Em encontro de juízes, Moro é tietado e pede combate à corrupção sistêmica

Na palestra de cerca de duas horas, restrita a magistrados, Moro fez um histórico da Operação Lava Jato, e falou dos desafios de julgar e combater a "corrupção sistêmica"

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18 JUN 2016Por Folhapress17h30
Moro sugeriu a criação de grupos regionais ou estaduais de combate a crimes na administração públicaMoro sugeriu a criação de grupos regionais ou estaduais de combate a crimes na administração públicaFoto: Divulgação

Pouco antes da palestra que daria a um grupo de magistrados em Curitiba, neste sábado (18) pela manhã, o juiz federal Sergio Moro foi abordado por três crianças.

Filhas de juízes, que vieram de todo o país para expressar solidariedade ao magistrado da Operação Lava Jato, elas pediram um autógrafo, num bloquinho com as inscrições "Passaporte da República de Curitiba".

Com um sorriso, Moro atendeu o pedido. A mãe correu para tirar uma foto do momento.

"Se é para tietar, vamos escolher bem", disse a juíza Joanna Feu Rosa, 40, que viajou do Espírito Santo até Curitiba. "Que seja alguém que faz um trabalho íntegro, honesto."

O encontro deste fim de semana, que incluiu um jantar com Moro, foi promovido por um grupo de juízes no Facebook chamado "Magistratura Free". O objetivo, além da troca de experiências entre colegas, era sinalizar apoio ao juiz paranaense, que conduz a Lava Jato desde seu início.

"Foi uma escolha do grupo. Ele representa tudo aquilo que o magistrado deve fazer. Trabalha com isenção, imparcialidade", diz o juiz de direito na Bahia Vitor Bizerra, 43, um dos organizadores do evento, que chamou de "um encontro entre amigos".

Para ele e outros juízes ouvidos pela Folha, Moro tornou públicos os desafios por que passa a magistratura ao julgar crimes de corrupção. Por isso, demonstrar apoio seria nada mais que "natural".

"É algo como: 'Segura firme aí, é sua vez'", disse a juíza aposentada Denise Frossard, ex-deputada federal e responsável pela condenação da cúpula do jogo do bicho no Rio de Janeiro, na década de 1990.

Segundo Bizerra, trata-se de solidariedade, e não de idolatria. "Ele se tornou involuntariamente uma pessoa pública. Mas não há idolatria. É um retrato sobre o que faz, e as pressões que enfrenta, o juiz no Brasil hoje", afirma.

Palestra

Na palestra de cerca de duas horas, restrita a magistrados, Moro fez um histórico da Operação Lava Jato, e falou dos desafios de julgar e combater a "corrupção sistêmica" -termo amplamente utilizado em suas decisões sobre o esquema na Petrobras.

Para combater a falta de infraestrutura nas instâncias iniciais, sugeriu a criação de grupos regionais ou estaduais de combate a crimes na administração pública, com policiais e promotores dedicados ao tema.

Também defendeu a "transparência total" do processo em casos de corrupção. Sobre a pressão da opinião pública, Moro disse que o juiz sempre deve decidir tecnicamente, mas que ter o apoio da sociedade é importante em crimes contra a administração pública.

O magistrado, que tirou selfies e autografou livros, não quis falar com a imprensa. Cerca de 180 juízes participaram do evento.