Evento da PM em São Paulo tem vaias a Doria e gritos de 'mito' a Bolsonaro

É a primeira vez que os dois dividem o palco após troca de farpas, numa antecipação da eleição de 2022, quando ambos pretendem concorrer à Presidência

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11 OUT 2019Por Folhapress14h30
Nesta sexta (11), em discurso, Doria saudou Bolsonaro e buscou uma posição de alinhamento ao governo federalFoto: Divulgação/Governo do Estado de São Paulo

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro (PSL) foi recebido aos gritos de "mito" na formatura de sargentos da Polícia Militar em São Paulo, na manhã desta sexta-feira (11), o governador paulista João Doria (PSDB) foi alvo de vaias da plateia formada por familiares dos formandos.

É a primeira vez que os dois dividem o palco após intensa troca de farpas, numa antecipação da eleição de 2022, quando ambos pretendem concorrer à Presidência.

No mês passado, Bolsonaro afirmou à Folha de S.Paulo que Doria é uma "ejaculação precoce". Já o governador passou a dizer que não é bolsonarista, embora tenha adotado o mote "Bolsodoria" para se eleger no segundo turno da eleição no ano passado.

Dias antes, Bolsonaro havia acusado o tucano de ter "mamado nas tetas do BNDES" no governo do PT, em referência à compra de jatinho a juros subsidiados do banco. Doria rebateu afirmando que nunca precisou mamar em "teta nenhuma".

Nesta sexta-feira, em discurso, Doria saudou Bolsonaro e buscou uma posição de alinhamento ao governo federal. "Fiz questão de estar aqui presente para mostrar ao presidente que o estado de São Paulo é parceiro das boas ações do Brasil. [...] Nós estamos alinhados com todas as boas iniciativas do governo federal", disse.

Doria foi vaiado em diversas ocasiões, incluindo o início do discurso, mas terminou aplaudido - ainda que em intensidade menor do que Bolsonaro.

"Quero voltar a repetir: em São Paulo não fazemos oposição ao Brasil", disse o tucano. O governador chegou a ser interrompido por aplausos quando citou Bolsonaro e também houve entusiasmo da plateia quando ele elogiou a PM de São Paulo.

O presidente em seu discurso, por sua vez, exaltou sua fala na ONU e atacou a esquerda. Foi aclamado aos gritos de "mito". Apesar da recente troca de farpas, o clima no palco entre Bolsonaro e Doria foi ameno. Os dois ficaram lado a lado e trocaram cochichos.

Doria é alvo dos policias militares no estado por ter prometido aumento de salário, o que até agora não ocorreu. O governador acertou que até o final deste mês apresentará um calendário para o aumento do salário.

O deputado estadual Major Mecca (PSL-SP), que representa a categoria, foi ao evento com uma camiseta que costuma usar em protesto a Doria: "policial nota 10, salário nota 0".

A presença de Doria foi criticada pelo senador Major Olímpio (PSL-SP), aliado de Bolsonaro. Ele se mostrou surpreso quando a imprensa o avisou da presença do governador. "Eu espero que não, acho que Doria não vem. A ausência dele vai me alegrar", disse.

"Ele é o governador, vai estar só assumindo uma condição de comandante em chefe da Polícia Militar", completou o senador do PSL.

PONTOS DE DISTANCIAMENTO ENTRE DORIA E BOLSONARO

Corrupção
Governador não mantém na equipe membros importantes com acusações de irregularidades, mesmo sem provas. Caíram assim Gilberto Kassab (Casa Civil), antes de assumir, e Aloysio Nunes (InvestSP). Enquanto isso, o ministro do Turismo, implicado no laranjal do PSL, segue no cargo.

GP Brasil
O presidente faz campanha aberta para tirar o GP Brasil de Fórmula-1 de São Paulo para o Rio, embora haja impedimentos técnicos. Doria rejeita a ideia e diz que vai brigar para que a prova siga em Interlagos.

Ditadura
Bolsonaro sugeriu que o pai do presidente da OAB não desapareceu na ditadura, e sim foi morto por colegas de luta armada. Ele o fez sem provas e sofreu críticas. Já Doria reagiu e criticou o presidente, até porque teve o pai cassado pelo regime de 1964.

Moro
Desde que Sergio Moro entrou na linha de tiro pelo caso The Intercept, Doria vem distribuindo afagos ao ex-juiz. Já Bolsonaro tem subido a temperatura da fritura do seu ministro, a ponto de aliados do governador defenderem convidá-lo para integrar seu governo.

Nepotismo
O tucano disse que não nomearia parente para cargo público, ao comentar a indicação de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, para ocupar a embaixada do Brasil em Washington.

Extremismo
Em entrevista na China, Doria defendeu a moderação e o centrismo na política como um desejo da sociedade, e disse esperar que Bolsonaro retomasse o caminho do diálogo após uma série de declarações e acenos à fatia mais radical de sua base eleitoral.