Papo de Domingo: ‘A mudança será difícil porque não tem pauta única’

A cientista política Olivia Perez contextualiza a manifestação de domingo passado e aponta quais os setores sairam ganhando com o ato

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21 MAR 201523h32

Como o 15 de março de 2015 entrará para a História do Brasil? Um dia de manifestação de brasileiros insatisfeitos contra a corrupção generalizada ou um sinal amarelo - quase vermelho - para a presidente Dilma Rousseff (PT).

O Diário do Litoral ouviu esta semana a cientista política Olivia Perez, que apontou quem saiu ganhando com o ato do domingo passado, quando cerca de um milhão e meio de pessoas foram às ruas protestar. Eram todos proprietários de apartamento com varanda gourmet?

Para Olivia, que ministra aulas da disciplina ‘O Indivíduo e Sua Inserção Social’ e tem título de doutora de Ciências Políticas pela USP, o buraco é bem mais embaixo e o PT só tem a perder se desclassificar quem foi às ruas protestar.

Confira, a seguir, a entrevista

Diário do Litoral – Que avaliação pode ser feita, quase uma semana depois, das manifestações de domingo? Dá para dizer hoje como esse ato do dia 15 de março vai ficar para a História do Brasil?

Olivia Perez – O ato de domingo vem fortalecer alguns setores que saem ganhando com o desgaste do Governo Dilma.

DL – E quem sai ganhando com o ato?

Olivia – PMDB, sem dúvida. Quando dou aula, sempre gosto de falar para os alunos: “Pensem quem sempre sai ganhando com um determinado ato”. Uma coisa é tentar entender o porquê, e outra coisa é tentar entender a conseqüência. Qual seria a consequência? Quem sairia ganhando? Tinha aí duas vertentes: se a Dilma sofresse o impeachment, assumiria o Michel Temer, então o PMDB sairia ganhando; mas como é difícil ela sofrer o impeachment, quem sai ganhando com o desgaste da presidente também é o PMDB. Como vimos na quarta-feira, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), ganha cada vez mais força (anunciou a saída do ministro da Educação, Cid Gomes)e futuramente poderá pleitear mais um ministério para o PMDB.

DL – Em um primeiro momento, perde mais diretamente a presidente Dilma, o Governo ou o PT como instituição?

Olivia – Perdem todos. O PT, como instituição, sofreu um grande desgaste. Teve até militantes petistas que participaram dos atos de domingo, porque se sentiram traídos pela Dilma por ela ter uma pauta baseada em direitos sociais e trabalhistas. E não foi isso que aconteceu, ela assumiu o mandato e adotou medidas que o Aécio Neves (PSDB) adotaria, mas que acabaram onerando o bolso dos trabalhadores. Então, essas pessoas se viraram contra. Perde o PT e perde a Dilma, sem dúvida. E outras forças ganham mais destaque e espaço, como o PMDB e o próprio PSDB.

DL – Como a senhora viu a participação, mesmo que pontual e limitada, de pessoas carregando faixas pedindo intervenção militar? Como se explica isso depois de tanto tempo após a redemocratização do País?

Olivia – O Governo Militar dava uma ideia de que as coisas eram boas. Você teve um período de milagre econômico, então, de fato, as pessoas estavam economicamente melhor. Tinha uma falsa sensação de que não havia violência, embora o Estado matasse, havia uma violência feita pelos próprios membros do Regime Militar, mas como havia censura dava a impressão de que não havia violência. E a sociedade era outra. As relações hoje são diferentes. A tradição vem perdendo força, as pessoas são mais liberais em relação à comportamento e valores. Dá a impressão que antes era mais organizado. Essas pessoas têm a impressão de que antes era melhor. Fora isso, as pessoas mais acostumadas aos valores tradicionais, quando olham a sociedade agora, pensam que também naquela época era melhor.

DL – Isso, então, é uma falsa impressão?

Olivia – Uma falsa impressão. As pessoas que se beneficiavam da ditadura, que viviam bem, um pequeno grupo, agora se expressam. Esse grupo sempre existiu. Eles tinham só menos canais, menos espaço para externar sua posição, principalmente quando ganha um governo do PT, um governo comprometido com a causa dos trabalhadores. Fora isso teve o estopim. Como a gente explica as manifestações? Há uma insatisfação com a Política, que já foi expressada nas manifestações de junho de 2013, as pessoas estão insatisfeitas com o modo com que a Política vem se desenvolvendo, com nosso sistema político. Há uma insatisfação com essas alianças, coligações, o fato de sempre se pensar nas próximas eleições. Junta-se isso com insatisfação no bolso, aumento da inflação, menos dinheiro, a questão dos problemas no Fies...As pessoas vão para a rua levantando bandeiras que elas nem refletiram direito.

DL – Falou-se muito que não havia uma pauta específica nas manifestações. A senhora concorda?

Olivia – Não havia, de fato, uma cobrança específica. Tinha grupos pedindo o impeachment da Dilma, grupos pedindo a Ditadura Militar, grupos insatisfeitos com a política educacional, tinha muita gente com pautas diversas e por isso que a mudança vai ser difícil porque não há uma pauta única. É interessante as pessoas perguntarem se indo para as ruas, elas não estão dando força para outro tipo de proposta que elas não concordam. Porque você acaba dando caldo para tudo isso.

