Márcio França não poderá confundir governo e eleição, diz Macris

Segundo Macris, o vice-governador pode ter dificuldades na Assembleia Legislativa do Estado

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15 DEZ 2017Por Folhapress13h00
Márcio França não poderá confundir governo e eleição, diz MacrisFoto: Arquivo DL

O vice-governador de São Paulo, Márcio França (PSB), não pode fazer confusão entre dar continuidade ao governo de Geraldo Alckmin (PSDB) e seu projeto de reeleição no ano que vem, sob pena de enfrentar dificuldades na Assembleia Legislativa do Estado.

A afirmação é do presidente da Casa, Cauê Macris (PSDB), que será o primeiro na linha sucessória quando Alckmin deixar o Palácio dos Bandeirantes para disputar o do Planalto -se tudo correr como o previsto na sigla.

"Serei um limitador, na defesa do legado do PSDB", disse Macris, 34, durante entrevista em seu gabinete na quarta (13). Um primeiro tiro de advertência já foi dado: na terça (12), a Casa aprovou em primeiro turno proposta que torna o pagamento de emendas parlamentares obrigatório, mecanismo chamado orçamento impositivo.

A aprovação foi consensual, e o segundo turno será votado na semana que vem, garantindo aproximadamente R$ 4,8 milhões para cada deputado em 2018. Hoje, a média é de R$ 4 milhões, mas de execução variável.

Com isso, o uso de emendas em busca de apoios regionais será limitado, embora o governador possa ditar o ritmo das liberações. Com o poder sobre a pauta da Assembleia e a caneta de nomeações, estima-se que Macris exerça influência direta sobre cerca de 70% da Casa.

Pergunta - O ano que vem será muito diferente na política paulista, com o atual vice buscando a reeleição. Qual será a posição da Assembleia?

Cauê Macris - Primeiro, o Márcio França tem uma lealdade muito explícita em relação ao governador. Portanto, temos uma expectativa de que ele vá dar continuidade ao governo. Nós confiamos no bom senso, que ele não faça confusão entre governo e projeto de poder.
Nós estaremos no campo oposto no campo eleitoral. Se ele continuar o governo, nós lhe daremos estabilidade para governar. Mas no plano eleitoral, o PSDB vai ter candidato ao governo de São Paulo. A gente espera que ele tenha essa clareza de separar bem governabilidade de projeto eleitoral.

O sr. vê qual das candidaturas do PSDB no Estado [hoje João Doria, José Serra, Luiz Felipe D´Ávila, Floriano Pesaro e José Aníbal] como mais viável?
Macris -
Definimos o governador como presidente do partido, e ele deve ser elevado em breve ao posto de candidato a presidente. A partir daí é que são definidos os palanques estaduais. O momento é positivo para o PSDB, porque há diversos nomes com experiência e nomes novos.

Qual agregaria mais ao palanque nacional?
Macris -
Acho que todas têm boas características. É preciso ter a tranquilidade de ver qual delas tem mais condições de agregar aliados, para garantir um bom tempo de televisão.

Especula-se que, uma vez governador, França poderia cooptar apoios usando as regras do jogo, como liberação de emendas. O orçamento impositivo acaba de passar. Ele é um instrumento contra isso?
Macris -
Acho que é legítimo cada deputado defender sua região e seus eleitores. A discussão do orçamento impositivo é antiga, e pela primeira vez nós tivemos unanimidade em favor da proposta. Todos, do governo ao líder da oposição, acharam conveniente fazer essa pauta caminhar. Claro, isso aumento a autonomia do Legislativo.

Que papel a Assembleia deverá cumprir no ano que vem?
Macris -
Eu, como presidente, vou trabalhar para ser um limitador, na defesa do legado do que o PSDB construiu nos últimos 24 anos no Estado. É a responsabilidade que tenho de ocupar esse cargo.
Muitos jovens da minha geração talvez não lembrem, mas quando Mário Covas assumiu em 1994, São Paulo era o que o Rio de Janeiro é hoje. Tudo o que o PSDB fez, fez para ajudar o Estado a ser a potência que é hoje. É devido as que passaram pelo governo e foram obstinados pela responsabilidade fiscal.

Além dessa defesa, quais as prioridades da Casa para 2018? O andamento do processo legislativo estadual é algo distante do público.
Macris -
O Legislativo estadual não é comentado pela sociedade e pela mídia porque trabalhamos no médio e longo prazo, poucas ações são imediatas.
O mais importante é garantir a continuidade dos grandes programas do governo, seja na educação, seja na infraestrutura –garantindo recursos necessários para o Rodoanel e o Metrô. Tem o trem Intercidades, que está pronto para sair do forno, com dinheiro também do governo federal.

O trem irá para a sua cidade natal, Americana, não?
Macris - Vai.

O sr. não teme que isso seja usado contra o sr.?
Macris - Ao contrário, a decisão técnica de levar o trem até Americana é o que o viabiliza, devido à demanda regional. É decisão técnica, não política.

E a oposição em São Paulo? O PT é uma força viável?
Macris - Sempre. O PT tem quadros, tem de ser respeitado por todos. Terá candidatura para buscar a eleição.

O sr. fica no cargo até março de 2019. E depois?
Macris - Aqui, fazendo meu trabalho no Legislativo.

Existe a hipótese de França não assumir, sair candidato a outro cargo. Neste caso, o sr. assumiria com 35 anos. Se sente preparado?
Macris - Acho difícil, acho que o Márcio irá assumir. Claro, tenho responsabilidade de assumir se for necessário.

No plano federal, o PSB está se reaproximando do PT, ainda que haja dúvidas sobre Lula.
Macris - O Márcio França tentou com todas as forças ser o presidente do partido, mas Pernambuco inviabilizou isso. O PSB tem um papel muito importante no plano nacional, e havia todo interesse do mundo em nos coligarmos.
O mais importante para nós é que o PSB não caminhe com o PT no plano federal. Assim, Alckmin teria dois palanques importantes aqui.

E as prévias no PSDB? A posição do prefeito Arthur Virgílio de insistir em disputá-las é prejudicial à sigla?
Macris - Sou um defensor da democracia interna. Prévia é algo positivo, mas tem de saber quem está buscando um projeto para o país e quem está buscando holofote. Nós conhecemos o Arthur Virgílio. Ele está buscando holofotes. O governador Alckmin é o nome ideal para o país nesse momento de extremismos.