município, quais os problemas?

Igor – Sim, na minha área, Educação. Posso desmembrar em várias etapas: a creche, por exemplo, funciona até às 16 horas, se não me falha a memória. Deveria estender o horário. Acredito que há uma ou duas com horário estendido. Por que não estimular outras para ajudar quem trabalha até mais tarde? Falta também um Plano de Carreira claro e estimulante para o professor. Uma cidade com orçamento anual de mais de R$ 1,8 bilhão, como perde profissionais, com todo respeito a outras cidades, para São Vicente, Praia Grande, Cubatão, Guarujá? É uma questão de gestão, porque recurso tem. Tem também a questão da Escola Fundamental I. É preciso trazer a família para a Escola Fundamental I, comprometer a família na educação da criança. Não é função do professor educar, no sentido familiar da palavra. A escola não tem que assumir essas funções. A escola não é pai e mãe. É fundamental, mas não pode assumir todas as funções do pai e da mãe. Está virando depósito. Outro problema que temos é na área de Mobilidade Urbana. Existe uma lei determinando que as calçadas são de responsabilidade do dono do imóvel. Caso já estivesse exercendo o mandato, eu iria sugerir transferir algum tipo de benefício para quem padronizasse a calçada. Mas não sei, ainda, se isso é possível juridicamente. Pode-se pensar em concurso de bairros, onde cada um tivesse um tipo de piso, de cor. Assim, se daria um aspecto lúdico para a Cidade. Na questão do Meio Ambiente, defendo que as árvores devem ser podadas de forma mais sistemática. Tem ruas, à noite, que viram verdadeiros túneis, onde você tem medo de passar.

DL – O PSB, depois das eleições, tem alguma postura definida com relação ao prefeito eleito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB)?

Igor – O partido ainda não se posicionou. O que eu e o presidente do partido em Santos, o vereador Benedito Furtado, estamos querendo fazer é uma aproximação responsável, uma oposição cautelosa, não uma ataque xiita ao prefeito. Pelo contrário, queremos governar com ele, mas sem grandes adesismos, sem grandes fugas de características ideológicas ou partidárias. O que for bom para a Cidade, nós vamos apoiar. Aquilo que fugir muito dos nossos propósitos, ou que a gente entenda que seja prejudicial ao munícipe, vamos expor nossa crítica. Mas de maneira técnica, calma, construtiva. O partido vai se reunir na próxima semana para definir uma estratégia, e fazer uma avaliação da nossa eleição, da eleição na região. Se o PSB, em nível nacional, cresceu, qual avaliação que teve na região? Vamos expor isso aos companheiros de partido.

DL – E qual é a sua opinião sobre o prefeito eleito?

Igor – Positiva. Embora a gente quisesse o Fabião, pelo histórico da Cidade mais forte, sabendo que ele tinha o conhecimento de questões municipais mais contundentes, refinadas, o prefeito não é um quadro ruim não, muito pelo contrário. Ele é jovem, é dinâmico e é empreendedor. A avaliação é positiva e a perspectiva é boa.

DL – Após as eleições, pelo fato de Santos ser uma cidade em que as pessoas se encontram com facilidade, o senhor, por acaso, o encontrou na rua ou acabou falando com ele?

Igor – Não. Ele não me procurou. Só “trombei” com ele na campanha em alguns lugares.

DL – Qual o perfil ideal de um presidente da Câmara?

Igor – O partido de maior representatividade deve ter o representante como presidente da Câmara, até por uma questão de justiça. Existe uma briga interna (no PSDB)...Existe (candidatos como) o Sadao (Nakai), o (José) Lascane, e corre por fora o Ademir Pestana, mas a ideia é que a Presidência seja do PSDB. Quem o partido vai apoiar será uma visão conjunta, minha e do Furtado. Quanto às características, a primeira tem de ser um bom ouvinte, conciliador, que costure alianças, que apague os incêndios da Câmara, que promova articulações positivas no sentido de que os projetos de lei e os requerimentos tenham encaminhamento, que não faça jogo escuso, obscuro, a política suja. Tem de ter um sujeito com uma certa “rodagem”, não precisa ser extremamente “rodado”, mas precisa ter uma certa experiência, tem de ser uma pessoa lúcida, tecnicamente competente, de fala clara, articulador de aliança e que promova o encaminhamento dos processos legislativos.

DL – Quantos candidatos ou representantes de candidatos à Presidência da Câmara já o procuraram?

Igor – Três.

"O presidente da Câmara tem de ser um sujeito com uma certa "rodagem", não precisa ser extremamente "rodado" mas ter uma certa expêriencia"

 

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