‘Mensalinho’ de Guarujá teria sido denunciado por Romazzini

O maior escândalo de corrupção revelado da Câmara de Guarujá aponta doze envolvidos que respondem à ação criminal

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17 JAN 201309h30

Dias antes de morrer, o vereador Luis Carlos Romazzini (PT) investigava suposta fraude no pagamento de precatórios na cidade de Guarujá, porém, combativo como sempre foi, seu maior embate foi em relação ao esquema de pagamento de propina no Legislativo.

O ‘Mensalinho’ da Câmara de Guarujá teria sido denunciado por ele. A atividade ilícita foi gravada em vídeo graças a uma câmera instalada no gabinete do presidente da Câmara, em 2006. Uma fonte, que pediu sigilo, revelou ao Diário do Litoral que Romazzini foi quem denunciou o caso à imprensa. Romazzini foi assassinado por volta de 1h30 da manhã de ontem, em sua casa.

No dia 6 de setembro de 2006, as imagens foram mostradas com exclusividade pela Rede Bandeirantes e no telejornal Band Cidade produzido pelo DL. Romazzini foi o único vereador a conceder entrevista sobre o caso, naquele dia. No dia seguinte, a cobertura completa do escândalo foi veiculada no Diário do Litoral.

Nos vídeos, os vereadores acusados aparecem recebendo propina no valor de R$ 10 mil, cada um, no gabinete do então presidente da Câmara, Gilson Fidalgo Salgado. O vereador Antonio Addis Filho, que na época era secretário de Governo do então prefeito Farid Madi, é suspeito de intermediar os pagamentos aos parlamentares.

O dinheiro distribuído aos vereadores seria fruto de propina para manter os situacionistas “sob controle“ de Farid, conforme declarou uma testemunha ouvida pela reportagem da TV Bandeirantes, na época.

Os nomes do então prefeito Farid Madi e do secretário de Governo, Antônio Addis Filho, foram citados nas imagens feitas nos dias 31 de maio e 1º de junho de 2006. No entanto, ambos negaram, na época, existir qualquer acordo financeiro entre o Executivo e o Legislativo.

Cópias das gravações foram enviadas aos Ministérios Públicos de Guarujá e da Capital e à Delegacia Seccional da Polícia Civil, que abriram investigação do caso, naquele ano.

Comissão processante

No dia 24 de setembro de 2007, Romazzini protolocou, na Secretaria-geral da Câmara de Guarujá, denúncia contra o prefeito Farid Said Madi, com pedido de formação de comissão processante para investigar suposto envolvimento do prefeito no esquema do ‘Mensalinho’. Na denúncia, Romazzini pedia ainda a cassação do mandato de Farid.

Foi a terceira comissão processante proposta no Legislativo para investigar o ‘Mensalinho’. As duas comissões anteriores, apresentadas em 2006, quando estourou o escândalo, foram anuladas.

Sob investigação

Em 2007, nove vereadores foram acusados de envolvimento no ‘Mensalinho’, em ação civil pública do Ministério Público do Estado por ato de improbidade administrativa. Na ação foram citados ainda o ex-prefeito Farid Madi, seu irmão Ysam Said Madi e o ex-secretário de Governo Antônio Addis Filho.

Os vereadores acusados e que foram afastados dos cargos são: Gilson Fidalgo Salgado, Honorato Tardelli Filho, Joaci Cidade Alves, Marcos Evandro Ferreira, Mário Lúcio da Conceição, Nilson de Oliveira Fontes, José Nílton Lima de Oliveira, Sirana Bonsonkian e Helder Saraiva de Albuquerque, que foram afastados de seus cargos. 

Em março deste ano os doze acusados passaram a responder a processo criminal movido pelo Ministério Público — três anos e quatro meses após a denúncia. A ação foi impetrada na 2ª Vara Criminal do Fórum de Guarujá.

Conforme consta dos autos do processo, o ex-prefeito Farid Madi teria comandado o esquema de corrupção quando ainda era prefeito de Guarujá. O esquema constituía em oferecimento de cargos e quantias em dinheiro aos vereadores em troca de aprovação de projetos do interesse de Farid.

No dia 4 de março deste ano, conforme consta no site do Tribunal de Justiça do Estado (TJ-SP), a juíza de Direito Carla Milhomens Lopes de Figueiredo Gonçalves de Bonis determinou a notificação dos réus sobre a ação penal.

Na época da denúncia, em 2006, os acusados prestaram depoimento na Delegacia Seccional de Santos, que constam de inquérito policial.

Câmera na Presidência

Em 16 de junho de 2007, nove meses após a denúncia do escândalo do ‘Mensalinho’ na Câmara de Guarujá, um vídeo no site YouTube trouxe o caso de volta à mídia. O vídeo mostrava um suposto diálogo entre o ex-prefeito Maurici Mariano, o ex-vereador Wanderley Maduro dos Reis e o jornalista Wagner Ramos. O vídeo sugere a resposta sobre quem teria colocado a câmera que flagrou a entrega de dinheiro e pacotes na sala da presidência do Legislativo.

Os diálogos também acusam à imprensa quando mostram a suposta voz de Maurici afirmando que pagou pela divulgação do ‘Mensalinho’, entre outras denúncias. Procurado, Maurici — hoje falecido — disse à época que o vídeo era “uma armação”. Ramos não quis comentar sobre as gravações e Maduro disse que não estava preocupado com o vídeo. Já o prefeito Farid Madi, disse, na ocasião, ao DL, que ficou “chocado”.