DL – Por esse aspecto de ter uma pauta difusa, a senhora acredita que outro movimento, em abril, pode ter a mesma força?

Olivia – O fato de ter uma pauta difusa significa que todos que estão insatisfeitos com alguma coisa vão para as ruas. É difícil prever o futuro mas, olhando as manifestações de 2013 elas começaram com um número e, quando houve a agressão policial, elas começaram a se manifestar contrariamente à forma como a polícia as tratou, e aquele movimento foi tomando mais força, foi ficando maior até haver um desgaste pela entrada dos ‘black blocks’ e da violência e veio o desgaste. Porque o próprio ato de participar é desgastante. Então, se formos seguir a linha de prever esse, haverá um aumento e um posterior desgaste. Pode ser maior até em função de os partidos e movimentos que estão por trás, porque não é um movimento apartidário, há líderes do PSDB, do PMDB e de outros partidos, como o Paulinho do Solidariedade, há sim partidos por trás. Quando eles perceberem que já estão ganhando com o desgaste da Dilma – e já ganharam com a queda do Cid Gomes -, eles tendem a empurrar mais a população para pressionar o PT para fazer mais alianças. É interessante: as pessoas falam ‘não gosto dessas alianças’, ‘não gosto como a política é feita: a presidente dar ministérios para pessoas sem afinidade ideológica’, mas quando vão para as ruas pedindo mais alianças, elas na verdade estão incentivando esse tipo de acordo. Agora que os partidos estão percebendo que levar as pessoas às ruas por uma insatisfação que todos têm, que é legítima, que é bacana que elas expressem, agora que eles estão ganhando força eles tendem a mobilizar ainda mais. Todos de olho em mais um ministério, em mais um cargo, em mais um acordo, todos querendo chegar ao poder.

DL – Como a senhora avaliou as respostas dadas pelo Governo. A primeira, ainda na noite de domingo, com um dos ministros dizendo que quem estava nas ruas não era eleitor da Dilma?

Olivia – O PT, sem dúvida, dialoga mal, mas temos de entender quais suas possibilidades de diálogo. Este tipo de discurso que desmerece o outro é um discurso que nunca tem eco. Generalizar as pessoas que foram na manifestação como “varanda gourmet” e “coxinhas” isso não dá certo porque é um discurso raso porque não consegue ver a fundo as pessoas que estavam lá e porquê estavam lá. Mais do que julgar quem estava lá e colocar apelidos infantis, o interessante seria entender o porquê e tentar combater esse porquê. Esse é um discurso comum entre os petistas, mas que não funciona, não tem eco. Acho que as pessoas ficam até ofendidas quando elas ouvem isso.

DL – Como o Governo pode sair da crise?

Olivia – Há um paradoxo. Para sair da crise, ela precisa dialogar mais com o PMDB, fazer mais aliança, dar mais cargo, dar mais ministério, cargo em estatais, um aparelhamento ...As pessoas falam que a Dilma tem de ser mais política e o que tem embutido nessa fala é que ela tem de fazer mais aliança. Mas quanto mais ela faz esse tipo de aliança, ela deixa a população mais insatisfeita. Ela poderia dar uma resposta do tipo “Pressionem os seus congressistas, porque reforma política depende deles e não de mim”. Só que se ela faz isso, ela acaba ficando mais desgastada com o Congresso. Foi o que o Cid Gomes fez. Ele disse que o problema está no Legislativo. Ele foi chamado para dar explicações e acabou saindo (do Governo). Então, se ela empurra essa responsabilidade para o Congresso, ela acaba ficando mais desgastada porque, sem dúvida, são esses partidos que estão incentivando, não só eles, mas também estão participando dessas manifestações. Se ela der uma resposta muito brusca, ela sai mais arranhada, mais prejudicada. E se ela der uma resposta mais branda, a população diz que ela não está comprometida, não respondendo à altura.

DL – Em dois meses e meio de governo, com relação arranhada com o Congresso e com uma taxa de rejeição de 62%, a segunda mais alta da história, só perdendo para a do Fernando Collor, preocupa a questão da governabilidade?

Olivia – Sem dúvida preocupa. Mas não é a mesma situação do Collor. O PT é um partido com grande capilaridade, um partido forte. Por mais que a crise esteja acontecendo, as coisas estão andando, estão funcionando. Com os outros partidos fazendo mais alianças, ela tende a fazer mais concessões e a governabilidade se mantém. Isso porque a gente ainda não compreendeu nosso sistema político, porque é recente, é complexo. As pessoas quem saem nas manifestações, em sua maior parte, só querem uma melhora de vida para elas e para a sociedade, querem mais justiça social. Só que muitos não entendem que nosso político, de fato, é complexo.

DL – Já dá para prever, faltando um ano e meio das próximas eleições municipais, um reflexo desse ato nas urnas para o PT? A legenda perderá força?

Olivia – Eleições e comportamento são coisas interligadas. Há um alto índice de reprovação do PT na Baixada Santista, em especial em Santos, a Câmara santista é um retrato disso: só dois vereadores fazendo oposição ao Governo