‘Não temos como, de forma compulsória, tirar os moradores das ruas’

Diário do Litoral entrevista Carlos Teixeira Filho, vereador eleito de Santos.

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16 DEZ 201211h17

Diário do Litoral – Qual a avaliação que o senhor faz dos quase oito anos em que ficou no comando da Secretaria de Ação Social?

Carlos Teixeira Filho, Cacá – Uma avaliação positiva. Trabalhamos em uma nova política implantada a partir de 2004 pelo Governo Federal que é o Sistema Único da Assistência Social (Suas) colocando diretrizes a serem seguidas. Assumimos em 2005 para fazer a construção de uma nova política. Vieram os Cras (Centro de Referência da Assistência Social), o Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas) e avançamos muito na Cidade. De uma assistência social, que tinha essa denominação, até mudamos a denominação da nossa secretaria. Com o Suas, mudamos o nome da secretaria. Fui o primeiro secretário da Assistência Social. Na Seas, quando começou, tivemos de fazer uma contratação de pessoal porque estávamos defasados. Contratamos 100 funcionários entre técnicos, operadores, assistentes comunitários, motoristas. E fizemos a recuperação de todo o patrimônio, todos os equipamentos, com reformas e mudanças de endereço.

DL – Dê um exemplo.

Cacá - Veja o caso do Espaço Meninas, que era em uma área perto das casas de tolerância. Como dava para cuidar de uma situação de violência contra o adolescente em um ambiente hostil? Então nós mudamos o equipamento, como o Conselho Tutelar, que era de responsabilidade da Assistência Social e depois passou para o gabinete do prefeito. Criamos dois Centros da Juventude, trouxemos dois restaurantes Bom Prato, além de outros avanços.

DL – O senhor considera, então, que deixou a rede estruturada?

Cacá –
Foi uma política nova, temos que cumprir exigências do Governo Federal com relação aos funcionários e isso tudo veio com concursos públicos para a assistência social. Isso fez com que esse contingente que entrou fosse absorvido pelos nossos equipamentos. Ampliamos ainda o Centro de Convivência da Caneleira, que era muito acanhado, para atender a população da Zona Noroeste. Fizemos também a mudança do Centro de Convivência que funcionava no Edifício Universo Palace para um imóvel na Avenida Francisco Glicério, com melhor estrutura. E isso com a dificuldade de se encontrar espaços aqui em Santos. Implantamos o Projeto Cidadã-Fênix para os moradores de rua, trabalhando com ONGs conveniadas, implementamos o Programa Vovô Sabe Tudo, que é premiado. Foi criado no governo anterior e nós aperfeiçoamos. Hoje tem um trabalho de Turismo Religioso. Temos parceria com as secretarias de Educação, Turismo e Meio Ambiente, mas quem paga é a Assistência Social, um salário mínimo para quem participa. Além de outras premiações, como um projeto com a comunidade europeia, onde apresentamos um projeto de combate à evasão escolar.

DL – Então, o senhor considera que o balanço foi positivo?

Cacá –
Foi positivo, mas sabemos que a Assistência Social é algo que precisa cada vez mais atendimento das famílias com vulnerabilidade social. Quando emancipamos algumas famílias, outras entram (na demanda). Passamos por três incêndios em comunidades carentes. Conseguimos encaminhar famílias para o Conjunto Cruzeiro do Sul.


DL – O senhor acredita que parte da sociedade santista tem um entendimento diferente quanto ao atendimento aos moradores de rua? Porque há muita crítica, principalmente, de quem mora na orla.

Cacá -
Isso ocorre mais em Santos, por ser cidade-polo. As pessoas vem na Cidade, é uma Cidade já feita, pronta... Então, o que você vê, para algumas pessoas os moradores de rua causam um mal-estar. Por exemplo: a praia, que é o cartão de visita da Cidade, a pessoa em uma situação de rua...E muitos confundem àqueles que vem de outros municípios e estão como se fossem de rua, ficam jogados, deitados... Eu ando muito pela orla, pelo calçadão e estou sempre atento a isso. Da mesma forma que a população é cobradora, e nós não temos como, de forma compulsória, tirar essas pessoas das ruas, a Cidade é muito fraterna, caridosa, nesse atendimento de população de rua, constatamos muitas pessoas tirando fotografias com aparelhos de celular de funcionários nossos que, ao abordar um morador, segurava no braço dele, e havia o entendimento que estava “arrancando” ele para colocá- lo em um veículo. E recebia um processo do Ministério Público. Tem também o caso de quem distribui comida, à noite, de madrugada. Fizemos uma campanha sobre isso para que a rede social nossa desse auxílio àquelas ONGs que atendem não só a população de rua, mas idosos e crianças. Tivemos a compreensão dessas pessoas que entregavam comida de que essa prática mantinha os moradores nas ruas e não recuperava a dignidade. Temos um empresário que distribuía comida nas ruas e depois ele conseguiu, através de um salão de uma igreja, ajudar a montar um equipamento social para oferecer alimentação.

DL – Como surgiu a vontade de se candidatar a vereador?

Cacá –
Eu já tinha me candidatado em 2000, sempre pelo PSDB onde estou há 22 anos, e em 2004, quando me tornei suplente. Sempre tive uma participação “política”. Me formei em Direito na Católica (UniSantos) e participava do Centro Acadêmico.

DL – Qual é hoje, na sua avaliação, o principal problema de Santos?

Cacá –
Está na área de Habitação. O que é possível para fazer, não só nessa dificuldade de se encontrar áreas para empreendimentos, é buscar capacitar melhor os jovens para a questão do emprego. Muitos são “cabeças” de família.

DL – O fato de o senhor ser do mesmo partido do prefeito, como acredita que tem de ser a relação entre Executivo e Legislativo?

Cacá –
De muito respeito. Vamos sempre procurar colaborar. Tem de ter uma postura pró-ativa, vendo onde estão as lacunas, e sempre procurando ajudar.