Oposição aposta no fracasso da Copa, diz Lula

Em artigo publicado pelo jornal espanhol El País, o ex-presidente afirma que "as críticas, naturalmente, são parte da vida democrática"

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15 MAI 201420h54

A Copa do Mundo "tornou-se objeto de feroz luta política e eleitoral no Brasil", afirma o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em artigo publicado ontem (15) pelo jornal espanhol El País. "À medida que se aproxima a eleição presidencial de outubro, os ataques ao evento tornam-se cada vez mais sectários e irracionais", escreve Lula, para em seguida alegar que "determinados setores parecem desejar o fracasso da Copa, como se disso dependessem as suas chances eleitorais".

O artigo "O mundo se encontra no Brasil" foi publicado a menos de 30 dias para o início do Mundial, cuja sede foi definida pela Fifa no início do segundo mandato de Lula. A escolha do País para receber não só a Copa, mas a Olimpíada de 2016, foi tratada pelas gestões petistas como representativa do crescimento econômico e da projeção internacional que o Brasil ganhou na última década.

Desde o ano passado, porém, a Copa tem sido tema de manifestações de rua. A retomada recente dos protestos contra o evento, como os ocorridos ontem, preocupa o governo. No Rio, o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral) foi hostilizado em um debate por manifestantes contrários ao Mundial. Depois da queda da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas de intenção de voto, Lula ampliou a agenda de eventos em que aproveitou não só para fazer uma defesa pública da sucessora, mas também para defender o legado das gestões petistas e a realização da Copa.

No texto de ontem, Lula diz que "as críticas, naturalmente, são parte da vida democrática". "Quando feitas com honestidade, ajudam a aperfeiçoar a preparação do País", argumenta. "Mas determinados setores parecem desejar o fracasso da Copa, como se disso dependessem as suas chances eleitorais." Além de acusar políticos de torcerem contra o Mundial, o ex-presidente acusa esses setores de disseminarem "informações falsas que às vezes são reproduzidas pela própria imprensa internacional sem o cuidado de checar a sua veracidade". "O País, no entanto, está preparado, dentro e fora de campo, para realizar uma boa Copa do Mundo - e vai fazê-lo."

O ex-presidente Lula afirmou que a oposição aposta no fracasso da Copa (Foto: Divulgação)

No artigo, Lula lembra da infância e de quando o Brasil ganhou o torneio em 1958 na Suécia. "Eu tinha 12 anos, e juntei um grupo de amigos para ouvirmos a partida final num campinho de várzea com um pequeno rádio de pilha", diz. "Eu sonhava em ser jogador de futebol, não presidente do Brasil."

‘Esquerdismo’. Em seguida, Lula faz uma descrição da conjuntura econômica do País que, no fim dos anos 50, começava "a se industrializar, tinha criado a sua própria empresa de petróleo e o seu banco de desenvolvimento". "As classes populares reivindicavam democraticamente melhores condições de vida e maior participação nas decisões do País. Mas os setores privilegiados diziam que isso era um erro gravíssimo, fruto de ‘politicagem’ ou ‘esquerdismo’."

Para o ex-presidente, naquela época havia quem dissesse que o Brasil era uma nação "atrasada, mestiça e de povo ignorante e preguiçoso". "Segundo um estereótipo muito difundido dentro e fora do País, devia conformar-se com o seu destino subalterno, sem ficar alimentando sonhos irrealizáveis de progresso econômico e justiça social", afirma Lula. "Na verdade, não é fácil superar o ‘complexo de vira-lata’. Fomos colônia por mais de 320 anos, e a pior herança dessa condição é a persistência da mentalidade colonizada de servidão voluntária."

Ao retornar aos dias atuais e à competição que começa em 12 de junho, Lula diz que a Copa será "uma oportunidade extraordinária para milhares de visitantes conhecerem mais profundamente o que o Brasil tem de melhor: o seu povo". "A importância da Copa do Mundo não é apenas econômica ou comercial", defende o ex-presidente. "Na verdade, o mundo vai se encontrar no Brasil a convite do futebol. Vai demonstrar novamente que a ideia de uma comunidade internacional pacífica e fraterna não é uma utopia."